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Votação para Conselho Tutelar é termômetro para Eleições 2024; entenda importância

Eleitores comparecem na Escola Municipal Celestino da Silva, no Rio de Janeiro, para eleição de conselheiros tutelares (01/10/2023). Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil.

Neste domingo, 1º de outubro, cidadãos de todo o Brasil foram às urnas para eleger membros dos Conselhos Tutelares em mais de 5,5 mil municípios. Os Conselhos Tutelares desempenham um papel crucial na proteção dos direitos da criança e do adolescente, monitorando e fiscalizando entidades de atendimento infanto-juvenil e garantindo o cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA. O encerramento da votação para conselheiros tutelares ocorreu, na maioria das cidades, às 17h do domingo. O voto é facultativo, e essa eleição ocorre a cada quatro anos, no ano seguinte ao pleito presidencial.

Por que as neopentecostais querem tanto esses cargos?

Nos últimos anos, assistimos a uma crescente disputa pelas vagas nos Conselhos Tutelares entre movimentos populares e igrejas evangélicas neopentecostais. Neste domingo não foi diferente: longe de se limitar à escolha dos conselheiros, a votação foi vista por analistas como um prelúdio das eleições municipais de 2024. A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), uma das maiores denominações neopentecostais do Brasil, tem desempenhado um papel significativo na influência sobre o destino de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, principalmente nas periferias do país, fora dos contextos religiosos.

A estratégia da empresa tem se concentrado em conquistar posições nos Conselhos Tutelares, órgãos criados para proteger os direitos das pessoas carentes, incluindo crianças e adolescentes. É um fenômeno observado em vários municípios onde grupos religiosos conquistaram a maioria das vagas nos conselhos por meio de eleições populares.

Crédito: Reprodução Diálogos do Sul.

Um exemplo significativo ocorreu em São Paulo, onde 53% dos conselheiros eleitos em 2020 têm ligações com denominações neopentecostais, de acordo com dados do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente. No Rio de Janeiro, embora não haja dados oficiais, estimativas indicam que cerca de 65% dos conselheiros estão ligados a grupos religiosos neopentecostais, aponta o jornal “El Pais”.

Impactos do aparelhamento religioso nos conselhos tutelares

A influência de conselheiros tutelares ligados a grupos religiosos radicais ganhou destaque em 2020 devido a dois casos de grande repercussão nacional. O primeiro envolveu uma menina de 10 anos que engravidou após ser estuprada pelo parceiro de uma tia em São Miguel, Espírito Santo. A legislação brasileira permite o acesso ao aborto legal e seguro em tais situações.

No entanto, o caso ganhou repercussão quando a então ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, interveio pessoalmente, enviando emissários para dissuadir a família da vítima de realizar o aborto, que já havia sido autorizado pela Justiça. Em meio a pressão popular para explicar o envolvimento de Damares no episódio, o governo de Jair Bolsonaro usou um canal oficial do governo para “pintar” a interferência de sua ministra como apoio:

Segundo uma reportagem do “El País”, Damares teria contado com a colaboração de dois conselheiros tutelares conservadores ligados às igrejas neopentecostais que atuavam no caso. Eventualmente, a criança conseguiu realizar o aborto em outro estado, mas não sem antes ter sua identidade e endereço divulgados nas redes sociais por pessoas associadas à ministra, incluindo a ativista de extrema direita Sara Giromini. A história causou espanto na sociedade civil, preocupou autoridades e especialistas ligados à proteção de crianças e adolescentes e hoje está sob investigação do Ministério Público.

O segundo caso envolveu uma mãe que perdeu a guarda de sua filha de 12 anos por decisão do Conselho Tutelar de Araçatuba, interior de São Paulo, após a menina ter a cabeça raspada de forma consensual em um ritual de iniciação do candomblé. A denúncia foi feita pela avó da menina, que é evangélica, alegando maus-tratos e abuso sexual, acusações que foram aceitas pelos conselheiros sem evidências concretas. A defesa da família argumentou que se tratava de intolerância religiosa. Dias depois, a Justiça determinou a restituição da guarda para a mãe.

Intolerância: decisão que tirou da mãe candomblecista a guarda da filha é inconstitucional, explica advogado (Clique aqui)

A importância deste tipo de eleição

O cenário político nacional conferiu uma importância ainda maior a esta eleição, e é fundamental que democratas e movimentos populares estejam mobilizados e atentos para garantir a proteção dos direitos da criança e do adolescente. A sociedade também tem papel crucial em assegurar que a atuação dos Conselhos Tutelares seja baseada na lei e no Estatuto da Criança e do Adolescente, em vez de se orientar por ideologias religiosas.

Os lugares para votar são específicos e os eleitores puderam consultar as informações junto ao Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de sua cidade ou diretamente na prefeitura. É importante lembrar que todos os cidadãos em situação regular na Justiça Eleitoral poderiam ter votado, incluindo jovens entre 16 e 17 anos.

As eleições para o Conselho Tutelar são uma responsabilidade do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de cada município, com fiscalização do Ministério Público, de acordo com o ECA. O resultado oficial será divulgado no Diário Oficial de cada estado nesta terça-feira, 3 de outubro.

Governo Lula incentivou a participação popular 

O governo Lula promoveu o incentivo à participação popular. Nas redes sociais, diversas figuras ligadas à esquerda encorajaram as pessoas a participar da votação, enfatizando que a escolha de representantes ligados à igreja neopentecostal poderia ter um impacto significativo na proteção das crianças, sendo uma situação, de “vida ou morte” como descreveu o coordenador-geral de Fortalecimento do Sistema de Garantia de Direitos do MDHC, Diego Alves em entrevista exclusiva à Agência Brasil. O ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania, Silvio Almeida, exerceu seu direito de voto nas eleições para o Conselho Tutelar em uma escola na Zona Norte de São Paulo, no final do domingo.

Após depositar seu voto na urna eletrônica, o ministro compartilhou com a imprensa a relevância da participação popular no processo. Segundo informações do G1, ele ressaltou que a democracia participativa refletirá a diversidade do povo brasileiro e garantirá que os conselhos tutelares sejam compostos por indivíduos comprometidos com a construção da nação e com a pluralidade que caracteriza o Brasil como um todo.

O Conselho Tutelar e as funções dos conselheiros

O Conselheiro Tutelar é uma figura essencial na proteção e promoção dos direitos das crianças e adolescentes em uma comunidade. Sua função abrange uma série de responsabilidades importantes, todas voltadas a garantir que os jovens tenham um ambiente seguro e saudável para crescer e se desenvolver. Aqui estão algumas das principais funções de um conselheiro tutelar, juntamente com exemplos de situações em que atuam:

Em resumo, os conselheiros tutelares agem como um recurso valioso para as famílias e são fundamentais para garantir que as futuras gerações tenham a oportunidade de crescer em um ambiente seguro e saudável.

Debate

Para analisar de forma mais profunda a eleição para Conselho Tutelar que aconteceu neste domingo (1º), debater o valor da participação popular e entender os riscos da atuação das igrejas neopentecostais na questão, fazemos um convite a você! Nesta terça-feira, 3 de outubro, a partir das 17h, o jornalista Paulo Cannabrava Filho conversa com Carlos Jr. Churra’s, educador popular e conselheiro municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de São Paulo (DCA/SP).

Fonte: Texto originalmente publicado no Diálogos do Sul.
Link direto: https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/brasil/83087/votacao-para-conselho-tutelar-e-termometro-para-eleicoes-2024-entenda-importancia

George Ricardo Guariento 
Jornalista e redator na Revista Diálogos do Sul

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