A hora e a vez da medicina chinesa: uma conversa com Orley Dulcetti, diretor do IBRAHO

Crédito: China Vistos.

Quem nunca ouviu falar da cultura chinesa? O mandarim é um dos idiomas mais aprendido do século e toda uma rede de estudos está sendo montada com bases em Portugal, Brasil e na própria China. São muitos os avanços como podemos ver. No Brasil, a cultura chinesa está presente no imaginário coletivo, por meio das lutas, das associações e dos eventos promovidos por indivíduos ou órgãos oficiais chineses. Temos uma lista interessante de pessoas que se dedicam especialmente ao ensino das lutas, da medicina chinesa e ao fortalecimento de intercâmbios educacionais Brasil-China. Buscando conhecer mais as histórias de vida que mostram a todos o quão possível é o contato direto com essas sociedades asiáticas e sua cultura, realizamos uma conversa com o professor Orley Dulcetti Junior.

Ele é acupunturista e diretor do Instituto Brasileiro de Acupuntura e Psicologia (IBRAHO). Sua trajetória já conta com mais de 40 anos dedicados à prática e aos estudos da medicina chinesa. Obteve doutorado em Ciências da Religião pela PUC-SP (sob orientação do prof. Frank Usarski), cujo período foi crucial para o desenvolvimento de sua sinologia (estudo das coisas da China).

Publicou interessantes obras de medicina chinesa, consideradas leituras incontornáveis para aqueles que buscam especialização na prática da medicina chinesa. Nesta oportunidade, vamos falar um pouco sobre os motivos que o aproximaram do estudo da cultura chinesa, algumas experiências pelas quais passou na sua história, sobre seu livro “Medicina chinesa no Huangdi Neijing” (lançado originalmente pela editora Prismas, mas que se encontra em reedição pela Andrei Editor). Acompanhe a conversa abaixo!

Crédito: Facebook do autor.

Professor, conte-me um pouquinho sobre você e do seu interesse pela cultura chinesa. De onde o senhor é? Como começou essa busca pela cultura chinesa?

Sou natural de São Paulo e italiano. O meu interesse pela cultura chinesa, em particular, pois estudo as diferentes culturas civilizacionais antigas, iniciou-se no Colegial, na disciplina de Filosofia . A professora Maria Luiza do IEE Alexandre de Gusmão no Ipiranga ensinava com um livro de Filosofias do Ocidente pré-Socráticas e pós-Socráticas até Aristóteles, além disso tinha no livro dois capítulos sobre o Taoísmo de Lao Zi e o Confucionismo de Kong Zi, que as pessoas conhecem como Confúcio. A partir daí, a minha vida mudou completamente. Ampliou o meu interesse para ter mais compreensão sobre o assunto.

Segui na busca de um entendimento mais aprofundado primeiro como autodidata, lendo o que eu encontrava. Depois me envolvi com o estudo ao terminar minha primeira graduação. Estudei na USP-SP o idioma chinês e a cultura chinesa, com meu padrinho do chinês de Taiwan, o professor e doutor Alexander Yang, e fonologia chinesa com meu amigo chefe do Depto. da Língua Chinesa, o professor, doutor e livre docente Mario Sproviero. Depois, comecei ininterruptas viagens para Europa, no intuito de estudar sinologia em instituições como a Universidades de Paris e em cursos na Europa.

Palestra Magna no Encontro Cearense de Acupuntura, ocorrido em junho de 2018, em Fortaleza. Na foto, a Profa. Esp. Me Estela Goretti – educadora, psicóloga e clínica de mtc, e o Prof. Dr. Orley Dulcetti Junior – educador e clínico de mtc. Crédito: arquivo pessoal.

Qual foi o primeiro aspecto da cultura chinesa que mais lhe chamou a atenção? Você notava a presença da cultura chinesa no Brasil?

Primeiro foram as leituras e principalmente o vivenciar os textos clássicos chineses, escritos no original chinês tradicional, depois textos clássicos da comumente chamada “medicina chinesa”. E a segunda resposta, sim, somente após que comecei a ter consciência de que havia o conceito de exótico na visão Ocidental da cultura chinesa e o intracultural chinês, principalmente o antigo, foi o que mais me interessou e continuo a estudar e vivenciar. Passei a saber identificar práticas e costumes chineses no Brasil como jogar bolinhas de gude, soltar balões , empinar e construir “papagaios”,  tomar chá chinês, em especial de crisântemo. Identificar empréstimos culturais na linguagem, como exemplo taifeng, recebeu corruptela portuguesa de tufão, pois “feng” é o vento e “tai” significa muito, demasiado. Assim por diante…

E como chegou a desenvolver o interesse a ponto de transformá-lo em sua pesquisa? Foi difícil migrar das ciências biológicas para um doutorado em Ciências da Religião?

Não foi difícil devido a minha vida ter sido guiada pelo orientalismo, estudos chineses realizados em Universidades e cursos particulares, com laoshi, que são os professores nativos de Taiwan, mensageiros, transmissores da antiga cultura sino-asiática.

