
O mercado financeiro fica, por dia, com R$ 5,2 bilhões do orçamento público nacional. Mas quer ainda mais. E tem uma aliada: a televisão brasileira, e sua narrativa audiovisual dos telejornais que criam uma pressão incontrolável sobre o governo. Não é exagero. E explicamos.
Segundo o Auditoria Cidadã da Dívida, só no último exercício (2023) o Brasil gastou de seu orçamento quase R$ 1,9 trilhão para o pagamento de juros da dívida pública. “Juros da dívida pública” é dinheiro (público) que vai para o mercado financeiro (bancos e especuladores em geral). Esse montante representa o maior gasto do orçamento federal: mais de 40% de todo o bolo. Isso equivale ao dobro do percentual do orçamento que vai para a Previdência Social. Dez vezes mais que o percentual do orçamento que vai para a saúde.
Você pode conferir esses e outros dados em detalhes em auditoriacidada.org.br. O mercado acha pouco. Especialmente nas últimas semanas, vem colocando a faca no pescoço dos ministros Fernando Haddad (Fazenda) e Simone Tebet (Planejamento). E no do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Coloca-os contra a parede exigindo “corte de gastos”. Não o corte nos gastos dos juros da dívida, claro que não! Pelo contrário. O mercado quer o “corte de gastos” em tudo quanto é área, justamente para garantir que o gasto com “juros da dívida” seja intocável. Seja “imexível”, neologismo criado mais de 30 anos atrás por um ministro do então presidente Fernando Collor.
Todo dia, várias vezes ao dia, na televisão, no rádio, nos sites, Haddad e Simone Tebet são instados a falar quando vão cortar. Quanto vão cortar. A tudo o que dizem “o mercado reage mal”, como bradam as chamadas dos telejornais, como replicam os comentaristas de economia da televisão – e do rádio, e dos jornalões, e dos sites. Lula, então… não pode suspirar. O presidente tem repetido e insistido no que era para ser o óbvio, se tivéssemos segmentos da elite minimamente comprometidos com os interesses da nação e minimamente sensíveis às urgências do país.
Lula tem dito que não vai tirar dinheiro do Pé-de-Meia, não vai acabar com a política de valorização do salário mínimo e de aposentadorias, não vai mexer no benefício de prestação continuada, não vai fechar as torneiras para o Minha Casa, Minha Vida, nem para o Programa de Aceleração de Crescimento, porque não se trata de “gastar”. Trata-se de investir, de fazer a roda da economia girar, de tentar diminuir as desigualdades sociais.
O que faz a televisão? Alardeia nos telejornais que o dólar subiu e a bolsa caiu porque o mercado “reagiu mal” às falas de Lula. Como se o problema estivesse nas falas de Lula, e não na reação do mercado. O Auditoria da Dívida Cidadã, citado acima, faz um trabalho extraordinário de mostrar como os juros da dívida pública e a dívida pública são uma peça de ficção, que do jeito que estão aí são um verdadeiro “bolsa banqueiro”, como bem definia Plínio de Arruda Sampaio (1930-2014). Por isso, pede uma auditoria, da qual o mercado tem urticária. Por que será?
Por que não vemos uma notícia sobre o Auditoria da Dívida Cidadã na televisão brasileira? Por que não vemos a líder do projeto, Maria Lúcia Fattoreli, comentando as “reações do mercado” e a política de juros do Banco Central, no Jornal Nacional, ou no Jornal da Globo? Por que não vemos a especialista no centro do Roda Viva? No Canal Livre? Debatendo nas News – Globo, Band, Record, CNN? Até quando Haddad, Tebet e Lula vão conseguir segurar a gula, a fúria do mercado, acobertadas por narrativas televisivas?
