Uma sugestão em tempos críticos: o cinema de Jia Zhang Ke em “As montanhas se separam”

Cena do filme “As montanhas se separam” (2015) de Jia Zhang Ke. Crédito: IMDb.

São tempos difíceis, exigentes e críticos para a humanidade. Eles exigem muito de nós. A Organização Mundial da Saúde (OMS), todos os países e governos e a população continuam sendo afetados pelo Coronavírus (COVID-19) nos mais diversos setores. Falamos de crise nos setores de saúde, vide a falência do sistema de saúde da Itália; começos de crise na economia, vide os socorros governamentais às empresas e à população – em alguns casos, comprovando a falácia do liberalismo como conhecemos – e crise da própria infraestrutura das cidades.

Desejo força às famílias de pessoas afetadas e as que estejam em luto pela perda de parentes queridos para esse vírus. Só no Brasil falamos de aproximadamente 2200 casos enquanto escrevo esse texto. O número tende a crescer, infelizmente. Aqui no Rio de Janeiro, de onde escrevo, muitas pessoas encontram-se em suas casas, isoladas por força de decreto. O isolamento foi estimulado como ação para contêr o avanço da contaminação comunitária, visto que já registramos mortes no país e um percentual crescente do número de casos.

O que nos resta fazer? Alguns talvez se inspirem e louvem equivocadamente esse clima apocalíptico. Uma pregação sem sentido se você assim como eu conhecer o texto bíblico, que nunca ordenou imprudências como as que temos visto. Prefiro ficar do lado de cristãos mais conscientes de suas obrigações. Não poderia deixar de mencionar o exemplo do pastor presbiteriano e diretor da ONG Rio de Paz, Antônio Carlos Costa, que além de parar a programação presencial de sua igreja – a Igreja Presbiteriana da Barra – decidiu ceder o espaço para as demandas do poder público. Diz ele que ali pode ser montado um hospital de campanha para os casos se for necessário. Belíssimo exemplo! Ele assim como outras pessoas decidiram criar, inovar e avançar. Alguns destes com a cultura e o saber, mostrando a força dos bens culturais, mesmo quando o acesso presencial a eles falha.

De fato, todo cuidado é crucial e necessário diante desse estado de coisas (#ficaemcasa!), mas, por outro lado, muitas pessoas decidiram inovar no meio da crise: sem poder sair de casa e necessitados de evitar “os embalos de sexta à noite”, vi muita gente ler, reler, aprender coisas novas, cantar e ressignificar esse momento com apoio das redes sociais. Belas manifestações de criatividade em meio a tempos críticos!

O pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil Antônio Carlos Costa é fundador da ONG Rio da Paz. Crédito: André Arruda /Época/O Globo.

Por exemplo, professores que são meus amigos lançaram-se nas plataformas do Youtube, do Facebook e, destaque-se, nas lives e vídeos que podem ser realizadas no Instagram, através do IGTV. Recomendo especialmente a série muito legal chamada “História tá aqui, história tá aonde” dirigida pelo meu colega Matheus Viug (@viugdehistoria), que fala sobre a história  sua relação com temas da atualidade do Brasil e do Mundo de maneira bem divertida, útil e lúdica.

Outro exemplo legal: colegas músicos estão inovando ao fazer “pocket show”, na mesma plataforma; veja as páginas da Gabi Buarque com suas composições gravadas e a page do  Gabriel Vazzoler (@gabrielvzzlr), com seus covers e músicas autorais. Ambos trazem uma considerável contribuição a música popular brasileira e animam a todos e todas nós nesses tempos, mostrando que é na cultura que se encontra a saída, a crítica, a inspiração e a diversão ao mesmo tempo. Enfim, são muitos casos e convido você a me contar os que conhece, ok?

