A contra-história do ano de 1989

Uma mulher bósnia chora no caixão de seu parente, um dos 173 caixões de vítimas recentemente identificadas do massacre de Srebrenica em 1995, no Centro Memorial de Potocari, perto de Srebrenica, em 9 de julho de 2014. Crédito: Reuters.

Hoje, o ano de 1989 é lembrado a partir de múltiplos sentimentos que variam em relação às forças políticas existentes na sociedade que se segue àquele ano. Ainda que hajam aqueles que vejam tal ano com uma certa aura de triunfo do liberalismo, mesmo da democracia liberal sobre o ’’totalitarismo’’, não há como negar o retrocesso internacional representado, não apenas na derrota das forças socialistas no leste Europeu, e depois da União Soviética (URSS), como o avanço do neoliberalismo encarnado em uma corrida neocolonial.

O atual culto a 1989, que virtualmente diminui ano após ano, chega a picos críticos com uma desordem de nível internacional invejável, mesmo para as duas grandes guerras do século XX. De acordo com os números fornecidos pela própria Organização das Nações Unidas (ONU), em janeiro do ano de 2019, 71 milhões de pessoas, das mais diversas nacionalidades haviam deslocado-se de maneira forçada para sobrevivência, que de longe supera a quantidade de refugiados da Segunda Guerra Mundial. Nunca o mundo esteve tão instável, pobre ou em conflito como hoje, atingindo tantas pessoas direta e indiretamente.

Esta herança presente não remonta apenas esta década, pois os últimos 30 anos são marcados pelo aprofundamento de uma instabilidade econômica e política mundial. Ela é fruto do aumento da concentração de renda, crescimento do número de guerras e golpes de Estado, que por sua vez levaram a formação de diversas ondas de imigração periféricas que variam de escala. Nos anos 90 por exemplo, a partir da Guerra Civil da Iugoslávia, vários imigrantes do antigo país socialista foram tentar a sorte nos países ocidentais, bem como também se deu na própria terapia de choque neoliberal no leste europeu, cuja imigração russa tornou-se massiva, ainda que pouco conhecida. A pobreza advinda do desemprego em massa e concentração bruta de renda fez com que países como a Romênia passassem a ser, por exemplo, a maior rota de tráfico de mulheres do mundo!

Fotografia de família romena diante de sua casa. Crédito: http://www.vermelho.org.br

Aliás, sobre os países do leste, é importante colocar que desde a restauração do capitalismo, e a imposição de uma ’’terapia de choque’’ neoliberal, nenhum deles conseguiu retornar aos índices do período socialista. Na Europa, os países mais explorados economicamente, instáveis socialmente, com altas taxas de mortalidade infantil e pobreza, ficam justamente nas antigas democracias populares. Isso leva a um questionamento sobre a maneira como se processou não apenas a transição para o sistema capitalista liberal ocidental, como a igual integração- vista como absorção por alguns países- à União Europeia, alguns dos quais hoje questionam sua permanência e posição na organização, causando uma crise interna na própria instituição.

As análises geopolíticas que restringem o atual caos internacional aos governos de Barack Obama e Donald Trump à frente da Casa Branca, estão portanto, imbuídos de equívocos por desconsiderarem a própria desintegração do bloco do leste como início de uma nova onda de guerras e conflitos. Foi ainda na aura da década de 1990 que esta ’’guerra dos Estados Unidos contra o mundo’’ deu início ao atual momento, ao tentar fazer imperar sua vontade sobre os demais países, mesmo sob a ordem e leis internacionais! A emergência da teoria de que existia uma luta por parte das forças do ocidente pelo triunfo universal da democracia liberal tornou-se o grande norte, cuja filosofia kantiana foi o principal guia.

A retórica colonial, fascista e autoritária ressurge com uma força tão grande, que mesmo para alguns intelectuais liberais mais moderados, tornou-se assustador, embora não tão condenável. A ideologia rostowiana, que nas décadas de 1960 e 1970 precedeu o neoliberalismo, foi um grande potencializador deste reação ocidental a tudo o que havia acontecido ao longo do século XX, isto é, a derrocada de seus impérios coloniais, e a consequente tendência declinante de perda da hegemonia.

