“Páginas verdes de uma imprensa marrom”: a Ação Integralista Brasileira através da grande imprensa carioca

Crédito: Facebook de Vinícius Ramos.

Resultado de mais de oito anos de pesquisa, o livro “Páginas verdes de uma imprensa marrom” trata da Ação Integralista Brasileira através da grande imprensa carioca. O tipo de fonte usada é inédito para abordar o tema, e busca elucidar as relações entre dois jornais de grande circulação – “Correio da Manhã” e “O Jornal­ – e o integralismo.

O fascismo brasileiro foi um movimento de grande repercussão na década de 1930, e mobilizou milhares de pessoas das mais diferentes classes sociais. Neste estudo, Vinícius Ramos demonstra como podem ser repletas de idas e vindas essas relações, recheadas de anticomunismo e oportunismo político. O primeiro capítulo foi destinado a uma breve análise da Ação Integralista Brasileira, bem como a trajetória histórica dos periódicos, passando rapidamente em vista sua história desde a fundação até o momento em que a pesquisa dedica-se.

Crédito: Facebook de Vinícius Ramos.

No caso do Correio da Manhã, iniciando-se no fim do século XIX, e de “O Jornal, a partir de 1919 – sendo sua aquisição por Assis Chateaubriand em 1924 – mostrando idas e vindas com o poder, crises e sucessões dos jornais, além da justificativa do trabalho com a imprensa. O segundo capítulo trata da análise dos jornais escolhidos no que se refere às informações relevantes sobre a atuação da AIB que tenham sido noticiadas.

Iniciando a pesquisa a partir da primeira menção ao integralismo, ainda em 1932, é feito um cuidadoso levantamento destas aparições e provoca-se o diálogo destas com a bibliografia disponível sobre o integralismo. Além disso, são problematizadas as diferentes visões de fatos iguais, na tentativa de analisar algumas características da AIB, que dificilmente seriam alvo de crítica, a partir de fontes que não a imprensa, devido à possibilidade de conhecer muito do clima de uma época através de suas páginas – mesmo lembrando todas as intencionalidades e interesses por trás de cada manchete, reportagem ou editorial.

Crédito: https://bndigital.bn.gov.br/

A delimitação temporal vai até 1934, haja vista a importância da confusão envolvendo integralistas e antifascistas na Praça da Sé, em São Paulo, a “Revoada dos Galinhas Verdes”. O episódio acabou tornando-se um marco, tanto na atuação da AIB, quanto na simpatia de uma parte da imprensa pelo movimento.

Esta também é uma tentativa de analisar melhor as fontes que se mostram tão ricas, que pareceu impossível fazer um trabalho criterioso sem recorrer a este recorte, principalmente se levarmos em conta que, de acordo com a ferramenta virtual de busca da Hemeroteca Digital Brasileira, apenas um jornal tem mais de mil citações ao integralismo no período pesquisado, sendo em sua grande maioria, reportagens e artigos que não poderiam deixar de receber especial atenção.

Por fim, o terceiro capítulo é formado pela análise das fontes e sua articulação com a bibliografia utilizada no período que vai de 1935, ano que se mostra fértil para o crescimento da AIB, principalmente pela polarização com a Aliança Nacional Libertadora (ANL), até 1938, ano de seu fechamento total, inclusive como Associação Brasileira de Cultura (ABC).

Crédito: https://bndigital.bn.gov.br/

 Prefácio do Livro

O presente livro de Vinicius da Silva Ramos representa bastante bem a atual “fase” de trabalhos acadêmicos voltados para a análise aprofundada do Integralismo. Depois de um longo silêncio da historiografia brasileira e da solidão dos trabalhos tornados clássicos – o “quadrívio” formado por Hélgio Trindade, José Chasin, Marilena Chauí e Ricardo Benzaquém – a universidade, agora através dos seus cursos de pós-graduação e com metodologias especializadas e quadros teóricos sofisticados, voltou-se, enfim, para a destrinchamento da mais coerente e longeva corrente do pensamento de Extrema-Direita no Brasil.

A coerência “orgânica” do Integralismo, a sua condensação na Ação Integralista Brasileira/AIB, o papel fundamental de Plínio Salgado (1895-1975) e de suas grandes estrelas, como Miguel Reale e Gustavo Barroso, antes e depois da Segunda Guerra Mundial – quer dizer, antes e depois do impacto do fascismo real e do Holocausto – tornaram-se, hoje, um tema relevante e nobre no debate acadêmico brasileiro. No âmbito da ANPUH e ANPOCS, em seminários e simpósios específicos, o Integralismo e seus aspectos centrais – a proposta autoritária de um projeto nacional, a questão do antissemitismo, o papel da Igreja e da Família na Sociedade Brasileira, tornaram-se objeto de estudos, dissertações e teses.

Outros temas, como as questões de gênero, a educação, os jovens, as relações com as empresas ainda estão começando a ser estudadas, o que mostra a imensidão da tarefa pela frente. Vinicius da Silva Ramos escolheu um desses “continentes desconhecidos” para desbravar: a recepção do Integralismo no espaço público entre 1933 e 1938 através das páginas de dois jornais importantes da capital federal: “O Jornal” e “O Correio da Manhã”.

Através de tais “páginas verdes”, publicadas por jornais escolhidos exatamente por posturas ideológicas diversas, o jovem pesquisador busca a construção do que denominou, com uma construção teórica bastante bem elaborada, de “pacto tácito”, entre editor/redator e o público, estabelecendo a existência de um “auditório”, núcleo de uma esfera pública, já consolidado na República, malgrado o caráter ditatorial do regime político então existente.

A escolha do Integralismo, e a originalidade da temática recortada por Vinicius da Silva Ramos, é de extrema relevância para os nossos dias, inclusive suas estratégias de uso da mídia. Mesmo guardando as proporções da mídia tipográfica dos anos de 1930 e os modernos meios digitais de hoje, podemos ver nas páginas do presente trabalho, a relevância da propaganda e do uso da mídia, aliás eixo central da atuação de todos os fascismos.

O trabalho de Vinicius Ramos, por fim, lança mais luz sobre esta potente e onipresente corrente do autoritarismo brasileiro, hoje rediviva em vários movimentos unificados em torno de proposta antidemocrática, antipopular e anti-igualitária que tanto ameaça a República. Conhecer suas origens e sua trajetória, através das páginas deste trabalho, é – para além de um brilhante trabalho acadêmico – um esforço de cidadania.

Francisco Carlos Teixeira Da Silva

Professor Titular de História UFRJ/CPDA/UFRRJ

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