Como conheceu o professor Frank Usarski? Acha que ter tido um orientador como ele foi importante para manter sua pesquisa?

Eu o conheci no Depto de Doutorado das Ciências das Religiões do Stricto Sensu da PUC-SP, onde fiz meus exames de ingresso e fui admitido. Então fui procurá-lo, já que era o responsável por ter recém aberto a linha de pesquisa de Taoísmo no referido setor. Ele é natural da Alemanha, budista, que viveu 5 anos na Índia, e é o orientador das religiões chamadas “orientais”. Sim, foi um encontro muito produtivo. Ele me deu liberdade para buscar colaboradores para minha pesquisa de tese com meus amigos sinólogos da Europa.

Como sua pesquisa se transformou no livro “Medicina chinesa no Huangdi Neijing”?

Apresentei, primeiramente, um projeto inédito de pesquisa científica, de acordo com a linha de pesquisa do Frank com 3 objetos. Um era o texto original em chinês do 762 dC recompilado por Wang Bing o Nei Jing, ou “Clássico Interno” como é mais conhecido. A partir dele que fiz minhas próprias traduções e fundamentado em traduções de sinólogos de primeira linha que traduziram e comentaram o Zhuang Zi, Lao Zi, Huainan Zi e Kong Zi. Também comparei com duas versões ocidentais do Huang Di Nei Jing, uma feita do chinês para o idioma inglês de Ilza Veith e uma versão realizada para a língua francesa por Chamfrault.

O seu livro é especial para as pessoas que estão interessadas em cultura chinesa e terapias médicas do Oriente. Fale um pouco mais sobre ele.

Ele aborda o desdobramento da minha tese de doutoramento. Eu estou escrevendo sobre o livro mais antigo, importante e guia clínico de medicina chinesa da antiga China, que é o Huang Di Nei Jing Su Wen Ling Shu. Também aborda noções do tao (dào) yinyanqi e o wu xing, em concordância com os textos do Taoísmo de Zhuang Zi, Lao Zi e também Huai Nan Zi. Também faço um histórico do mesmo texto, falando sobre sua elaboração, sua estrutura e composição textual, a escrita chinesa usada, um pouco do que consegui pesquisar sobre a linguística chinesa, as diferenças culturais apresentadas e seus diversos elementos internos, como a intertextualidade, e muito mais. Para resumir, foi como se eu tivesse entendido o entorno do Clássico Interno, nome mais próximo do original em mandarim, e fiz uma comparação com versões ocidentais.

O que o senhor esperava conseguir com ele? Alcançou os objetivos?

Trazer contribuições científico-acadêmicas para o trabalho clínico de medicina chinesa, na tentativa de mostrar a originalidade textual do Nei Jing e a proximidade da tradução de minha própria autoria, bem fundamentada com a amostragens de excertos feitos a partir do texto original, questionando as demais versões que parecem descontextualizadas e muito orientalistas. Além disso, pude apresentar para muitas pessoas as três noções de relevância do Taoísmo contidas no Nei Jing: o dào, yinyangqi e wu xing.

O processo de construção do livro vem antes ou depois da fundação do IBRAHO? Fale um pouco mais desta iniciativa, por favor!

São dois aspectos diferentes da minha vida profissional. Um deles é estudar na academia, publicar artigos, dar aulas, etc. Outra é o IBRAHO que foi fundado nos anos de 1980, do qual eu sou o CEO, com fins de realizar tratamento clínico, cursos livres e de pós-graduação a nível de lato sensu em parceria com Faculdades, relacionados ao tema da medicina chinesa.

O IBRAHO encontra-se hoje facilmente pelo país? É possível conhecer as sessões de acupuntura? 

Sim, claro. A matriz fica em São Paulo e polos em diversas cidades do Estado de São Paulo e de outros Estados brasileiros

Se pudesse mencionar algo que esse estudo da Ásia trouxe de enriquecedor, o que destacaria?

Alteridade, compreensão de que há diferenças culturais, mas também encontros, e coisas em comum que muitas vezes são utilizadas sem perceber. Também permitiu expandir meu pensamento sobre a medicina, questionando as formas tradicionais ocidentais de tratamento. Permitiu ampliar e aprofundar nos estudos sino-asiáticos, compreender melhor a minha realidade grego-latina e judaicocristã, bem como, dos antigos sábios da China de pensamento chinês e de medicina chinesa e de outros pensares orientais antigos e suas medicinas autóctones.

Os Escritos do Mestre de Huainan ( Rei Liu An-172 a .C. Dinastia Han) 淮南子 huái nánzǐ. Crédito: http://orleydulcettijunior.blogspot.com/

Nossos seguidores sempre perguntam como começar a estudar a Ásia, professor. Na sua opinião, o que é indispensável?

Gostar e ter persistência! Fazer com reciprocidade e persistência, pois precisa esforçar-se um pouco para conhecer o idioma original, arcaico e próprio de cada civilização que expressa um modo de inteligibilidade e fecundidade cultural diferentes do nosso.

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por Anders Noren

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