O ano de 1989 marcou o triunfo desta estratégica ofensiva geopolítica por meio de instrumentos econômicos e ideológicos contra às antigas democracias populares no leste e a URSS. Porém, também demarca o início da crise do próprio sistema estabelecido no pós-segunda guerra, e a emergência de conflitos balizadores de uma desordem marcada pelo caos e violência entre diversos grupos e Estados que desrespeitam cada vez mais as leis internacionais.

As leis internacionais, estabelecidas nos seus períodos anteriores- Westfália (1648) e Viena (1815)- foram quebradas a partir de conflagrações entre as potências pela hegemonia, a partir de um longo processo histórico de esgarçamento dos pactos, e do impulsionamento do caos, e forças radicais que desestabilizassem os adversários. A ascensão de movimentos fascistas em toda a Europa no início do século XX era não apenas consequência de uma divisão política processada no campo liberal, a partir do triunfo da Revolução de Outubro, como ela mesma foi impulsionada pelos próprios setores não fascistas que temiam a vitória de forças comunistas em outros países do continente.

Embora os Estados Unidos não sejam mais plenamente hegemônicos sobre o mundo capitalista desde a década de 1970, pois compartilha parte deste poder com outros países do bloco ocidental, não há espaço no centro do capitalismo para dois reis. Desde a vitória das forças burguesas na Europa no século XVIII, a história mostra que sempre que houve um desafio por parte de um país ou um grupo de Estados a centro hegemônico do capitalismo, ocorreu uma conflagração de pesos internacionais, como foram as Guerras Napoleônicas, e as próprias guerras mundiais do século XX.

Foto de soldados estadunidenses na Operação Justa Causa- Invasão do Panamá- em 1989. Crédito: https://twitter.com/historylvrsclub/

Porém, nem é preciso ir muito longe na análise, pois antes do desfecho terrível de Nicolae Ceauşescu em 25 de dezembro de 1989, executado após um violento golpe de Estado na Romênia, os Estados Unidos, de maneira policialesca decidiram invadir o Panamá para depor Manuel Noriega, acusado de ligações com o narcotráfico por tribunais daquele país. Em ambos os países, ironicamente, a retórica de usar a violência da democracia para derrubar os tiranos e pôr estes ’’povos no caminho do progresso’’, era imbuìdo de uma ideologia colonial de dar inveja a Immanuel Kant e John Stuart Mill. No caso do último em especial, o uso do eufemismo, forças das trevas, Império do Mal, e dentre outras retóricas tipicamente religiosas, eram as prediletas do governo de Ronald Reagan na arena internacional, mas posteriormente também foram adotadas por George Bush, Bill Clinton e George W. Bush. Qualquer semelhança não pode ser pura coincidência!

Ainda em 1989, em especial na América Latina, o Caracazo é pouco lembrado, justamente por ter sido a primeira grande insurreição popular contra a ordem neoliberal. A repressão violenta de um governo teoricamente democrático, presidido por Carlos Andrés Perez, foi uma das manchas mais terríveis do período.

A revolta gerou não apenas um temor geral na região em relação às reações possíveis a tais medidas, resultando em uma certa hesitação na aplicação completa das políticas neoliberais em vários lugares, como fortaleceu o próprio antagonismo a este projeto, que chegaria ao poder em 1998 na própria Venezuela com o movimento bolivariano. Contudo, a Venezuela fez um caminho diferente do tomado por outros países, como México, Bolívia, Peru e Colômbia que ao mergulharem neste projeto, tornam-se países fortemente instáveis política e socialmente.