De minha parte, uso esse espaço da coluna para acompanhar a decisão desses amigos e amigas queridos e queridas e tento sugerir uma diversão. O gostinho especial está no fato de que eu vou sugerir algo que vem da China! Embora eu conheça um pouco melhor a cultura pop japonesa (como otaku recomendo criar uma lista daqueles clássicos dos anos 80 e 90 para esses tempos), diante de falas tão absurdas quanto as do filho do golpista-presidente, que não merece ser mencionado aqui, e a perfeita resposta do embaixador da República Popular da China no Brasil, Yang Wanming, não poderia ser diferente. Vamos juntos? Refiro-me ao filme “As montanhas se separam” (2015), de Jia Zhang-Ke.

Zhao Tao, Sylvia Chang, Zhang Yi, Jing Dong Liang e Han Sanming compõem o grande elenco reunido ao longo de gritantes 131 minutos (duas horas e meia, que valem a pena!) em que se desenrola o filme “As montanhas se separam”, distribuído no Brasil pela Imovision. Drama de produção binacional (França e China) preocupa-se em narrar algo que adicione às grandes preocupações do seu diretor: a forma como a China transforma-se a passos largos, essa estética da vida comum e o poder da consciência histórica, sobretudo, quando esta é dirigida pelo setor político. Vejamos.

O diretor Jia Zhang Ke. Crédito: Asia News.

China, final de 1999. Tao, uma jovem da região de Fenyang (ao norte da China) é cobiçada pelos seus dois amigos de infância, Zang e Lianzi. Enquanto ficamos sabendo disto, “Go West” do Pet Shop Boys (1993) toca. Simples assim. Começa a dança no filme, no enredo e na cabeça que vem vê! O jovem Zang é proprietário de um posto de gasolina e tem um futuro promissor – o certo seria dizer: tem condições básicas para alcançar um futuro –, enquanto Liang trabalha em uma mina de carvão. Ficamos pensando em como ambos dão testemunho sobre a China dos anos 1990 e com as suas ações no interior da trama, dão vida a uma história da China passando de 1990 a 2000 e mesmo após.

A ambição do diretor é tanta que sugere uma explicação para nossos tempos. Voltando a história… No coração dos dois homens, Tao terá de fazer uma escolha que determinará o seu destino e o futuro de seu filho, Dollar. Se pensarmos na música e na construção dos personagens, algumas questões nos aparecem. Deixo para o leitor o exercício de responder as únicas que faço: alguém foi para o Oeste? Alguém voltou de lá? Pet Shop Boys em um filme chinês?  

Cena do filme “A montanhas se separam” (2015), de Jia Zhang Ke. Crédito: IMDb.

 No século seguinte, pois a história vai avançando de 1999 aos anos 2000, entre uma China em profunda mutação e uma Austrália com a promessa de uma vida melhor, esperanças, amores e desilusões, esses personagens irão encontrar os seus caminhos. Algo típico dos filmes de Zhang Ke, incontornáveis apesar de longos; irrecusáveis apesar de ácidos; potentes falas sobre a Ásia que ainda conhecemos tão pouco.

Jia Zhang Ke, 50 anos, da sexta geração de realizadores do cinema chinês, acompanha aquela corrente que pensa o filme como testemunho. Seus filmes falam, principalmente, de juventudes, das consequências da alienação, e de crises na e da história contemporânea da China. Normalmente, suas obras propõem um panorama da história e da sociedade da China, que em certa altura tem um flerte com o mundo ocidental. Em alguns casos, os personagens perdem-se nesse ir e vir e em outros, os personagens conseguem corresponder as suas raízes sínicas mesmo diante dos maiores confrontos internos.

Com seus filmes, Zhang Ke apresenta aquilo que chama de suas memórias, o cinema público que é também privado, dotado de intencionalidades do autor na composição dos quadros (Walter Salles fez um documnetário sobre ele “Zhang Ke, um homem de Fenyang”)  e ficamos daqui desejos de conhecer essa sua China. Vale reforçar: cada quadro corresponde a uma intenção e o cinema de Zhang-Ke é incontornável. Em uma sexta-feira à noite, separe a pipoca para fazer e uma bebida de sua escolha e assista “As montanhas se separam” de Jia Zhang-Ke.

Deixe seu comentário

Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: