Historiografia nacionalista coreana: analisar a história para fortalecer a nação

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Compreender as narrativas da história da Coreia do Sul permite analisar a essência nacionalista do povo sul-coreano, enquanto unidade, assim como evidenciar os interesses ideológicos de uma parcela da população que tinha por interesse fazer uso do sentimento nacional para o progresso sul-coreano. Com a divisão nacional fortalecida pela Guerra da Coreia (1950 – 1955) foi evidente a conformidade em tratar a Coreia do Sul e Coreia do Norte como unidades distintas.

Isso significa reestruturar a Coreia do Sul como um país distante – em termos narrativos e políticos –  da Coreia do Norte. Para tanto, houve intervenção do Estado com a National Security Law (NSL) e Korean Central Intelligence Agency (KCIA – ANSP) que tinham como uma das missões, observar a produção intelectual. A interferência era apoiada e organizada pelos Estados Unidos, a fim de fortalecer a relação com a Coreia do Sul.

A historiografia do Sul passa a indicar a Coreia do Norte como unidade de inimigos da liberdade, da razão e da humanidade – impondo a lei de segurança nacional e geradora da identidade sul-coreana como nação em busca de um nível cultural, politico e  econômico do seu maior aliado: Estados Unidos. Porém, após a década de 1980, com a diminuição da influência estadunidenses que fornecia apoio aos ditadores do país, uma nova geração sul-coreana surge para constituir novos olhares sobre a Coreia do Norte. Esses historiadores  lutam para perder a (im)posição de críticos anticomunistas e tentam superar a divisão da Coreia através de novas narrativas com evidências ideológicas.

Relacionado a essa motivação, há a tentativa de reconstituir o conceito Minjok – raça e nação – de modo que o conceito torne-se um ponto positivo para a organização nacional e olhar para os norte-coreanos, sem a repressão de outras identidades. Uma vez que no contexto histórico da Coreia do Sul, o uso de discursos nacionalistas são induções para um entendimento dotado de conhecimento para uma comunidade nova e ideal pela qual vale a pena lutar, idealizados como povo democrata e distinto.

Minjok é uma palavra usada como conceito pelo historiador Sin Chae Ho (1880-1936), no intuito de definir o povo da Coreia como um povo de identidade única. Minjok surgiu derivada da palavra usada no Japão – minzoku que significava nação étnica e foi adotada pelos japoneses a partir dos anos 1880. A palavra Minjok entrou no vocabulário coreano nos finais de 1890 e mais utilizada duas décadas depois, mas não significa que é uma construção moderna, segundo Sin Chae Ho. Com a intenção de criar uma narrativa histórica baseada em uma nova construção baseada em Minjok,  ele (Chae Ho) sugere que Minjok sempre esteve presente nos processos históricos coreano, apesar das narrativas hierárquicas do país. Mas para historiadores do inicío do século XX, o termo Minjok é, na verdade, uma construção moderna em torno do nacionalismo e pensamento democrático.

A modelagem de uma historiografia étnico nacional como o Minjok aparecia no inicio do século XX e como função narrou a história do povo étnico coreano, incluindo todos os coreanos, sem delimitação hierárquica de classe, gênero e idade. Essa linha de pensamento começou com Chae Ho em seu ensaio de 1908 sobre a nova maneira de ler a história do país. Essa história coreana é justamente a história da nação étnica, ao invés de uma história voltada à dinastia e às classes altas da corte. Chae Ho fez isso traçando a origem da nação desde o mito de fundação Tangun.

A lenda de Tangun é mencionada na historiografia antiga coreana referente ao principio dos três reinos (Silla, Goguryo e Bakjae). Chae Ho utiliza a história de Taegun no século XX para aproximar a narrativa de resistência e reinvenção da pré-moderna historiografia coreana, adquirindo forma a ideia de uma Coreia étnico-nacional homogênea que foi bem estabelecida. A intenção era identificar Minjok, ao invés da monarquia, como o sujeito da evolução da história, desvinculando o caráter dependente e “salvador” do corpo politico.

Em 1989 houve revisão da produção historiográfica na Coreia do Sul sobre as décadas anteriores. Em um dos volumes o historiador Song Kong Ho escreveu sobre o período de libertação, classificando-o como o período de divisão territorial e pessoas, criando assim a condição para Guerra e divisão de famílias, além de culminar, nas décadas posteriores, em sociedades inseridas em ditaduras e militarização. A Libertação -mais referente ao período colonial, deveria ser marcada por uma nova história, onde o povo oprimido – minjung – seriam o Sujeito histórico (juche). Mas o que ocorreu foi a formação colaborativa, dispostas a servir os interesses de outros países estrangeiros e desconfiguraram o Estado de ordem do povo coreano. Isso porque, segundo Kong Ho, a Libertação não ganhou força do povo, mas sim foi dado a ele.

