
Bernardo Ferradeira da Popcorn Foto e Vídeo.
No intuito de promover uma reflexão sobre a posição de liderança das mulheres no contexto internacional das áreas dos negócios e empreendedorismo, que atualmente passam por transformações profundas, no dia 25 de outubro de 2024, a Casa de Cultura Laura Alvim, transformada em Casa G20, recebeu a sétima edição do evento “Conquistando o Protagonismo: Mulheres de Sucesso”. Com o patrocínio principal da ApexBrasil, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e Governo Federal, a iniciativa é uma realização da Câmara de Comércio, Indústria e Serviços do Brasil (CISBRA) e da Câmara de Comércio e Indústria do Estado do Rio de Janeiro (CAERJ). Durante um dia de palestras e atrações, uma carta foi preparada para ser entregue ao W20 2024, o Grupo de Engajamento de Mulheres do G20 deste ano. No documento, foi ressaltada a necessidade de promover o desenvolvimento liderado por mulheres, colocando-as no centro de todos os processos desta área.
Tal situação, segundo disposto na carta, evidencia a relevância do índice de disparidade entre homens e mulheres, não apenas nas realidades brasileira, mas em um contexto global. Em um trecho é salientado que: “Na prática, até mesmo um leve aumento na participação das mulheres no setor de empreendedorismo pode servir de incentivo para que outras mulheres também busquem maior engajamento. Além disso, essa situação tende a ampliar a oferta e a demanda de produtos e serviços na economia, beneficiando a sociedade como um todo. No entanto, para que esses avanços sejam alcançados, as mulheres ainda enfrentam diversos desafios”.
No que tange à área de comércio exterior, o documento ressalta ainda que as mulheres enfrentam dificuldades significativas, como uma menor probabilidade de obter créditos e a cobrança de taxas de juros mais altas em empréstimos. Em mais um destaque que a Intertelas compartilha, na carta é esclarecido que: “Essas condições dificultam o desempenho feminino. Além disso, a falta de incentivos educacionais e sociais impede que as mulheres alcancem posições de destaque. Infelizmente, esses relatos representam apenas uma fração da grande disparidade de gênero existente. É um forte consenso, nesse sentido, de que as mulheres estão em uma situação desfavorecida em comparação aos homens”.
Conforme a diretora no Sistema CISBRA – CAERJ e fundadora do Movimento “Conquistando o Protagonismo Mulheres de Sucesso”, Nathalia Xavier, a importância do evento é conectar as mulheres, no intuito de que elas possam se capacitar ainda mais e fortalecer uma rede de apoio. “A gente vê que no mercado, a maioria das mulheres não tem essa rede, então elas ficam meio perdidas. Assim surgem as questões: Como começar um negócio? Como se desenvolver? Onde buscar capacitação? Então, o Conquistando o Protagonismo é o local em que ela pode navegar nesse mar de negócios”.
Levando em conta as dificuldades que as mulheres ainda encontram para empreender, Xavier explicou que a área exige muito mais dedicação do que um trabalho registrado. Assim, segundo ela, há falta de apoio, de renda, de investimento para poder desenvolver o empreendedorismo, além do machismo. “Se formos pensar no número de mulheres que terminam o seu ensino médio, das que se formam numa faculdade ou nas que têm a possibilidade de concluir uma capacitação, esse número não é grandioso. Principalmente quando falamos das zonas de periferia, de favela. Então, entendo que o principal ponto para que a mulher nessas condições consiga dar esses passos é uma facilidade maior de uma faculdade num horário mais flexível ou num curso de capacitação que seja no final de semana. É preciso ainda conscientizar empresários que uma mulher, estando ela grávida, ou tendo um filho, ela tem a mesma capacidade, na verdade ela amplia as suas habilidades em diversas questões”.
