Natsume Sôseki: o observador de um Japão em transformação

Yasuji Kitazawa, mais conhecido como Rakuten Kitazawa, foi um mangaká e artista nihonga japonês. Desenhou editoriais de cartoons e histórias em quadrinhos durante os anos finais da Era Meiji. Crédito: Kitazawa Rakuten.

Natsume Sôseki na realidade é o pseudônimo de Natsume Kinnosuke, que ele a partir de 1887, no início da carreira, passa a assinar suas obras e escritos mais curtos. O significado de Sôseki é incômodo ou estorvo, na leitura chinesa dos ideogramas. O motivo da escolha desse nome é desconhecida, mas a pista mais quente está na sua infância. Ele teve diversas questões pessoais com a família: seus pais o entregaram para ser cuidados por parentes distantes. Entretanto, diversos desentendimentos entre os responsáveis o fizeram, como se diz popularmente, ficar de “mão em mão” entre as duas famílias. Nesse contexto, não seria estranho ele se sentir um estorvo, um empecilho.

Ele nasceu em 1867, em Tóquio. Ficamos sabendo através do texto de Andrei Cunha na Burajiru Nikkei Bungaku (Sobre Natsume Sôseki), que nosso autor estudou diversas coisas ao longo de sua juventude. Conheceu poesia chinesa e estudou os clássicos do Japão. Aos 23 anos ingressou no curso de literatura inglesa da Universidade Imperial de Tóquio, vindo a tornar-se amigo íntimo de Masaoka Shiki e conhecido do próprio Lafcádio Hearn (1850-1904), que atuou como professor do curso nesta universidade.

Depois de formado, trabalhou com ensino de língua inglesa na Escola Especializada de Tóquio (atual Universidade de Waseda), mas crises nervosas o fizeram abandonar o centro de Tóquio e este cargo tão cobiçado. Ele estabeleceu-se em Ehime, longe das capitais, e tornou-se professor secundário. No ano de 1900, ele recebeu uma bolsa de estudos para realizar intercâmbio em Londres. A experiência inicialmente boa, tornou-se ruim por conta das mesmas crises depressivas que continuavam. Após uma depressão profunda, ele volta ao Japão em 1903, retomando a profissão. No retorno pode substituir o próprio Hearn na cadeira de literatura inglesa da universidade. Assim, convém registrar que ele dedicou-se à docência, mesmo que por pouco tempo. Foi professor de crianças e jovens, depois se tornando professor universitário. Isso não significa que tudo correu sempre bem.

O escritor Natsume Sôseki. Crédito: Wikimedia Commons.

Como já mencionado, ao longo da carreira, desenvolveu níveis de depressão que o tornaram uma pessoa mais reclusa e pouco sociável. Esse espectro de introspecção excessiva é constante nas obras de pesquisadores que interpretam a sua trajetória. Também merece destaque o fato de que suas experiências de vida misturam-se com os temas de seus livros, cujas linhas abrigam verdadeiras gotas do chamado romance do eu, mesmo que isso não seja assumido diretamente pelo autor.

O Romance do eu é uma técnica utilizada por muitos autores japoneses para parafrasear suas experiências pessoais nas obras que escrevem. Alguns assumem isso frontalmente, outros relegam ao leitor a decisão de caracterizar desta forma ou não um determinado livro. Uma observação acurada das obras de Sôseki revelam casos dessa técnica em quase todos os livros publicados.

“Botchan”, publicado em 1906, parece refletir suas experiências enquanto professor de escola de ensino fundamental e médio. Na história, um professor sente-se completamente fora do lugar ao ter de iniciar carreira em uma cidade interiorana, sendo que ele próprio via da cosmopolita Tóquio.  Por sua vez, “Sanshiro”, de 1908, parece ter conexão com essa experiência de docência que adquiriu ao substituir Lafcádio Hearn na Universidade Imperial de Tóquio.

Em 1905 finalizou e publicou a obra “Eu sou um gato”, que o apresenta para os leitores japoneses. De acordo com o tradutor de sua obra no Brasil, Jefferson José Teixeira, tradutor da maioria dos livros citados (todos publicados pela Estação Liberdade – clique para ver o catálogo da editora), pelo fato do livro ter sido um sucesso de crítica e público, Sôseki pode abandonar o magistério e dedicar-se integralmente à escrita.

