Uma conversa sobre Ásia e estudos asiáticos com Renata Schittino

Crédito: Portal NetEscola.

Você já se perguntou sobre como estudar a Ásia? Por que estudá-la? Quais são os autores mais interessantes para um projeto inicial? Essas e outras questões deram origem a esta conversa que temos aqui. O colunista Mateus Nascimento convidou a professora Renata Schittino, professora de história contemporânea da Ásia do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense (UFF), para comentar um pouquinho sobre sua experiência como docente. Ela tem desenvolvido o ensino de temas ligados ao continente asiatico em curso de graduação e na pós-graduação desta universidade e as suas colocações mostraram-se bastante pertinentes para você que deseja começar a envolver-se com os estudos asiáticos. Boa leitura!

Mateus Nascimento: Como a senhora chegou até aqui? Quem e qual é a formação de Renata Schittino? A Ásia aparecia como um tema das leituras? Conte mais sobre estas questões para nós.

Renata Schittino: Fiz graduação no fim dos anos 2000, na UFF. Na época, fui aluna do Prof. Daniel Aarão Reis, sempre preocupado em trazer Rússia e China para nossos debates. Fiz também um curso de extensão com o Prof. André Bueno sobre a China antiga. No trabalho de conclusão, estudei o Euskadi Ta Askatasuna (ETA) (Pátria Basca e Liberdade) e a questão do nacionalismo e terrorismo. Depois, no mestrado, trabalhei ainda com o tema do terrorismo, mas mais focada no debate sobre os usos do conceito. Meu doutorado enquadra-se no âmbito da teoria da história, é uma pesquisa sobre a noção de história na obra da filósofa alemã Hannah Arendt.

Mateus Nascimento: Qual era o lugar curricular da Ásia?

Renata Schittino: Nos cursos de graduação e pós-graduação que frequentei não havia disciplinas obrigatórias específicas de História da Ásia.

Mateus Nascimento: Depois de algum tempo, a senhora torna-se professora de história contemporânea da UFF. Dizem que seu concurso nasceu como o primeiro com ênfase na Ásia. Isso é verdade? Se sim, como a senhora vê a inauguração dessa cadeira? Se não, devemos ter uma cadeira como essa? Por que deveríamos ter um curso ou disciplinas de história da Ásia?

Renata Schittino: O meu concurso foi para história contemporânea. Havia a exigência de um projeto de pesquisa em Ásia. Era uma etapa do processo seletivo. Acredito que seria muito interessante termos história da Ásia nos cursos de graduação de História. Posso falar da História contemporânea, com a qual trabalho, e vejo que há muito espaço e demanda por estudos e disciplinas mais específicas de história da Ásia.

Mateus Nascimento: Ao longo da sua atividade como professora do ensino superior, como a senhora percebe a presença de temas da história da Ásia nas disciplinas oferecidas?

Renata Schittino: Posso dizer que ministrei diferentes disciplinas com ênfase na Ásia e que tento, na medida do possível, trazer para os cursos de história contemporânea a leitura de autores asiáticos e de estudiosos de Ásia.

Mateus Nascimento: Haveria conceitos por detrás das formas pelas quais a Ásia aparece? Se sim, quais seriam?

Renata Schittino: Não sei se usaria essa sua formulação “detrás”. No que se refere à história contemporânea, geralmente, trabalhamos Ásia quando analisamos modernidade, nacionalismo, imperialismo e guerras. Também há a importância inegável das revoluções russa, chinesa e iraniana. De modo que esses conceitos – modernidade, nação, imperialismo, guerra, revolução – relativos a processos históricos, estão certamente relacionados com o estudo de Ásia.

Mateus Nascimento: E quanto aos grupos de pesquisa? Existem grupos relacionados ao tema em atividade nas instituições pelas quais você circulou e circula atualmente? Como eles estão organizados? Seguem alguma lógica nova diante do modelo que temos de liderança docente cercada por participação discente?

Renata Schittino: Sou vinculada ao Núcleo de Estudos Contemporâneos, que abriga uma série de pesquisadores, professores, pós-doutores, discentes de pós-graduação e graduação. No caso do NEC, há uma pluralidade no âmbito do que se configura como história contemporânea, temos especialistas em Brasil, África, América Latina, etc.

Mateus Nascimento: Se pudesse fazer uma crítica a forma como os dados históricos e sociais asiáticos aparecem nos cursos de graduação e pós-graduação da região sudeste, o que a senhora diria?