A diretora do Sistema CISBRA ainda ressaltou que as mulheres precisam estar unidas não para copiar atitudes como a de competição acirrada e feroz, mas para ascender em conjunto. “O Conquistando o Protagonismo começou em 2012 com um grupo de 15 a 20 mulheres e aos poucos fomos expandido este número. Ele é formado por outros grupos que nós vamos unindo, fortalecendo e empoderando. É preciso estarmos mais unidas e falarmos sobre assuntos que muitas das vezes não são levados ao conhecimento do público em geral de forma clara e objetiva”.
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As mulheres, o G20 e a posição geopolítica do Brasil
Em seu discurso sobre o papel das mulheres em temas cruciais para o contexto mundial dos tempos de hoje, Paulo Protasio, presidente da CISBRA, disse que elas são a chave na transformação que a humanidade necessita realizar, em especial no que diz respeito a convivência entre um modelo produtivo que leve em conta a preservação do meio ambiente. “O G20 aos poucos chegou à conclusão de que as finanças não resolvem tudo. Precisamos avaliar a nossa capacidade de colaboração e dar às parcerias dignidade e transparência. As mulheres têm a profundidade que este desafio necessita, já que devemos buscar o compromisso da sustentabilidade, o que exige uma mudança de comportamento profunda para enfrentar as diferenças que prejudicam o avanço de um mundo mais harmônico e igual”.
Na mesma linha de pensamento, o presidente da CISBRA, também lembrou da posição estratégica que o Brasil ocupa nesta nova realidade que se forma. “Nós tivemos uma péssima educação no campo da geopolítica, porque nós aprendemos a olhar o globo pelo mapa que os portugueses trouxeram, em que a Europa está no centro. Hoje nós temos 60% dos negócios no Pacífico e 40% no Atlântico. Assim, o IBGE criou um atlas para as crianças brasileiras, onde o Brasil está no centro do mundo e traz a América do Sul inteira com ele. Nosso olhar precisa ser bi oceânico”.
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Por um mundo dos negócios e do empreendedorismo mais harmônico
Como informado à Intertelas, a CISBRA é uma instituição que trabalha em prol do desenvolvimento da internacionalização das empresas brasileiras. Para o diretor executivo do Sistema CISBRA e vice-presidente da CAERJ, Mário Scangarelli, todo o sistema de câmara de comércio está preocupado com essa pauta. Ele relembrou iniciativas como uma categoria exclusivamente para mulheres no Prêmio Atitude Carioca, em que a primeira mulher premiada foi a ex-governadora Benedita da Silva.
“Vamos motivar, incentivar, desenvolver e capacitar mulheres para que nós possamos ter um contexto mais equilibrado, em que as mulheres tenham o seu protagonismo, não só nas empresas, mas principalmente na sociedade civil. As pessoas precisam ter uma primeira oportunidade de conseguir esse apoio, por onde começar, quais parceiros podem encontrar para desenvolver melhor o seu negócio. E, mais do que nunca, as entidades que representam o setor produtivo precisam dar voz e espaço às mulheres, para que elas tenham a oportunidade de brilhar e de conquistar mais espaço no mundo dos negócios, porque talento não falta, nem criatividade, nem potencial”.
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Para a diretora de Relações Humanas e Institucionais do Sistema CISBRA, Mônica Romero, o comércio exterior hoje é uma oportunidade mesmo para que tem um pequeno negócio. De acordo com ele, no passado ao falar em comércio exterior, pensava-se em uso de containers, mas hoje a situação mudou. “Por iniciativas como o ‘Exporta Fácil’, dos Correios, e o uso da internet de forma planejada as oportunidades são muito mais amplas”.
Em entrevista à Intertelas, Romero disse que o evento é uma oportunidade para transmitir às mulheres toda a importância do crescimento profissional, para que elas possam efetivamente ter a sua posição no mercado. “Isso depende de cada uma de nós. Eu cresci no tempo em que as mulheres não trabalhavam, eram todas esposas, mas tive uma mãe que fez toda a diferença porque ela dizia que marido não é emprego. A mulher, antes de tudo, precisa ter uma conscientização e fortalecer a independência interna dela, além de entender que esta independência possibilita que tenhamos poder sobre nós mesmas”.
