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“Precisamos advogar por uma IA que sirva para agilizar tarefas, e não que substitua os criadores” – Fábio Montanari, professor da York University

Crédito: Banco de imagem gratuito Pixabay.

A tecnologia sempre teve papel decisivo para as mudanças estruturais que a humanidade vivenciou ao longo de sua história. Contudo, analisar o seu impacto e como implementar novas tecnologias sempre foram embates entre os diferentes estratos sociais. A inteligência artificial (IA) é uma realidade do cotidiano e já está reformulando o processo de criação de muitos profissionais das chamadas indústrias criativas, em especial de conteúdo narrativo. Certamente há uma grande inovação chegando ao mercado, porém questões cruciais como direitos autorais, princípios éticos, o mercado de trabalho futuro e a preservação da existência de autores e da capacidade humana de criar estão no centro dos debates atuais.

Fábio Montanari é  professor de roteiro na York University no Canadá e renomado roteirista. Ele é o único pesquisador brasileiro envolvido no Connected Minds, projeto apoiado pelo Canada First Research Excellence Fund (CFREF), com sede nas Universidades York e Queen’s. Montanari lidera uma pesquisa sobre os impactos da IA, na prática do storytelling, com foco na área do roteiro. Assim como conduz uma série de experimentos práticos com diferentes modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs), visando compreender como a tecnologia pode auxiliar na criação de narrativas e identificar suas capacidades e limitações.

A Revista Intertelas teve a oportunidade de realizar uma entrevista com  Montanari, no intuito de trazer respostas a uma questão que a sociedade brasileira e mundial precisa analisar e estabelecer regras para a implementação de uma tecnologia que trará mudanças estruturais para o sistema econômico e social mundial. Confira a entrevista abaixo.

Fabio Montanari. Crédito: https://www.aicinema.com.br/.

Como você analisa o futuro das indústrias culturais/criativas com o advento da inteligência artificial?

Essa é uma pergunta muito pertinente e reflete a complexidade do momento que estamos vivendo. No momento em que conversamos agora, novos modelos de inteligência artificial estão sendo desenvolvidos e treinados, o que significa que tudo o que discutimos sobre as tecnologias disponíveis pode mudar rapidamente, esse é o primeiro ponto a considerar.

Tenho visto isso na minha pesquisa feita através do Connected Minds; temos um núcleo de pesquisa que tem testado na prática diferentes modelos de IA e suas diferentes respostas na construção de narrativas audiovisuais. Se nos modelos disponíveis hoje em dia já temos resultados disruptivos, a grande questão é que ainda não sabemos como será o funcionamento do futuro de outros modelos emergentes, como por exemplo o Chat GPT-5. Essa incerteza é uma ressalva importante antes de entrarmos na análise do futuro das indústrias culturais criativas.

Vejo um futuro de integração em que a inteligência artificial seja utilizada como uma ferramenta para otimizar processos, e não como a autora total do produto. Precisamos advogar por uma IA que sirva para agilizar tarefas, liberando tempo para artistas e criadores se concentrarem na parte criativa de seus trabalhos. Essa utilização da inteligência artificial pode incluir desde otimização de pesquisas até auxílio em tarefas cotidianas, como responder e-mails. Mas, na prática, já vemos grandes empresas do cinema como a Lionsgate usando todo seu material para treinar modelos de IA.

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Por isso, creio que é urgente discutir o impacto social e ético que essa tecnologia traz, especialmente no que diz respeito à rapidez com que novos modelos estão sendo lançados. Muitas vezes, essas inovações chegam ao mercado antes que a sociedade tenha tempo de se organizar e estabelecer limitações e moderações. Por exemplo, nos Estados Unidos e no Canadá, sindicatos de artistas, como a WGA, WGC e SAG-AFTRA, já estão se posicionando para garantir que haja limites e regulamentações sobre o uso da IA na indústria. Estamos em um momento fundamental para discutir e estabelecer essas diretrizes antes que a aplicabilidade da inteligência artificial se torne ainda mais abrangente. É essencial encontrar um equilíbrio que beneficie a criação artística e respeite os direitos dos criadores.