Renata Schittino: Realmente, eu não poderia fazer uma crítica nesse sentido. O que vejo é um crescente interesse pelos estudos de Ásia no Brasil. Uma gama de pesquisadores muito profissionais que trabalham com temáticas referentes à história, política, economia e cultura asiáticas. Futuramente, é possível que tenhamos cursos mais específicos na área da Ásia. Talvez história da Ásia ou antropologia da Ásia, mas, talvez, não venham a adquirir tal configuração, pois quando falamos de Ásia, temos também um espectro muito amplo e diverso de temáticas e recortes. Na onda da super especialização, temos categorias específicas de pesquisadores – especialistas em Rússia, China, Oriente Médio, etc.

Mateus Nascimento: Vamos para outro assunto agora, mais voltado para as questões políticas da história. Primeiramente, sabemos que as sociedades asiáticas destacam-se em alguns eventos históricos dos sécs. XIX e XX, apesar de haver uma aparente invisibilidade curricular. Dentre os eventos, qual ou quais a senhora destacaria para nós como digno(os) da definição momento-chave?

Renata Schittino: Difícil decidir momentos-chave numa gama tão extensa como a que você propõe com a categoria de sociedades asiáticas. Como indiquei antes, entendo que, se falamos da história contemporânea asiática, é inevitável considerar questões tais como: modernidade, imperialismo, revoluções, guerras. Entendo que a centralidade dos eventos no âmbito da pesquisa está relacionada com os recortes que um pesquisador tem em vista. Por exemplo, o massacre de Sabra e Chatila, no Líbano, pode ser fundamental para o estudo da ocupação israelense na região da Palestina. A partilha do território entre Índia e Paquistão pode ser central para entender o conflito entre hindus e muçulmanos. Com certeza, tais eventos são importantes para a história contemporânea geral, mas a luz que o estudioso lança sobre eles tem a ver com as perguntas que pretende responder em cada caso.

Mateus Nascimento: Quando olhamos para o tempo presente, alguns países da Ásia se destacam-se: China e Coreia do Norte sobretudo. No entanto, eles fazem parte de um conceito conveniente de Ásia como sendo esse conjunto de contra poderes a hegemonia anglo-saxã. Tanto é assim que só aparecem como tema da grade midiática por conta dessa potência que eles têm de afetar o mundo ocidental. A senhora concorda com isso? Com essa amostragem? Parece-me que há uma Ásia inventada e ela só existe como um espelho cuja imagem é distorcida…

Renata Schittino: Há aqui uma questão que, pelo menos desde Edward Said, tem sido levantada com mais força. Said em seu famoso trabalho sobre o “Orientalismo” trouxe exatamente este problema. Sua tese geral é de que o Oriente é uma invenção do Ocidente, quer dizer, o Oriente tem sido visto através de um suposto olhar ocidental como um outro insuperável – um outro sem razão, sem democracia, sem crítica.

Mateus Nascimento: Então, é como se tivéssemos, desde muito tempo, uma Ásia nas nossas mentes diferente daquilo que ela realmente é. A que fator ou fatores devemos isso?

Renata Schittino: Que imagem temos da Ásia? Acho que são muitas imagens e elas vão modificando-se historicamente. Por exemplo, se é possível notar que há um desdém pelo “atraso asiático”, também é possível perceber que tal desdém refere-se a determinados lugares e momentos específicos. Existem determinadas ideias de modernidade e de desenvolvimento que estão atreladas a essas imagens. O que estou querendo dizer é que muitos estudiosos têm voltado-se para pesquisas sobre essa questão da imagem pejorativa da Ásia na literatura, no cinema, nos discursos políticos, etc.

Trata-se de uma tarefa muito importante e precisamos mesmo, como historiadores, estar atentos aos modos de ver; à historicidade dos processos. Mas creio que não devemos também generalizar. É preciso sempre historicizar muito bem a construção de imagens pejorativas. E é possível também estudar, por exemplo, como diversos grupos no chamado Ocidente tem um interesse positivo pelos caminhos da Revolução Cultural Maoísta, em determinado momento do século XX, ou como o zen budismo vem destacando-se como filosofia de vida em certos círculos que pretendem ser um contraponto ao consumismo desenfreado do capitalismo.

Mateus Nascimento: Na sua opinião, o que é a Ásia? O que é ou quem são os asiáticos na história?

Renata Schittino: Trata-se de uma questão delicada. Você perguntava anteriormente se há uma Ásia que “realmente é”. Se podemos encontrar uma Ásia que “realmente é” para além das imagens “distorcidas”. O que chamamos de Ásia tem muito a ver com um recorte geográfico – que é também político e histórico. Recentemente um grande historiador brasileiro, o Prof. Angelo Segrillo escreveu um livro com o intuito de abordar essa questão no seio do debate Russo. A Rússia, afinal, é Europa ou é Ásia? O que vemos é um amplo quadro de discussões entre os ocidentalizantes e os eslavófilos. Na Turquia, por exemplo, é possível circunscrever concepções do nacionalismo aos moldes ocidentais, de um lado, e olhares sobre uma Istambul, “cortada ao meio”, para lembrar a imagem de Ohran Pamuk, ao tratar de uma cidade dividida entre Europa e Ásia, de outro.