Caracazo, a revolta popular abriria um novo capítulo da história da Venezuela. Crédito: esquerdadiario

No México em especial, o neoliberalismo causou uma considerável onda migratória para os Estados Unidos ainda no início da década de 1990, o que levou à construção do muro com o país durante o governo Bill Clinton, sob o manto da ’’Doutrina de Guerra ao Narcotráfico’’. Embora seja histórica a comunidade de mexicanos nos Estados Unidos, a imposição da terapia de choque neoliberal dos governos de Carlos Salinas (1988-1994), Ernesto Zedillo (1994-2000) e Vicente Fox (2000-2006), junto com a guerra ao narcotráfico de Felipe Calderón (2006-2012) e Enrique Peña Nieto (2012-2018), torna massiva uma imigração de trabalhadores mexicanos para o país, em busca de melhores condições de vida.

A reemergência da própria política ingerencista dos Estados Unidos nos países do Caribe após os anos 90, fortaleceu uma onda imigratória que hoje chega a números alarmantes, a ponto de Trump querer fazer do muro da fronteira uma política prioritária. O triunfo desta retórica, aliada ao neoliberalismo, começou em 1989 na América Latina, e foi espelhada a posteriori nos países do leste europeu também durante os anos 90.

A caixa de pandora aberta pelo caos do ano de 1989 ainda deixou como herança o fundamentalismo religioso- cristão e islâmico. Naquele mesmo ano, após décadas de financiamento do extremismo islâmico, não apenas o Afeganistão sucumbiu ao obscurantismo do grupo terrorista Talibã, como trouxe a própria URSS já debilitada pelas reformas fracassadas da Perestroika, para a praça de guerra no conflito do Nagorno-Karabakh. Vale observar que o Cáucaso passaria por toda a década de 1990 neste conflito. Zgibniew Brzezinski foi quem havia traçado esta estratégia, e pode ser considerado um dos arquitetos do caos enquanto caminho para a hegemonia dos EUA.

Terroristas afegãos no período da intervenção soviética no país. Membros do grupo Talibã e depois Al Qaeda. Crédito: https://tormentopabulum.wordpress.com

O fundamentalismo extremista cristão começou a ganhar força naquele ano também, onde a primeira visita internacional de Lech Walesa, eleito presidente da Polônia, foi a Roma, para receber a benção do Papa João Paulo II, que, segundo o polonês, foi fundamental para a derrubada do socialismo no país. No outro lado do globo, mais precisamente em São Paulo, a Igreja Universal, um polo protestante radicalizado, orientada pelo sionismo, começava a ganhar um papel político nacional relevante a partir da compra da antiga Rede Record pelo Bispo Edir Macedo, que começaria a expansão de um império. Tanto a ordem neoliberal, quanto a desarticulação das forças progressistas nos anos posteriores, derivada da ofensiva liberal, culminaram com a expansão destes setores, criando dentro do próprio triunfo do caos, a possibilidade de reemergência do fascismo.

Mesmo na consecução do projeto da União Europeia– que venceu o projeto de integração dos países do leste no Conselho Econômico de Assistência Mútua-, os avanços apenas ocorreram para alguns países, enquanto que para outros o projeto da ’’grande família europeia’’ nunca passou de vaga miragem. A Romênia e a Hungria, por exemplo, continuam sendo economias periféricas, com um estágio de desenvolvimento humano, econômico e social ainda pior que antes da queda do socialismo. A ilusão com a integração europeia aliado ao sentimento anticomunista construído nessas sociedades, reforça um resgate histórico de um dos períodos mais terríveis na história europeia, que é a sociedade do entre guerras, e mesmo a Segunda Guerra Mundial, quando estes países tinham governos fascistas.

Contudo, isso não significa que tais forças não estivessem presentes em 1989, ora Viktor Orban, atual líder do União Cívica Húngara (FIDESZ) era um dos estudantes que participaram dos protestos contra o governo de Janos Kádar. A Bulgária- país em que muitos estudiosos lembram apenas para exemplificar como o mais fiel dos países socialistas à União Soviética- foi um dos poucos que se tem notícia de onde se derruba uma monarquia, e quando o monarca retorna ao país, já republicano, torna-se Primeiro-Ministro. Curioso inclusive é lembrar que Simeão II– último rei da Bulgária- era filho de Bóris III, czar búlgaro que era aliado do eixo durante a Segunda Guerra Mundial, e que havia contribuído para a campanha alemã nos balcãs. Campanha, que destruiu a Iugoslávia, ocupou a Grécia e foi responsável por uma limpeza étnica de sérvios e bósnios.