O renome como escritor rendeu-lhe certo prestígio. Sua escrita tornou-se inspiração para jovens escritores, os quais ele decide apoiar, como Shiga Naoya (1885-1971, autor do famoso “Trajetória em noite escura”, possui versão em português) e Akutagawa Ryunosuke (1892-1927, autor consagrado de diversos contos como “Rashômon” e “De dentro do bosque”. Como dava-se o apoio? Sôseki reunia os escritores mais jovens em reuniões caseiras para leitura pública e crítica dos textos. O projeto tem semelhanças com as rodas de escrita criativas que se proliferaram nos últimos tempos. Embora, como visto, a prática seja bem mais tradicional no Japão. Ali os escritores podiam compartilhar suas ideias e textos em primeira mão com colegas ou desafetos, de forma a antecipar certas questões da crítica da época.

Escreveu para a própria Hototogisu (no início da carreira) e para o Asahi Shinbun, tornando-se seu colunista de tempo integral quando já estava consolidado como escritor profissional. Nessa época publicou “Sanshiro” (já mencionado), “Sore kara”, (“E depois” em português), de 1909 e o livro “O portal”, de 1910. As histórias todas versam sobre esse contato dos homens japoneses modernos com as inovações advindas com a Restauração Meiji, que, na verdade, revolucionou a lógica de diversos campos da sociedade japonesa: novos tipos de negócios foram surgindo, novas formas de portar-se no espaço público, além das mudanças políticas que levaram o Japão a desenvolver ideais imperialistas e expansionistas no final do séc. 19. Todos esses temas aparecem salpicados nas obras mencionadas.

“O Portal” (1908), de Natsume Sôseki. Crédito: Estação Lliberdade.

Contudo, no mesmo ano de 1910, Sôseki desenvolveu uma úlcera de origem nervosa, com a qual conviveria até o ano de 1916, quando faleceu. Essa doença afetou seus temas, tornando sua escrita ainda mais elaborada e profunda. Dessa fase é o livro “Kokoro”, publicado em 1914. De sua obra, destacamos a mágica junção de correntes literárias e o comentário audacioso sobre o período Meiji.

Sôseki soube utilizar-se de influências ocidentais, sobretudo inglesas, para escrever suas obras. Uma mescla bem interessante de naturalismo com orientações teóricas japonesas do período Edo, somadas a conceitos notadamente chineses de humanidade e sociedade. Suas personagens, os cenários (às vezes, exaustivamente descritos), as relações interpessoais e os detalhes são representações do cotidiano e dos fatos que lhe afetam. Seus pensamentos são uma bem elaborada interpretação psicológica da sociedade japonesa. Será que sua fama deve-se ao fato das obras continuarem interpretando o Japão atual? Talvez.

“Eu sou um gato. Ainda não tenho nome”, assim começa nossa aventura em torno da obra “Eu sou um gato”, escrita entre 1904 e 1905. A história gira em torno da vida cotidiana de um gato sem nome, que possui olhos atentos. Ele observa todas as coisas a passar no seu cotidiano e no cotidiano de seu “amo”, o professor Kushami, um professor de literatura frustrado e semi-apático que lhe recebe em casa. Sim, esta não foi a primeira casa do gato: ele havia sido adotado por um estudante pensionista logo no começo de sua independência felina (desmame), mas logo foi abandonado (para morrer) em um bambuzal por motivos pouco explícitos.

Acontece que o gato luta pela vida, peregrinando por comida e um lugar para chamar de seu, quando conhece a casa de Kushami. Inicialmente, ele invadia e recuava, sendo às vezes enxotado pela empregada da casa, mas em uma das cenas, quando o professor fica sabendo dele, decide dar-lhe abrigo. Daí em diante, ficamos sabendo da vida desse gato e seus relacionamentos com os amigos do seu amo, os gatos da vizinhança – sim, quase todos os vizinhos têm gatos em casa – e suas impressões sobre o gênero humano.