Como falamos antes, há determinadas imagens da Europa – modernização, desenvolvimento técnico – que se mostram fortes nessas disputas. Muitas vezes, a ideia de Ásia aparece como aquilo que está ligado ao atraso; ao não desenvolvido. Note-se que “não desenvolvido” aparece como ainda não ocidental o suficiente. Acho que não podemos cair na ilusão de que, ao desconstruirmos essas noções, encontraremos a verdadeira Ásia, como se fosse uma entidade ontológica. É preciso saber que estamos falando de povos, culturas e histórias diversas.

Mateus Nascimento: Como a senhora interpreta as relações do Brasil com os países asiáticos? Poderia falar um pouco de como elas começaram ou de como elas consolidaram-se?

Renata Schittino: Realmente não sou uma estudiosa da temática. Posso dizer que vejo hoje, no âmbito acadêmico, uma série de esforços de alianças e parcerias de estudos. Recentemente, recebemos na UFF, uma comitiva de professores chineses, de diferentes universidades na China, e foi muito interessante compartilhar pesquisas e questões.

Vídeo: A Ásia na política externa do Brasil – Curso de Atualização em Estudos Asiático CEA-UFF e IEÁSIA-UFPE

Mateus Nascimento: Pensando o seu lugar como pesquisadora e orientadora agora… Dentre os seus projetos de pesquisa realizados encontramos um que se encontra encerrado desde 2019, com o título Edward Said como migrant writer: atuação intelectual e testemunho no mundo contemporâneo. Poderia falar mais sobre ele?

Renata Schittino: Essa era uma pesquisa voltada para os trabalhos e para a ação intelectual do palestino Edward Said. Tratava-se de pensar o lugar do migrant writer no mundo pós segunda guerra mundial como uma fonte importantíssima para a pesquisa histórica e como um novo tipo de intelectual.

Mateus Nascimento: Dentre os seus temas de pesquisa e as produções oriundas dela encontramos autoras ou autores asiáticos referenciados? Quais seriam as/os de maior destaque?

Renata Schittino: Venho incorporando ao longo dos anos uma série de leituras teóricas riquíssimas, tais como: Spivak, Chakrabarty, Chatterjee, Guha, Said, Byung Chul Han.

Mateus Nascimento: O testemunho como conceito e interesse de pesquisa destaca-se… Quem foram os autores que mais testemunharam ou testemunham sobre a Ásia na sua visão?

Renata Schittino: Entendo que a sua pergunta leva novamente para a pesquisa sobre Said. A ideia geral, neste trabalho, é pensar a questão da importância da experiência de vida no cômputo da escrita da obra do autor. É nesse sentido que considero ali a noção de testemunho, como elemento central na formação de um novo tipo de intelectual desde o pós segunda guerra mundial.

Mateus Nascimento: Hoje, quais os livros que a senhora recomenda para uma compreensão inicial desse continente tão múltiplo? Há livros que a senhora considera incontornáveis? Quais?

Renata Schittino: Creio que podemos chamar de incontornáveis algumas obras mais teóricas, que fazem refletir sobre possibilidades e modos de pesquisa. Nesse quesito, volto aos nomes já mencionados. Spivak, Said, Chakrabarty são leituras muito interessantes.

Mateus Nascimento: Professora, novamente, muito obrigado por esta conversa e é uma honra tê-la participando desse espaço de divulgação tão importante que a Revista Intertelas oferece e torço pelo aumento de pesquisas que tenham a Ásia como tema a partir da audiência da sua fala. O que diria para os interessados?

Renata Schittino: Sou uma entusiasta dos estudos e pesquisas. Temos muito a compreender no âmbito das ciências humanas e em história. Com certeza, pesquisas na seara de estudos asiáticos são necessárias e estamos demandando por elas.

Mateus Nascimento: Deixo aqui uma última pergunta cuja inspiração está no documentário No intenso agora (João Moreira Salles, de 2017). Naquele documentário, ficamos sabendo que um escritor chamado Alberto Morávia disse que entrou num novo estado de coisas quando visitou Hong Kong. A senhora acha que a Ásia é um novo estado de coisas inevitável para nós na contemporaneidade?

Renata Schittino: Acho que os estudos de Ásia podem ser muito significativos no que se refere à compreensão do mundo contemporâneo. A possibilidade de “descentramento europeu”, como levanta Chakrabarty, está dada há tempos, mas agora adquire status de urgência. É preciso ver o mundo como totalidade. Como parte de um mesmo encontro histórico a ser enfrentado e construído por nós.

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por Anders Noren

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