Kong Ho apontou que a invasão por tropas estrangeiras – com intuito de  “libertar” a Coreia (dos japoneses) era aparentemente assustadora para os revolucionários coreanos e nacionalistas ativos dentro e fora da Coreia. Antes mesmo do fim da guerra do Pacífico, ativistas na Coreia sabiam que as potências aliadas tinham concordado no Cairo (I de dezembro de 1943) que a península coreana fosse, “no devido tempo, livre e independente”, justificando que mesmo a libertação nacional ficou sendo situação do imperialismo.

A tese de Kon Ho aponta Syngman Rhee  – o primeiro presidente da Republica da Coreia em 1948 que manteve comunicação e inclinação ideológica estreita aos Estados Unidos, ao posicionar-se pelo anticomunismo- defendeu o criação de um Estado separado ao sul do paralelo 38, e visitou os Estados Unidos para mobilizar o apoio necessário. Para opor à movimentação de Rhee, Kim Ku,  junto com Kim Kyu Sik e outros nacionalistas conservadores, juntou-se contra Rhee e se opôs a candidatura de Rhee. Por isso, Song Kon Ho creditou Kim Ku e Kim Kyu Sik por seu nacionalismo genuíno, mas também criticou ambos. Kim Ku por seu erro anterior de não reconhecer que a revolução era o caminho mais seguro para alcançar a independência, e Kim Kyu Sik por sua falta de laços com organizações de massa.

Para Song Kon Ho, o objetivo de reexaminar criticamente a história do período da Libertação não apenas para lançar luz sobre a história passada, mas para servir como instrução relevante para a luta contínua para constituir o minjung como Sujeito da história. Song Kon Ho de fato estabeleceu uma ligação histórica entre lutas pós-libertação contra regimes ditatoriais reacionários dependentes do poder imperialista e a luta do minjung contra ditadura de Yushin. Quanto a isso, entendemos que a historiografia do fim do século XX  sugere a necessidade de luta anti-imperialista pela causa da democracia e da reunificação nacional, além do olhar crítico às narrativas anticomunistas forçadas durante as décadas de ditaduras militar.

Em 1958, o historiador Man Gil  notou que os departamentos de história das universidades coreanas estavam evitando o período moderno. As tentativas passadas de escrever a história colonial e a Coreia pós-colonial de um ponto de vista “objetivo” foram reprimidas, enquanto as histórias que foram publicadas conscientemente ou inconscientemente conferiram legitimidade às forças políticas responsáveis pela divisão da Coreia. Tal historiografia simplesmente reafirmou o presente, segundo Kang Man Gil, porque foi escrita “de dentro da estrutura de divisão”.

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Esse período da historiografia só conferem às agencias determinantes que as potências estrangeiras e a divisão nacional coreana são retratadas como inevitáveis, pois fazem parte do processo de adequação das superpotências. Parte então do historiador a tarefa mais urgente de escrever a história da Coreia moderna a partir de uma perspectiva livre da estrutura de divisão e repressão imperialista.  Essa perspectiva é acessível, Kang Man Gil argumentou, apenas por meio de uma historiografia nacionalista que abrange o povo coreano como um todo (presumivelmente incluindo comunistas norte-coreanos, mulheres, trabalhadores e camponeses – ou seja, minjung). Além disso, visto que o povo é o mestre de sua própria história, Man Gil afirma que é responsabilidade do historiador estabelecer como os coreanos falharam em sua luta para superar a divisão nacional imposta por uma potência estrangeira.

Apenas uma ampla revisão e uma verdadeira crítica à historiografia nacionalista pode ser capaz de objetivamente analisar as jogadas da intervenção estrangeira e forças políticas na Coreia. Tal historiografia poderia ser objetiva, na medida que a lealdade fosse voltada à nação (minjok), construída por seu povo (minjung) e não às estruturas preexistentes de intervenção.  Com essa intenção, cientistas políticos, historiadores econômicos e intelectuais de fora das universidades (como Song Kon Ho) lideraram a criação de uma nova perspectiva sobre o período de Libertação.

Uma historiografia mais democrática e crítica deve permitir a emergência de novos antagonismos, mostrando como as reivindicações estabelecidas por outras identidades, muitas vezes, foram suprimidas ou marginalizadas pelo discurso minjok – isto é, identidades baseadas na resistência ao patriarcado, a afirmação da diferença por populações marginalizadas (por exemplo, por residentes chineses), e toda estrutura de hierarquia de classe, evidente em toda história da Coreia. Contudo, a produção acadêmica sobre a historiografia não deve ficar voltada apenas ao meio intelectual. É necessário que a corrente de uma historiografia nacionalista pela nação – e não pelos interesses do governo – continue democraticamente presente na forma em que a massa constrói seu olhar sobre si como sujeitos e como história.

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