De acordo com Joy Nascimento Afonso, professora de literatura japonesa na Universidade Estadual Paulista (UNESP) e especialista na obra do autor, cuja dissertação “Natsume Sôseki – o olhar felino sobre as múltiplas faces do homem de Meiji” (clique aqui para ler) está disponível na internet, Sôseki tornou-se renomado autor a partir de sua técnica única de escrita. Segundo a professora, ele mescla o naturalismo com técnicas do teatro de rua do período Edo, muito caracterizado pelos contadores de histórias satíricas, os praticantes de rakugo.

De fato, o gato tem um certo ar de pedantismo e vive a observar os humanos e seus problemas cotidianos, emitindo diversos juízos interessantes na obra. Logo, não seria estranho pensar que Sôseki aproveitou o texto para fazer, ele mesmo, um comentário sobre as mudanças ocorridas ao longo do período Meiji da história japonesa. O gato pensa em seu íntimo sobre os problemas sociais do Japão, tentando compreender o capitalismo, o nascimento da burguesia e os novos hábitos ocidentais perceptíveis em áreas como vestimenta e indumentárias, nos negócios e na sociabilidade.

A arte da época mostra as contradições culturais da Restauração Meiji no cotidiano da sociedade japonesa. Crédito: https://meijirevolutioninjapan.weebly.com/

Inicialmente, “Eu sou um gato”, não seria um livro tão longo. O primeiro capítulo nasceu como um conto independente, tendo sido publicado na tradicional revista Hototogisu, cuja liderança na época estava com Kyoshi Takahama (1874-1959), famoso discípulo de Masaoka Shiki (1867-1902) poeta do estilo haiku. Shiki foi um grande amigo de Sôseki e o estimulou na prática do haiku. Em alguns trechos do livro temos haiku, por exemplo. Talvez a última orientação do mestre Shiki ao discípulo Takahama tenha sido a de apoiar o jovem escritor Sôseki. Assim, somos embalados pela narração do gato sem nome. Esse gato guia o leitor e sua percepção do cotidiano parece lançar três questões fundamentais para entender o livro todo e o seu desenvolvimento:

  • Até que ponto o moderno é mesmo “moderno”?
  • Será que o “homem moderno” existe?
  • Ele mantém relações com o passado? E se mantêm, quais são e como ele lida com essa presença da tradição no meio de uma sociedade em franca modernização?

Cada uma dessas perguntas poderia ser respondida de diversas formas. Cada leitor poderá encontrar respostas diferentes no livro, mas partimos do pressuposto de que Sôseki está criticando o Japão pelo que ele está tornando-se. Seus personagens são, portanto, partes de um grande mosaico em que o autor desconstrói a ideia do período Meiji ser tão glorioso e fundamental – embora parece defender que a modernização é necessária.

O gato narrador é o centro desse mosaico. Ele é parte e ao mesmo tempo quem monta as peças. Suas ideias buscam convencer de que o homem moderno é fruto de uma intensa mistura de elementos tradicionais com inovações modernizadoras desenvolvidas pelo governo Meiji. Logo, o homem moderno está sempre perdido, em dúvida e pouco encaixado nesse estado de coisas. A sociedade não sabe para onde vai a modernização, mas também não sabe valorizar corretamente a tradição. Vejamos.

O gato foi adotado pelo professor Kushami, um professor de língua e literatura inglesa mediano que não aparenta estar nem um pouco preocupado com os rumos da sua vida e do país. Ele possui uma criada que inicialmente maltrata o gato, mas decide suportá-lo na medida em que o dono consente em sua estadia. O gato passa a ser uma espécie de companheiro observador do amo, termo pelo qual o chama ao longo do livro, e esse amo vai servir de exemplo da humanidade para o gato. É a partir dos passos do amo que ele vai tecer seu comentários e suas relações.

O gato sem nome relaciona-se com os amigos e vizinhos do amo, os quais também possuem gatos em suas casas. Na verdade, podemos dizer que o gato sem nome vai tornar-se amigo dos gatos e não das pessoas, e nesses momentos de conversa, revelará seus pensamentos sobre a raça humana. A técnica de Sôseki é curiosa, pois revela humanidade nos bichos ao passo que atrela os homens à animalidade ao longo da história.

