O segredo de quem não vê

Cena de “Hoje eu quero voltar sozinho” (2014), de Daniel Ribeiro. Crédito: divulgação.

Acho que todos nós que gostamos de cinema percebemos o quanto cada cena, cada imagem, cada gesto corresponde a uma intenção narrativa. Cada minuto corresponde a uma soma incalculável de pensamentos e mesmo um filme concebido para ser mainstream segue por esse caminho, representando ideias e projetos nem sempre expressamente ditos.

O desafio de se ver um filme está justamente aí, na verificação de seus impactos sobre nós, que muitas das vezes pensamos em o compreender totalmente. Perguntas começam a pipocar na nossa cabeça: afinal, o que aquele diretor ou diretora queria dizer ao longo da cena? Será que eu compreendi direito? Será que havia algo nas entrelinhas?

Bem, na verdade, cada experiência é única e nem sempre vai haver uma compreensão. Cada pessoa vai ter uma percepção, e talvez se junte a outras pessoas que tenham tido impressões parecidas para conversar – ao mesmo tempo que podem vir a debater ou discordar firmemente. Acho que vale de exemplo um interessante debate televisionado em que Agnès Varda e Susan Sontag juntaram-se contra o mediador, por ocasião das perguntas dele sobre os filmes de ambas. O pobre debatedor foi engolido pelas duas, pois suas percepções não se encontraram com as delas. O debate aconteceu por ocasião de uma edição do Festival Novaiorquino de Cinema, em 1969.

Dito isso, é preciso salientar a importância do cinema, em especial quando os filmes abordam temáticas pouco debatidas, ou que se pretende que permaneçam no silêncio. Isso pode acontecer por medo, por desconhecimento, por incompreensões ou por muitos outros motivos. Contudo, ao promover uma discussão e fomentar os diversos possíveis olhares sobre a sua narrativa, o filme questionou, provocou – e a filosofia diria: porque colocou fim a zona de conforto do espectador. Esse parece o caso de “Hoje eu quero voltar sozinho”, vencedor do prêmio Fipresci, concedido pela Federação Internacional de Críticos de Cinema e, em 2014, foi o escolhido pelo Ministério da Cultura para representar o Brasil no Oscar 2015, na categoria de melhor filme estrangeiro.

Apesar de todo apoio da indústria nacional e do governo na época, o filme não teve ampla repercussão na sociedade brasileira. E, de acordo com os dados fornecidos por uma busca rápida no Google, a audiência do filme está dividida entre 95% de pessoas gostando do filme e outras 5% ou não gostando ou não opinando. Os dados são rasos porque não podemos aferir com exatidão se quem gostou não tem considerações críticas, por exemplo. Entretanto, ficamos sabendo ainda que o filme circulou em festivais importantes no exterior e no Brasil, vindo a ganhar um prêmio de melhor filme no Teddy Award, premiação oferecida a filmes de temática LGBT, no Festival Internacional de Cinema de Berlim.

“Hoje eu não quero voltar sozinho” é escrito e dirigido por Daniel Ribeiro e possui uma história interessante. Foi concebido como curta-metragem em 2010 sob o título “Eu não quero voltar sozinho” e logo após um intervalo curto, estreou como longa-metragem em 2014, recebendo a palavra “hoje” em adição ao título.

O curta integrou o Programa Cine Educação. Vale lembrar que a versão em curta causou alvoroço! Sofreu censura após ter sido veiculado na rede pública de escolas do Acre, vindo a ser perseguido por líderes religiosos diversos naquele estado que conseguiram proibir não só a produção, mas todo o projeto educacional desde então.

“Hoje eu quero voltar sozinho” (2014), de Daniel Ribeiro. Crédito: divulgação.

O enredo gira em torno de Leonardo (Ghilherme Lobo), Geovana (Tess Amorin) e Gabriel (Fábio Audi). Leo, como é chamado ao longo do filme, é um jovem cego, bastante amigo da Geovana. Aparentemente, os dois sempre foram muito unidos e o filme não fala o motivo (penso que tenha ocorrido uma identificação desde o jardim de infância, mas é suposição minha).

Eles são apresentados assim, como amigos que se ajudam. Merece destaque o fato de Leo ser continuamente amparado por Geovana em função de sua necessidade especial: ela lhe dita dados das aulas, ampara nos caminhos da escola, o defende de bullying e o acompanha até em casa, numa rotina que aparentemente não varia. Dá a entender que é algo feito desde sempre e acompanha o crescimento dos dois adolescentes em transição.

Essa relação é ambientada em um contexto de classe média. O jogo de cenas mostra um bairro e uma escola de classe média, no que parece ser um local mais abastado da cidade de São Paulo. Geovana possui uma casa com piscina sempre pronta para ser usada. Sua família não aparece na história, mas não há sinais de nenhum drama aparente nesse sentido. Por sua vez, Leo é filho de uma família estruturada, com pai, mãe e uma avó que puderam prover-lhe toda a estrutura necessária para o seu crescimento, mesmo portando cegueira completa – inclusive ele possui uma bengala e uma máquina de escrever em braile, além da habilidade de leitura correspondente, o que não é comum.