Muitos especialistas de diferentes áreas da ciência alertam para a questão dos direitos autorais e da ética na implementação da inteligência artificial no mercado de trabalho. Como você avalia esta questão?

Um ponto importante é que muitos grandes modelos de IA não pagaram pelo material utilizado para seu treinamento. Quando se trata do input e do output — seja na geração de textos, imagens ou vídeos — não é fácil rastrear de onde esses outputs foram gerados, a partir de quais informações que esses resultados foram construídos. E as instituições responsáveis afirmam que é impossível identificar de onde vêm essas informações.

Essas grandes companhias treinam os modelos com materiais a que elas não necessariamente detêm o direito autoral para tal – isso inclui desde grandes obras, matérias de jornal ou até mesmo o que postamos nas redes. Na prática, o que vemos é uma “socialização” na hora do treinamento desses modelos, mas, na hora de remunerar quem criou esse material, isso não ocorre; os lucros ficam exclusivamente nas mãos das empresas. Esse é um dos alicerces da pesquisa que lidero através do Connected Minds.

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Enquanto nossa equipe abrange a ciência da computação e realiza testes, também advogamos para que as entidades desenvolvam mecanismos que garantam a remuneração justa para aqueles que contribuíram com esse conteúdo. De novo, por mais que essas empresas aleguem que é extremamente difícil rastrear a origem de todos os dados utilizados, acredito que essa responsabilidade por encontrar uma solução tecnológica para isso é dessas próprias companhias.

Além disso, é importante mencionar que a questão ética envolve a eliminação de alguns empregos, algo que já é uma realidade. Alguns cargos já estão sendo questionados. Como sociedade, precisamos entender e estabelecer limitações antes que esses novos modelos sejam implementados de maneira definitiva. Deve haver transparência sobre a real capacidade desses modelos, com uma moderação adequada por parte do poder público. Alguns países já estão se organizando melhor em relação a isso, mas, no Brasil, a polarização política faz com que questões tão importantes fiquem em segundo plano. Nós, como sociedade, sentiremos certamente o impacto disso, que pode ser muito significativo em breve.

Alguns pensadores alertam ainda para as mudanças de hábitos dos seres humanos no futuro. Há quem diga que as pessoas, em especial o público infantil e jovem, não serão mais estimulados a criar, ou terão suas capacidades criativas comprometidas. Qual a sua análise sobre esta possível realidade futura?

Parte da pergunta levanta uma questão importante: talvez o público infantil não esteja mais sendo estimulado, comprometendo suas capacidades criativas. Em termos de acesso às ferramentas, é interessante notar que um adolescente, mesmo com acesso limitado à tecnologia, consegue fazer um vídeo e compartilhá-lo, do seu quarto. Isso é algo impensável 20 anos atrás. Então, é importante dizer que as novas tecnologias, incluindo a inteligência artificial, podem ampliar a capacidade criativa de uma nova geração, pois trazem novas ferramentas.

Contudo, é crucial ressaltar que a relação com o conteúdo criado também apresenta desafios. Historicamente, novas tecnologias impactaram como os produtos audiovisuais são feitos e consumidos. Por exemplo, a invenção do cinema mudou como as histórias eram contadas, assim como a chegada da televisão forçou o cinema a se reinventar para atrair o público, e mais recentemente é possível argumentar que houve uma mudança nos conteúdos com a chegada dos streamings.

Portanto, novas tecnologias sempre alteram os produtos e como são consumidos. O que me preocupa é menos a capacidade criativa na produção – que pode ser ampliada. Minha preocupação reside na relação com produtos de consumo rápido que nos viciam, especialmente em um contexto em que os celulares oferecem um fluxo constante de conteúdo. Para aqueles que nasceram antes da internet, como eu, pode ser mais fácil ter um distanciamento. Mas para a geração que cresce imersa nessas “bombas de dopamina”, vejo um problema maior. A verdadeira preocupação é como estamos nos tornando viciados em produtos rápidos, o que não está necessariamente ligado à inteligência artificial, mas há um momento tecnológico mais amplo.