Viktor Orban está no seu terceiro mandato como primeiro-ministro da Hungria e tem um discurso fortemente anti-imigração. Crédito: Reuters.

Partindo desta contra-história, cujo o eixo basilar foi por quase uma década o termo Fim da História, vem a irresistível pergunta: se o movimento de 1989 em todo o Globo, que resultou na desintegração do antigo bloco socialista, não representou desde o seu início o avanço da democracia real, ou do mundo rumo à integração global, devido ao uso do fracassado projeto neoliberal, o que simbolizaria este ano então? A resposta já foi até aqui parcialmente traçada, e possui apenas uma única palavra: caos.

O equilíbrio, ainda que crítico, existente no período da Guerra Fria entre a União Soviética e os Estados Unidos impediu crises e conflagrações generalizadas em todo o mundo, ainda que não pudesse impedir as conflagrações nas guerras de libertação colonial, consequência direta de lutas dos povos por independência, que datam antes da Guerra Fria. A relação diplomática soviético-estadunidense era fortemente baseada na ideia de coexistência pacífica, especialmente em razão da solidez da política externa soviética que por quase toda a Guerra Fria foi capitaneada pelo ministro das relações exteriores Andrei Gromyko, grande defensor desta doutrina.

Andrei Gromyko Ministro das Relações Exteriores da União Soviética (1957-1985). Crédito: https://www.nationaalarchief.nl/

Isso é importante ser colocado, pois as teorias políticas liberais sobre as relações entre os países a nível internacional reproduzem a ideia de uma ’’Paz democrática’’- conceito inclusive kantiano-, onde as potências encontram sempre um equilíbrio entre si- pois jamais um povo livre buscaria oprimir outro povo livre. Contudo, as relações entre os Estados, e em especial no capitalismo, são baseadas a partir de posições de poder. Logo, não existe um equilíbrio natural entre as potências, e o sistema mundial de relações estabelecido desde o século XVIII é caracterizado por lutas, onde o equilíbrio apenas se dá mediante a uma igualdade de forças, ou a anulação mútua de forças. É que os chineses chamam de ’’jogo de soma zero’’- caso da Guerra Fria, baseada no temor de uma guerra atômica que não teria vencedores.

Contudo, o fim da URSS, e a subsequente desordem interna da Rússia, que ensaiava passos em direção ao ocidente encerrou este equilíbrio, e ao mesmo tempo tornou obsoletos grande parte dos mecanismos e instituições estabelecidas no período do pós-guerra, que de criados para conter o avanço do socialismo, tornam-se instrumentos para fazer imperar a vontade de um país sobre o resto do mundo. A desestabilização da ordem geopolítica estabelecida em 1945 é uma consequência resultante daquele ano em especial. Este processo está, por sua vez, ligado diretamente a uma estratégia geopolítica que possui evolução e desdobramentos posteriores.

O caos como instrumento de hegemonia e ordem política é a estratégia atual do imperialismo. Naquele momento, este ainda se encontrava em seus princípios sistematizadores. Recentemente, o pesquisador e analista Andrew Korybko publicou um importante estudo sobre a questão, intitulado “Guerras Híbridas: das Revoluções Coloridas aos Golpes”, onde o dito autor não apenas aprofunda esta questão, buscando para além da conceitualização, o entendimento utilitário desta prática sistemática estratégica da geopolítica ocidental. Tal prática que provoca no ano de 1989 uma ruptura, estabelecendo e aprimorando este novo modelo de guerra, que triunfa em boa parte do mundo, onde foi aplicado.