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Mulheres e o estado do Rio de Janeiro
Na palestra de abertura, o público pode ter um panorama de como os setores estatais do Rio liderados por mulheres estão impulsionando mudanças para diminuir a desigualdade de gênero que ainda existe no mercado e na sociedade. Marcele Porto, a superintendente adjunta de autonomia e economia da Secretaria da Mulher do Estado do Rio de Janeiro, que representou a secretaria, Heloisa Aguiar, informou que em pouco mais de um ano e meio, a Secretaria conseguiu ter avanços bem significativos dentro da pauta da autonomia econômica. “A política para as mulheres, em geral, é feita muito pela perspectiva do enfrentamento à violência. Fazer parte da superintendência de autonomia econômica da mulher é um avanço muito grande. É nesse lugar, é nessa pasta que trabalhamos o empreendedorismo feminino. No ano passado, uma das primeiras ações do time foi instaurar a Lei Estadual do Mês da Mulher em todo o nosso território, nos nossos 92 municípios”.
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Já a secretária interina da Secretaria de Desenvolvimento, Economia, Indústria, Comércio e Serviços do Estado do Rio de Janeiro, Fernanda Curdi, disse que há mais de 941 mil mulheres empreendedoras no estado. “A gente tem um contato direto com a Secretaria de Estado da Fazenda do Rio de Janeiro, com a Cultura, com a da Mulher e as outras secretarias do nosso governo. A gente vive hoje um momento muito promissor. Se os dados se confirmarem para esse ano, o nosso PIB supera a média nacional. Além disso, todos os segmentos estão em constante crescimento no Rio, seja na indústria, seja no comércio, seja no serviço”. Como informado por ela, está sendo elaborado uma proposta na Secretaria chamada “Empreenda Mais Mulher”. “Estamos interiorizando esse desenvolvimento, trazendo capacitação, são mais de 25 horas de capacitação nos nossos eventos. A gente traz rodadas de negócios, sessões de negócios e rodadas de créditos”.
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No campo da cultura, a secretária estadual de Cultura e Economia Criativa do Rio, Danielle Barros, lembrou que a economia criativa está atrelada ao mercado cultural e o objetivo da Secretaria é fomentar direta e indiretamente, com editais públicos e capacitação de recursos, as atividades culturais estatais para os projetos daqueles que são empreendedores e trabalhadores na área no estado do Rio. Segundo a secretária, foram feitos 692 milhões de investimentos em 607 projetos através da lei de incentivo à cultura e 460 milhões em 10.500 projetos através de 60 editais lançados. “Há espaço para o artesanato, para quem faz cultura popular, para quem faz cinema, para quem dança, para quem faz teatro, para quem tem vontade de empreender com seus pequenos negócios no campo da criatividade. Nós temos noção que o Brasil está no centro do mundo e é também parte da missão da Secretaria levar os profissionais da cultura para outros estados e para o exterior”.
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E para a superintendente executiva de governo da Caixa e conselheira do SEBRAE, Anna Carolina Alvim Cardoso, há um esforço do SEBRAE para trazer as mulheres para o cenário e o desenvolvimento internacional. “Desde 2022, já foram capacitadas mais de 300 empresas, com inúmeros pedidos para a internacionalização. O desenvolvimento das pequenas empresas está no nosso DNA, inclusive com linhas diferenciadas para as mulheres”.
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Sonhos concretizados e expectativas futuras
A sétima edição do Conquistando o Protagonismo apresentou diversos casos de sucesso como o da empreendedora e ativista indígena, We’e’ena Tikuna. Durante a sua palestra, em que interagiu muito com o público, apresentando costumes e a filosofia de seu povo, Tikuna relatou uma trajetória onde foi preciso ultrapassar diversos obstáculos, em especial a ideia preconcebida e errônea de que o indígena é uma espécie de vagabundo, analfabeto, que não quer saber da cidade.
