Dica Intertelas: o “Orientalismo”, de Edward Said

Em 2 de novembro de 2007, a comunidade árabe-americana na área da baía de São Francisco e a comunidade acadêmica da Universidade Estadual de São Francisco inauguraram um mural permanente no Cesar Chavez Student Center, que celebrou a cultura palestina e homenageou o falecido professor Edward Said (1935-2003). Crédito: https://piaui.folha.uol.com.br/ http://oweis.com/mural-said/

Para a maioria dos pesquisadores que se identificam com o campo dos estudos asiáticos, Edward Said é uma leitura dessas que fundam questões e tornam-se expoentes no tempo. Para outros, no entanto, a obra de Said é polêmica. Aijaz Ahmad (1932 –), teórico marxista indiano, é um dos que dirigem críticas bastante interessantes ao nosso autor sugerido. Ele o faz através de seu livro “Linhagens do presente” (2002) que conta com um capítulo todo dedicado às contradições que vê na composição discursiva saidiana. O capítulo fortíssimo chama-se: “Orientalismo e depois: ambivalências e posição metropolitana na obra de Edward Said, mas, talvez, o conjunto de comentários, críticas, resenhas e utilizações do texto de Said, mais reforce seu poder teórico do que de fato o desabone, como acontece com alguns textos muito criticados.

Edward Wadie Said nasceu em 1935, em Jerusalém no tempo do mandato britânico sobre a Palestina, e veio a falecer em 2003, estabelecido em Nova York. Sua obra é constituída de suas experimentações teóricas, bem concentradas no campo da literatura e da crítica literária, mas também considera de forma bastante viva a sua própria trajetória e ainda uma percepção crítica da história das relações coloniais e pós-coloniais.

Filho de uma família de cristãos (árabes cristãos), Said teve sua formação atravessada pela necessidade de movimentação. Por exemplo, precisou partir de Jerusalém quando houve a criação do Estado de Israel (ele e muitos) e por isso viveu no Egito, no Líbano e nos Estados Unidos, onde se baseou. Said se tornou professor da prestigiada Universidade de Columbia, sempre discutindo a questão palestina e propondo interessantes reflexões, muitas delas já publicadas no Brasil.

O livro “Fora do lugar” (1999) apresenta um pouco de sua vida e dos impactos psicológicos dessa conjuntura tensa entre Israel e Palestina e é recomendadíssimo nesse momento em que parece reacender o tópico sensível das guerras na região árabe-israelense, com as recentes notícias sobre o projeto de anexação. Contudo, a obra que destacamos no início dessa sugestão é o famoso “Orientalismo”, publicado inicialmente em 1978.

Edward Said. Crédito: https://www.middleeastmonitor.com/

Gostaríamos de deixar você com água na boca para ler com uma citação que fala muito daquilo que o livro examina: “o orientalista examina o Oriente a partir de uma posição superior, com o objetivo de tomar conta de todo o panorama que se espraia à sua frente – cultura, religião, mentalidade, história, sociedade. Para tal fim, ele deve ver todo detalhe por meio do estratagema de um conjunto de categorias redutoras (os semitas, a mentalidade muçulmana, o Oriente, e assim por diante)“, diz Said na página 322 de seu livro.

Por essa pequena passagem vemos a dupla intenção saidiana de, por um lado, criticar uma determinada forma de ver e compreender a alteridades que estão no mundo – e ele critica o reducionismo que há em qualificarmos grupos distantes ou diferentes de nós, segundo nossos próprios critérios de classificação, e, em segundo lugar, o impacto da agenda do imperialismo nesta explicação tradicional, quase que alertando sobre a violência das classificações tradicionais que conhecemos. Said passa todo o tempo de “Orientalismo” mapeando o surgimento e a manutenção de uma agenda que ele chama de projeto de invenção do Oriente pelo Ocidente, ou seja, ele está preocupado sobre como o colonialismo e o imperialismo trouxeram consigo formas de conceber o outro para fins de dominá-lo.

Esse outro é o mundo, ou, os mundos que estavam entre os alvos do projeto imperialista das potências dos séculos XVIII e XIX, embora Said permita-se uma tese de que essa forma de narrar já existisse no séc. XVII. Para esta empreitada ele vai aos clássicos da literatura ocidental, aos nomes mais significativos (como o de Ernest Renan, um dos primeiros a mapear a história de Israel com o viés do orientalismo) e a alguns eventos históricos marcantes, como o processo de construção e utilização do canal de Suez, por exemplo.  

Assim, a obra saidiana é importante por vários aspectos, mas principalmente, por nos possibilitar uma crítica daquilo que damos como natural. Não é incomum aprendermos conteúdos de história e geografia com essa forma criticada por ele. Talvez você mesmo se pegue pensando sobre como a história mundial parece só dar conta das experiências europeias e americana e, quando muito, outras realidades são apresentadas num jogo de comparações que visam reforçar o Ocidente.

Veja: a democracia e o iluminismo vs. o despotismo oriental; as cruzadas contra o mundo islâmico (juntando numa mesma classificação uma multiplicidade de experiências sociais e culturais); ou mesmo a história japonesa que só começa nos livros didáticos a partir do séc. XIX, para dizer que o Japão foi ocidentalizado no período Meiji da sua história. Esses e outros exemplos que agora você vai poder questionar e a partir da leitura de Said tomar como objeto! Sugerimos a leitura de “Orientalismo e esperamos que você seja frutífero nas suas aplicações da teoria que Edward Said propõe.

Fonte: Texto originalmente publicado no site do MidiÁsia.
Link direto: https://www.midiasia.com.br/o-orientalismo/

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