Andrew Korybko em entrevista para o programa In the Now do canal RT. Crédito: : https://thesaker.is

Com alguma razão pode-se dizer inclusive que o período atual é o mais próximo de uma conflagração internacional desde 1945, tendo em vista a tendência decadente das instituições internacionais e o desrespeito das leis e pactos estabelecidos entre os países. Isso se dá também porque não apenas a memória dos terríveis acontecimentos do século XX tem sido radicalmente alterada. Há um claro objetivo de resgatar ’’velhos revanchismos’’ e ’’fundamentalismos’’, como o temor por conflitos e mesmo a ascensão de regimes fascistas, o que tem gerado um debate maior do que ocorreu durante toda a Guerra Fria.

Logo no período posterior a 1989, tendo observado a ascensão de setores fascistas e fundamentalistas em vários dos países destruídos pela estratégia geopolítica estadunidense de desestabilizar o bloco socialista, os mesmos que apoiaram tais ’’revoluções pacíficas’’, culpam os próprios comunistas e a União Soviética por essa onda fundamentalista. Segundo estes, o motivo deriva do ’’sufocamento’’ durante séculos do direito a liberdade dessas nacionalidades e povos, algo que teria levado os mesmos países hoje a aderir ao extremismo como forma de ’’resistência’’ em razão do modelo ’’tirânico imposto’’ por Moscou.

Essa recusa do ocidente em assumir os filhos franksteins gerados no cenário de ebulição política daqueles anos é algo que ainda ocorreria em 2011 na dita Primavera Árabe, onde grupos terroristas quase constituíram um califado islâmico de Trípoli até Baghdad, causando a mais massiva onda migratória da história mundial devido a guerras, tráfico de pessoas e inclusive comércio de escravizados! A narrativa era mais uma vez a mesma, os governos tirânicos da região impediam o ’’anseio democrático’’ das massas, e por isso a adoção do radicalismo e violência tornou-se a única opção, pois as mesmas queriam a liberdade, sem saber como a mesma era- algo que somente os ocidentais sabem, visto que nasceram supostamente livres. Trata-se de uma teoria política e ideológica puramente abstrata e liberal, certamente oriunda apenas de círculos corporativistas do Departamento de Estado dos Estados Unidos.

Clique na imagem para realizar a compra. Crédito: editora Expressão Popular.

Tal abordagem põe os povos não ocidentais na condição de meros seres submetidos a lideres autocratas, que não sabem apreciar a liberdade, e que por isso usam da violência para oprimir a liberdade individual dos outros. Uma visão oriunda de uma espécie de círculo vicioso de uma leitura culturalista que no século XIX foi feita por Alexis de Tocqueville sobre os franceses, que segundo ele, era um povo demasiadamente heterogêneo e pouco cívico para ser tão liberal quanto a Inglaterra.

Igualmente, esta abordagem leva em conta que os caminhões da General Motors, fuzis AR-15, dentre outros equipamentos de fabricação estadunidense chegaram sozinhos na Síria, bem como o dinheiro para sustentar uma guerra de quase uma década contra um governo bem armado, teria vindo de um simples ’’caixa de ajuda mútua’’ de pessoas comuns. Uma história que inclusive levada a seu extremo poderia fazer-nos acreditar que a Guerra Civil Síria teria sido obra e consecução de um simples acaso.

Charge crítica ao financiamento por parte dos governos dos Estados Unidos e Israel a grupos terroristas como o Estado Islâmico. Crédito: https://itshamidjalal.files.wordpress.com

Deixando de lado os conflitos presentes e retornando a análise para 1989- onde muitos deles começam-, foi o acúmulo destas pólvoras acesas ao redor do Globo que contribuiu com um peso considerável em um desordenamento internacional. Luiz Alberto Moniz Bandeira, no seu último livro, “A Desordem Mundial: O espectro da total dominação”, havia deixado também igualmente claro como 1989 representou uma considerável rachadura na ordem internacional, de onde puderam sair estes elementos retrógrados. Elementos estes que estavam também de alguma forma presentes na política estadunidense desde a década de 1930, mas que foram potencializados durante o governo de Bill Clinton em sua estratégia imperial expansiva internacional frente a instabilidade da Rússia, e a ainda débil posição chinesa na ordem mundial.

Portanto, o ano de 1989 não foi apenas o ano em que o bloco socialista desintegrou-se espacialmente a partir de um processo interno e externo de crise das democracias populares e da União Soviética. Esta foi apenas uma face dos diversos acontecimentos ocorridos neste ano em específico que marcou um traço fundamental na história do tempo presente. 1989 representa mais do que isso, é o início da ordem do caos, que hoje impera sobre o planeta, onde leis internacionais e pactos não são mais respeitados, uma contra-história não apenas pouco analisada como também pouco discutida. Resgatar ela é importante não apenas para a forma como se observará e discutirá estes eventos de hoje no futuro, mas para delinear que tipo de ordenamento internacional almeja-se ou não para a sociedade mundial nas décadas seguintes a partir disso.

Referências:

KORYBKO, Andrew. Guerras Híbridas: Das Revoluções Coloridas aos Golpes. Editado por Expressão Popular, São Paulo, 2018.

LOSURDO, Domenico. Democracia ou bonapartismo: Triunfo e decadência do sufrágio universal. Editado por UNESP, São Paulo, 2004.

LOPES, Carlos. Crescimento económico e desigualdade: As novidades pós-Consenso de Washington. In: Revista Crítica de Ciências Sociais. 2011. Disponível em: https://journals.openedition.org/rccs/1475.  

MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto. A Desordem Mundial: O espectro da total dominação. Editado por Civilização Brasileira, São Paulo, 2016.

Materias jornalísticas:

AGÊNCIA BRASIL. Quase 71 milhões de pessoas foram forçadas a deixar seus lares em 2018. 2019. Disponível em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2019-06/quase-71-milhoes-de-pessoas-foram-forcadas-deixar-seus-lares-em.

DAILY MAIL. Beaten, raped, tortured and starved: The shocking fate of Eastern European sex trafficking victims revealed. 2014. Disponível em: https://www.dailymail.co.uk/femail/article-2588795/The-shocking-fate-Eastern-European-sex-trafficking-victims-revealed.html.

ESTADÃO. Queda do Muro de Berlim: O Sombrio aniversário de 30 anos. 2019. Disponível em: https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,queda-do-muro-de-berlim-o-sombrio-aniversario-de-30-anos,70003076812.

EURONEWS. Os salários de miséria na Europa: o caso da Bulgária. 2019. Disponível em: https://pt.euronews.com/2019/02/12/os-salarios-de-miseria-na-europa-o-caso-da-bulgaria.

GAZETA DO POVO. Mais pobres da UE, crianças da Romênia são as maiores vítimas da crise no país. 2013. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/mais-pobres-da-ue-criancas-da-romenia-sao-maiores-vitimas-da-crise-no-pais-f1bel9umhbfjtpbo59169juq6/.

JACOBIN. When Socialist Hungary Went Neoliberal. Entrevista com Adam Fabry. 2019. Disponível em: https://jacobinmag.com/2019/09/hungary-neoliberalism-soviet-union.

OPERA MUNDI. Do Neoliberalismo ao Chavismo: 29 anos do Caracazo na Venezuela. 2018. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/opiniao/48981/do-neoliberalismo-ao-chavismo-29-anos-do-caracazo-na-venezuela.

STRATEGIC CULTURE FOUNDATION. 30 years after Berlin Wall came down, East and West Germany are still divided. 2019. Disponível em: https://www.strategic-culture.org/news/2019/11/10/30-years-after-the-berlin-wall-came-down-east-and-west-germany-are-still-divided/.

THE GUARDIAN. How liberalism became ’the god that failed’ in eastern Europe. 2019. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2019/oct/24/western-liberalism-failed-post-communist-eastern-europe.

Vídeos:

“El 27: Yo me acuerdo” (2016) de Liliane Blanzer, documentário.

“Generations of Romania girls trafficked into Europe’s sex industry” (2018). Produzido por The Guardian. 

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