“Há pouco estudo sobre o cinema soviético no Brasil”, João Lanari Bo – pesquisador em história do cinema

Crédito: Mariana S. Brites/Revista Intertelas.

Com pouca literatura destinada ao estudo do cinema soviético escrita em língua portuguesa, a recente obra “Cinema para Russos, Cinema para Soviéticos” (2019), de João Lanari Bo, publicada pela editora Bazar do Tempo, chega com o objetivo de preencher um pouco a grande lacuna existente no Brasil sobre o assunto. Ele que é professor de história do cinema na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UNB) e já escreveu um livro anterior “Cinema Japonês”, publicado pela editora Giostri em 2016, foi diplomata no Japão, residindo em Tóquio por três anos.

Segundo a editora executiva da Bazar do Tempo Maria de Andrade, em entrevista para a Revista Intertelas, o Brasil ficou muito detido nos movimentos de vanguarda. Assim, existe um público que procura publicações sobre a literatura e poesia de vanguarda russa, porém é pouco perante o universo que ainda está para ser descoberto e trabalhado. “Curiosamente, no mesmo período que trabalhamos o projeto do João, outros voltados para a tradução de autores russos surgiram. Há muita coisa que precisa ser traduzida, escrita e que deveria ser feita de forma mais sistemática. O problema é a falta de profissionais. Há poucos tradutores que dominem bem os dois idiomas, mas, aos poucos, as universidades e instituições de ensino em geral estão provendo mais profissionais especializados“, salienta a editora.

Maria de Andrade, editora executiva da editora Bazar do Tempo. Crédito: Mariana S. Brites/Revista Intertelas.

Sobre este trabalho, Andrade comentou que há tempo acompanha a pesquisa de Lanari Bo. “Tivemos um contato muito orgânico desde o início. Acompanhamos de perto o livro e a pesquisa surgindo. Ele escreve rápido. É muito dinâmico. Creio que redigiu o livro em meses, pois já tinha um extensa pesquisa organizada e com mais ou menos 150 filmes vistos e que são citados no livro, muitos deles com fotos. Ele faz a conexão entre a questão histórica e política com os filmes. Outro ponto que avaliamos à favor da publicação é que se trata de um tema que falta bibliografia. Não há quase autores que falem sobre a cinematografia soviética em diferentes períodos“. Para saber um pouco mais sobre o presente trabalho, a Intertelas teve a oportunidade de conversar com o autor na época do lançamento da obra na livraria Blooks. A entrevista você confere abaixo.

João Lanari Bo, pesquisador em história do cinema, professor de história do cinema na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UNB) e ex-diplomata. Crédito: Mariana S. Brites/Revista Intertelas.

Poderia contar como se deu o processo da pesquisa e como teve a ideia de publicar sobre com o cinema soviético?

A pesquisa é a melhor parte do processo. Todos que gostam de cinema têm algum vinculo com a cinematografia soviética. Isso não é novidade! Quando estava na universidade, tínhamos um grupo de cineclubistas e fizemos uma revista em homenagem ao diretor Dziga Vertov. Depois de um certo tempo, quando morava em Paris, em 2002, houve uma mostra de cinema soviético, mas do período pós-revolucionário, que objetivou exibir filmes que saiam um pouco daquele grupo de cineastas consagrados que todos conhecem.

Era uma outra fase em que o cinema mostrou-se mais popular, mais pop, o que retirou a ideia um tanto canonizada que eu tinha sobre o cinema região e que normalmente todos temos. Foi uma revelação! Então, após assistir muitos filmes, percebi que no Brasil pouco se conhece sobre as outras fases do cinema soviético. As publicações são muito poucas. Assim, resolvi escrever o livro.

Lançamento do livro ocorreu na livraria Blooks do Estação Net Rio. Crédito: Mariana S. Brites/Revista Intertelas.

Quais são as características desta fase posterior do cinema soviético que se diferem do período revolucionário que todos conhecem?

Todos os cineastas soviéticos do período de 1917 a 1930 realizaram uma verdadeira revolução cinematográfica. Eles acreditavam que o cinema era uma ferramenta de emancipação do proletariado, de ascensão social. Para eles, a técnica cinematográfica como a montagem serviam como ferramenta para uma conscientização das massas sobre os problemas sociais. Isso foi algo revolucionário, influenciou muitos ao redor do mundo permanentemente.