Ao longo da história somos apresentados ao terceiro componente dessa trinca de sentimentos: Gabriel, um jovem da mesma idade, que recentemente foi transferido para a escola de Geovana e Guilherme, e que se aproxima dos dois por uma coincidência no seu primeiro dia de aula. A triangulação torna-se o dado de destaque da história, pois ele é o pivô de um afastamento progressivo da dupla (embora, inicialmente, mostra-se alguém pouco preocupado com ciúmes e outros sentimentos envolvidos). No desenrolar da trama, Leonardo e Gabriel aproximam-se, Geovana não se sente tão enturmada quanto antes, e os três passam por experiências que colocam toda a amizade à prova.

Primeiro, uma mudança no cotidiano, pois Gabriel passa a acompanhar Leo e a ser sua dupla mais constante. Segundo, Geovana e Gabriel passam a se desentender por conta de desencontros provocados pelo próprio Leo (por exemplo, quando este aceita ir ao cinema com o amigo deixando a amiga para trás, temos o primeiro momento de ruptura). Terceiro, todos são jovens e estão administrando um turbilhão de sentimentos, curiosidades e hormônios aflorados.

A triangulação assume outros contornos: Geovana gosta de Gabriel, que gosta de Leo, e este, por sua vez, corresponde em vários momentos. Podemos enumerar esses tais momentos: Leo masturba-se ao se envolver em um casaco do amigo que foi esquecido em sua casa (cena supõe uma espécie de “primeira vez” dele); Geovana embebeda-se na primeira oportunidade de liberdade, em uma festa promovida por uma amiga da escola; e Gabriel beija Leo, vindo a aproximar-se, tanto que divide um banho com ele cenas depois. Não houve pornografia na representação disso tudo, mas imperou um erotismo provocador, potente em fazer quem ver as cenas lembrar de momentos pessoais de iniciação como esses. Entretanto, o interessante é que são jovens tendo experiências de jovens, numa representação diferente do portador de deficiência.

De certa forma, o cenário do filme impõe certo incômodo, pois não pensamos em cenas como essas na vida real. Basta um ônibus nas regiões mais periféricas para vermos pessoas cegas sem as mesmas condições. Na verdade, o filme com essa representação incomum da vida de um cego não encontra paralelo nos nossos cotidianos de idas e vindas em que vemos cegos abandonados ou pedintes – obviamente sem as mesmas condições de inclusão do personagem Leonardo.

Porém, não seria exatamente esse o problema? Quero dizer: a representação que estamos acostumados a ver parece alimentar em nós uma história única sobre pessoas portadoras de cegueira. “Hoje eu não quero voltar sozinho” possibilita lembrar da poderosa fala de Chimamanda Ngozi Adichie, quando se apresentou no TED Talks, série de conferências realizadas na Europa, na Ásia e nas Américas pela Fundação Sapling, dos Estados Unidos, com a palestra “O perigo da história única”.

Ela levantava o problema da história única que se conta sobre a África nos livros e sobre os perigos dessas imagens canônicas que temos sobre determinados temas. Eu penso que o argumento é ainda mais potente atrelando-se ao universo dos filmes – o nosso enredo da vez é prova disso. Leonardo não é um cego comum. É um jovem comum, com todas as questões de um jovem. Ele sente os hormônios aflorando na pele, consegue estudar e desenvolver-se mesmo com restrições. (As cenas bullying diferenciam-se de cenas corriqueiras, mas nem tanto assim, por isso pensamos no poder oculto desse filme para um debate sobre a representação dos portadores de cegueira).

O personagem principal tem dúvidas amorosas e descobre-se sexualmente. O tema do seu envolvimento com Gabriel enquadrou o filme nas discussões em torno da causa LGBT, mas a visão otimista em torno do tema não me pareceu muito alinhada com a realidades dos estudantes LGBT das escolas do país. Ou seja, não é sobre relativizar a cegueira e as suas necessidades, mas é sim sobre ter um outro olhar sobre alguém que é cego e outra ideia do que esta pessoa possa vir a ser no futuro. Por sinal, diferentemente da representação, ou mesmo da realidade nacional, o filme de Ribeiro promove um final inovador neste sentido aos portadores de deficiência visual que encontram pouco espaço de representação na própria comunidade LGBTQI+.

Título: Hoje eu quero voltar sozinho
País: Brasil
Direção e Roteiro: Daniel Ribeiro
Elenco: Ghilherme Lobo, Fabio Audi, Tess Amorim
Duração: 1h36
Lançamento: 10 de abril 2014
Idioma: português
Legenda: inglês/espanhol

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