O professor, por exemplo, é uma pessoa perdida em seus objetivos. Parece viver em um modo automático constante, não conseguindo realizar seus anseios e aspirações – nem a própria profissão de professor. Ao mesmo tempo, não apresenta a menor aptidão para coisas novas. Tentou aprender pintura à moda ocidental e não conseguiu; koto, com igual resultado; e ainda não apreendeu as mudanças no ramo dos negócios. Seus vizinhos o tem como alguém que perturba a ordem e a tranquilidade do lugar.

Curiosidade: No Japão existe uma espécie de regra de etiqueta social, a qual prevê que todos os moradores de um mesmo conjunto residencial, seja de casas, apartamentos ou vilas, precisam manter o meiwaku o kakenaiyouki, que significa não ser causador de incômodo).

O relato do gato conta que diversos personagens mostram seus pensamentos sobre a sociedade, a partir do contato com o professor Kushami. A professora de Koto com quem ele tem aulas, emite juízos de valor sobre a compostura do aluno. Em uma dessas conversas, só que agora com sua empregada, a professora afirma que o motivo da decadência do Japão estaria exemplificado no professor, pois ele envolveu-se com as novidades ocidentais e abandonou costumes do Japão tradicional. Ela chega a pensar que o motivo de novas doenças estarem proliferando-se reside na presença de gatos e espécimes ocidentais. Contudo, essa fala perde-se, por ser uma cena breve, como a maioria das demais cenas. Voltemos ao gato.

Ele sempre age de maneira convencida. Está seguro de sua superioridade. Ele coloca-se acima dos humanos, buscando ser participante da “humanosfera”. Ele avalia a raça humana, defendendo que os felinos além de mais espertos, são superiores e possuidores de ideias mais persistentes (pg. 97), ao passo que a autoridade e as ideias do homem são efêmeras. Daí vemos que as ideias japonesas, especialmente aquelas do período Tokugawa, contrastam com os hábitos ocidentais que se propagaram no Japão muito rapidamente.

A obra apresenta como exemplo as mudanças sociais e geográficas. No mesmo bairro onde vive Kushami e sua família, herdeiros de família tradicional, residem personagem que representam a diversidade social inaugurada no período Meiji: o advogado, dono do gato Mikê, a própria professora de koto, herdeira de uma família tradicional, dona da gata Mikeko, um militar aposentado dono da gata Shiro, o puxador de riquixá, certamente o mais pobre e subalterno se comparado aos demais, dono do gato Kuro. Além desses, temos ainda alguns personagens que seriam os novos ricos do Japão, a família Kaneda. Ou seja, vemos classes diferentes num mesmo bairro e isso é uma das mudanças impostas pelo governo Meiji, que aboliu o sistema tradicional de classes sociais japonês e regulamentou cidades, prefeituras e regiões inteiras de acordo com inspirações modernas. Ora, Sôseki viveu essas mudanças e escreveu sobre elas: não é coincidência.

Curiosidade histórica: A história passa numa região que poderia ser confundida com a histórica região de Yamanote, marcada por ser palco de toda essa mudança histórica. Yamanote, na realidade, foi uma das primeiras linhas de trem instaladas no Japão, por volta de março de 1885. A linha revolucionou a dinâmica de deslocamento civil e de serviços, além de integrar até hoje (com algumas alterações) as principais linhas de Tóquio.

O gato também conta que certa feita, Suzuki, um amigo do professor, foi visitá-lo. A história de Suzuki é a história do homem moderno do Japão que se voltou para os negócios e identificou-se com as coisas estrangeiras. Usava terno inglês (pág. 158), além de acessórios tipicamente ocidentais. Suzuki tornou-se acionista da Companhia de Trens Suburbanos de Tóquio, ou seja, um cidadão empreendedor, algo impensável em momentos anteriores da história desse país.