Segundo ela, há três tipos de indígena: o aldeado, que vive de raízes da sua terra, não quer ter contato com a cidade e está feliz assim; o que passa pela fase de inclusão, aquele que está na escola aprendendo a língua portuguesa, a língua indígena, que tem o sonho de vir conhecer a cidade, e o indígena urbano, que foi alfabetizado e vive na cidade. A história de vida de Tikuna reflete um pouco está situação. Com a família veio para a cidade e através de habilidades artesanais, criativas e empreendedoras conseguiu ajudar no sustento da família e hoje trabalha com marcas de moda e outras empresas.
A importância da comunicação, da união e do trabalho em conjunto são as lições principais para aqueles que desejam ascender. “É na igualdade, na união, que nós conquistamos o que almejamos. Ninguém chega a algum lugar só. A gente nasce já precisando um do outro. Nossa mãe precisa de um pai para nos gerar. E quando nascemos, ao menos nas cidades, precisamos de alguém para ajudar no parto. O mesmo ocorre na morte, precisamos de alguém para nos enterrar. No mundo dos negócios para conquistar algo é preciso também colaboração. Quando meu pai analfabeto me disse para aprender a língua do branco, ele explicou o porquê da importância de falar o português. Para ele, ao sermos capazes de comunicar de igual para igual, é possível compreender o que eles querem do nosso território, e assim podemos defendê-lo”.
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Além do palco, na plateia também foi possível ter contato próximo com mulheres de diferentes origens e experiência de vida, mas todas apresentavam o mesmo objetivo: buscar inspiração para criar soluções e oportunidades. Elisângela Moraes, especialista de faturamento, disse que o preconceito ainda é velado, em especial para a população de mais idade, mas a mulher é capaz de sobressair em tudo que ela se entrega e tem objetivo. “O mercado ainda está fechado para algumas mulheres, dependendo do que ela queira. Os obstáculos que eu vejo é da confiança dos empregados, dos sócios, quando uma mulher lidera em áreas onde ainda não é totalmente aceita socialmente. Por exemplo, se ela tem um salão de beleza, é normal, esta é uma área que muitos pensam ser para as mulheres, mas se for algo como engenharia, o campo de atuação vai ficando mais restrito. Contudo, penso que as mulheres têm mais responsabilidade, objetividade e humanidade para ocuparem postos de liderança, seja a área que for”.
Isabel Gomes, que trabalha com costura criativa, procurou o evento em razão da chance de ter acesso a dicas e ensinamentos bons, para que possa aplicar no seu negócio. “Hoje há mulheres que estão no mercado alavancando, fazendo a diferença. Eu acho isso muito bom, porque apesar de já ter uma certa idade, eu ainda estou conseguindo acompanhar e aproveitar um pouquinho disso. Eu já tive procura para fornecer peças para o Marrocos, e aí não tive como atender por falta de estrutura, porque não tinha nota fiscal específica para o produto e tal. Então, eu preciso me aprimorar e aprender mais nesse aspecto, para poder crescer”.
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A dona de casa Ellen Lima foi ao evento acompanhada do filho de colo. Segundo ela, atualmente, é preciso prestar atenção à saúde mental e física, além de aprender como atuar no mundo dos negócios. Para ela que veio expandir os seus conhecimentos, as mulheres ainda competem muito entre si de forma pouco positiva. “Precisamos ter menos preconceito entre nós e mais união”. A secretária-geral da Câmara de Intercâmbio Cultural Brasil China, sediada na cidade do Rio de Janeiro, Wu Xiaoman, comentou que tanto no Brasil quanto na China está crescendo o número de mulheres empreendedoras. “Está conexão entre diversos grupos de mulheres é muito positiva, neste passo não vamos mais ficar para trás”.
Por fim, a corretora de imóveis e empreendedora, Cristiane Vianna, disse que foi muito enriquecedor ouvir as histórias de grandes mulheres que têm ou já passaram as mesmas dores que muitas de nós e não desistiram. “Apesar da ascensão das mulheres no mercado de trabalho e nos negócios, ainda existem muitas barreiras que precisam ser ultrapassadas, pois é uma questão que vai além da desigualdade social. Existe também a falta de incentivo do governo para uma independência financeira, o preconceito e falta de oportunidade”.