Já no período pós-revolucionário há uma mudança gigantesca, até houve uma certa revisão e crítica dos cineastas desta época como é o caso de Andrei Tarkovski, que em seu livro “Esculpindo o Tempo” (1984), faz críticas violentas ao Sergei Eisenstein, dizendo que ele manipulava o tempo e o espaço e que isso não o interessava como cineasta. Claro, estas críticas não diminuem o trabalho de Einsentein porque se trata de diferentes períodos históricos. Com a morte de Iósif Stalin, época em que o cinema foi muito censurado e também marcado pelos inúmeros conflitos e pela Segunda Guerra Mundial, houve uma fase mais aberta, e que novas histórias e outras formas de fazer cinema começaram a ser realizadas.

Crédito: Mariana S. Brites/Revista Intertelas.

Você comentou que é possível encontrar em algumas obras soviéticas algum toque de influência do cinema dos Estados Unidos.

No filme “A Questão Russa” (1948), de Mikhail Romm, sobre o papel da imprensa na disputa ideológica da Guerra Fria, esta influência é bem evidente. Mas de um forma geral, houve sim uma certa influência tanto do cinema dos EUA na URSS, quanto o contrário também. Romm, por exemplo, em outro filme da década de 1930, ele disse ter inspirado-se em John  Ford. O Eiseinstein escrevia artigos elogiando Ford. As pessoas em geral, em um pensamento muito calcado nos tempos da Guerra Fria, acreditam em inverdades como as de que as pessoas permaneciam isoladas em seus respectivos blocos políticos e econômicos, isso não foi realidade.

O bloco soviético e os Estados Unidos influenciavam-se mutuamente. O Eisenstein falava muito do trabalho de David Griffith. A década de 1920 foi um período muito aberto do sistema soviético, e houve um cinema de cultura pop, popular. Por exemplo, o filme dos EUA “O Ladrão de Bagdá” (1924), de Raoul Walsh teve uma sua adaptação soviética. Então, foram filmes que ao longo do tempo não sobreviveram, mas que na época tinham público e assim por diante.

Você foi diplomata em Tóquio e antes de escrever sobre cinema russo e soviético, publicou uma pesquisa sobre o cinema japonês. As pessoas esquecem que grande parte da Rússia está na Ásia. Influências de países como Rússia, China, Japão, Coreia sempre ocorreram de alguma forma na América do Sul, mas ninguém deu muito atenção. Como você analisa esta situação?

Isso é uma realidade. A presença é clara, mas pouco se fala, se estuda, se informa sobre a presença cultural destes países aqui. A Rússia em São Paulo, por exemplo, e no sul do país tem uma presença de comunidades e cultural significativa. E para entender este país é preciso compreender a sua estrutura que leva em conta o estar presente na Europa e na Ásia. Trata-se de um país continental que olha para estas duas regiões da mesma forma, considerando-as como parte de si. A tendência do Brasil é de olhar cada vez mais para a Ásia e sair um pouco desta visão centrada na Europa. É algo que fará parte do futuro e é incontornável.

Crédito: Mariana S. Brites/Revista Intertelas.

Akira Kurosawa fez uma de suas principais obras, que tornou-se um clássico do cinema, em uma parceria com os soviéticos, “Dersu Uzala” (1975). Japão e URSS, assim como a Rússia de hoje, têm diversas contendas políticas. Contudo, a parceria em outros campos ocorreram e ainda ocorrem. Não existiram muitas coproduções entre japoneses e soviéticos, mas o que se pode dizer sobre a relação que estabeleceram no cinema?

Dersu Uzala foi a colaboração mais bem-sucedida entre URSS e Japão. Porém, existiram cineastas importantes como Kumei Fumio que fez toda a sua formação na URSS, em Leningrado, hoje São Petesburgo. Ele estudou com grandes nomes do cinema soviético Eisenstein e Vsevolod Pudovkin. Depois, voltou para o Japão e começou a fazer filmes bastante politizados. Acabou preso no fim, por realizar um documentário sobre a Segunda Guerra que o governo japonês não gostou.

Crédito: Mariana S. Brites/Revista Intertelas.

Outros nomes como Kogo Noda e Mizoguchi Kenji foram muito influenciados pelo cinema soviético revolucionário. Iwasaki Akira foi preso em 1938 por ser marxista e produziu o documentário “A Japanese Tragedy” (1946) que foi banido logo após o seu lançamento pelo governo japonês. Então, apesar das tensões políticas entre seus governos, russos e japoneses sempre tiveram uma proximidade cultural muito grande.

Muitos japoneses viraram comunistas e ficaram na URSS. Com o fim da guerra, muitos permaneceram por lá. O Partido Comunista logo no fim da Segunda Guerra teve muito poder no Japão. Muitos japoneses falam russo e muitos russos falam japonês. Eles são vizinhos e estas conexões tanto nos aspectos positivos, quanto negativos, pois Japão e Rússia travaram uma guerra violenta no início do século, fazem parte da história desta região do mundo que o brasileiro, apenas agora, começa a conhecer e entender.

 

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