Esse espírito moderno é posto em contraste com o professor que seria a encarnação de um ethos mais tradicional. Tanto é que seus amigos, o próprio Suzuki, e o bon vivant Meitei, parecem excluí-lo e julgá-lo por não participar do mundo moderno (pág. 165). Ambos concluem que o professor não compreende a modernização, por isso está de fora dela. Entretanto, essa obra não apresenta somente esse debate sobre a lógica tradicional contra a moderna. Também localizamos o pensamento de Sôseki sobre os fatos da história mundial de seu tempo. Em breves passagens do livro, vemos menções a um grande evento que afetou a história japonesa no começo do séc. 20: a guerra russo-japonesa de 1904/05.

A Rússia, que já vivia uma convulsão interna em razão dos movimentos revolucionários que seriam vencedores em 1917, buscava um porto mais eficiente para comercializar seus produtos com os países do extremo asiático, o chamado mundo do Pacífico. Seus portos não eram eficientes em todas as épocas do ano, gerando vultosos prejuízos no inverno e por essa questão iniciou a busca por um novo porto que contemplasse seus interesses, vindo a localizar o Port Arthur, que agilizava sua negociação, por exemplo, com a China e com a Península Coreana. Isso feriu frontalmente os interesses japoneses na região, motivo pelo qual, em 9 de fevereiro de 1904, tropas navais japonesas atacaram, sem aviso prévio, a frota russa. Inicialmente, os japoneses liderados pelo almirante Togo estavam vencendo o conflito, que deu início a guerra propriamente dita.

A batalha foi o primeiro conflito e o mais emblemático. Seguiram-se pequenos eventos de menor destaque. O que importa é que mesmo com as baixas que já aumentavam, os danos japoneses não foram maiores que os russos, e por isso obtiveram a vitória em 5 de setembro de 1905 – isso impressionou as potências ocidentais. Por sua vez, o governo japonês utilizou-se dessa vitória para consolidar uma política expansionista e imperialista. Após os eventos, estabeleceu postos de comando e controle na península coreana e em regiões mais ao sul da China.

A forma como os personagens constroem suas visões sobre os acontecimentos e sobre o cotidiano  mostram uma crítica pontual à guerra e a violência humana. Aliás, os gatos são os primeiros a perceber o quão violentos são os humanos sem motivo. Shiro, a gata vizinha, por exemplo, narra como seus filhotes foram afogados a troco de nada por crianças da família com quem residia. Essa interpretação psicológica proposta por Sôseki mostra traços de sua elaborada escrita, que é ao mesmo tempo crítica. Diante disso, seria o autor um naturalista?

Poderíamos aproximar sua obra dessa corrente sim. Sua obra busca trazer a vida das pessoas comuns e elaborar uma crônica do cotidiano e dos pensamentos desses indivíduos. Contudo, ao usar a figura de um gato para elaborar esse enredo, ele afasta-se de um aspecto naturalista valorizado por autores mais conservadores do estilo: a presença da voz humana em meio a uma realidade. De fato, um gato narrador de algo seria inverossímil. Nem por isso, precisamos retirar dele toda a designação, pois os objetivos iniciais foram alcançados. Outro traço naturalista interessante é a existência de uma crítica social aplicada, cujo alvo (no romance naturalista tradicional) são os costumes, as contradições culturais e a organização da sociedade.

Sôseki faz uma crítica do Japão nesses termos trazendo um gato que fala de sua época e variadas vozes paralelas que o ajudam a desenvolver seus pensamentos (exemplos: pág. 320 e o banho público da pág. 273). A própria figura do animal encerra em si um paradoxo: Sôseki usa-se de um gato convencido de si mesmo, que não tem nome, que é um animal, para afirmar o que deveria ser uma humanidade mais correta. Não seria este um paradoxo a permanecer? No que está transformando-se o homem? Sôseki parece estar certo em criticar a nós mesmos, contemporâneos.

Para saber mais sobre

Joy Nascimento Afonso. Natsume Sôseki: um olhar felino sobre as múltiplas faces do homem de Meiji. Dissertação disponível no portal de trabalhos acadêmicos da USP

Andrei Cunha. Sobre Natsume Sôseki. Disponível na Burajiru Nikkei Bungaku.

Rosemary Se-Soo Kang. Sôseki and Shiki: their friendship in haiku and hanshi. Tese disponível no portal de trabalhos acadêmicos da Universidade da Tasmânia.

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