Na sua opinião, quais as alternativas possíveis para encontrar uma solução onde a inteligência artificial não entre em total competição com os criadores?

Na minha opinião, não podemos esperar que as grandes empresas criem regulamentações; isso dificilmente vai acontecer. O que precisamos é que o poder público se organize de maneira ágil para regulamentar a aplicabilidade das inteligências artificiais, não apenas na parte de criação, mas de forma geral. Isso é fundamental, e estamos perdendo tempo.

As alternativas possíveis incluem a utilização da inteligência artificial para otimizar processos técnicos. E isso já está acontecendo em diversas áreas da criação, inclusive no audiovisual. Quando as pessoas me perguntam quando que a IA poderá escrever roteiros – o que de fato faz parte da minha pesquisa –, eu tendo a redirecionar a pergunta para: qual parte da sua rotina de trabalho pode ser otimizado? Creio que esse deva ser o foco. Já que estamos falando de audiovisual, vale dizer que a IA já está otimizando muito os processos burocráticos de pós-produção, por exemplo, que costumam ser mais longos.

Enfim, acredito que precisamos de regulamentações claras, que incluam mecanismos para que essas empresas paguem pelo material utilizado para treinar seus modelos. Talvez o melhor caminho para encontrar uma solução em que IA não entre em total competição com os criadores seja o de uma regulamentação – tanto nacional quanto internacional — e que garantam a remuneração justa para quem ajudou a gerar o material.

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Para além de saber usar e aplicar a inteligência artificial, qual a sugestão, ou quais as sugestões, daria hoje aos profissionais que estão iniciando carreira, ou que já estão no mercado e precisam enfrentar esta nova realidade?

Cada um descobrirá sua própria maneira de utilizar os modelos de inteligência artificial, que não vêm com um manual de instruções. O pesquisador estadunidense Ethan Mollick até recomenda que passemos pelo menos dez horas experimentando e interagindo com esses modelos para entendermos como é nossa resposta individual aos modelos. Claro, o número de horas é um tanto aleatório, mas por trás da ideia é para que cada um explore de maneira própria para que descubram novos e particulares usos para a IA.

Por exemplo, é sabido que mudar o tom da conversa com o ChatGPT pode alterar radicalmente os resultados. Se você diz “O dia está lindo, qual é o resultado da minha pergunta?“, a resposta será diferente se você disser “Vou te dar uma gorjeta se você resolver esta pergunta.” Afinal, claro, são modelos que são treinados a partir de linguagem. Então, a principal dica é explorar diferentes modelos e pensar em como a inteligência artificial pode otimizar questões do seu dia a dia. Uma provocação importante é realmente mergulhar nesse universo e descobrir sua própria versão de uso. Isso é essencial para entender como elas podem ajudar. Sobretudo em um contexto em que nem mesmo quem trabalha nessas empresas de IA compreende todas as aplicabilidades, pois é um oceano de possibilidades.

Vejo muitos profissionais utilizando modelos para revisar textos, responder e-mails e, claro, na pesquisa. Cineastas estão usando a IA para criar uma pré-decupagem do filme, otimizando diversas etapas do processo. A grande questão é que cada um deve desenvolver sua própria maneira de interagir com esses modelos. Essas ferramentas de inteligência artificial oferecem recursos que, de outra forma, seriam inacessíveis para quem está no início de carreira. No meu trabalho como roteirista, estou escrevendo uma série para um canal de streaming (ainda não posso revelar qual) que é baseado em fatos reais. Então treinei um modelo com documentos históricos, o que me permite otimizar minha pesquisa. Quando surge uma dúvida sobre os ocorridos, converso com o modelo, e isso torna o processo mais dinâmico e imediato.

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