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Centenas de personalidades judaicas pedem sanções a Israel por genocídio em Gaza

Palestinos se reúnem em uma barraca de rua sob os prédios destruídos em Jabalia, norte da Faixa de Gaza, em 24 de outubro de 2025. As Nações Unidas estimam que aproximadamente 92% de todos os prédios residenciais em Gaza — cerca de 436.000 casas — foram danificados ou destruídos desde o início do conflito. Segundo a ONU, pelo menos 1,9 milhão de pessoas em toda a Faixa de Gaza foram deslocadas durante a guerra. Crédito: Rizek Abdeljawad/Xinhua.

Uma carta aberta, assinada por 460 destacadas personalidades judaicas, inclusive israelenses, chamam a atenção da ONU e dos líderes de todo o mundo para “as degradantes condições impostas pela ocupação, apartheid e negação dos direitos palestinos”. As personalidades judaicas destacam que nada disso é alertado no acordo proposto por Trump que levou ao cessar-fogo extremamente precário ainda em Gaza. Por essa razão e para dar um basta às atrocidades cometidas pelo regime israelense, os judeus conclamam a que se torne o acordo de cessar-fogo em instrumento de uma virada rumo a uma paz justa e duradoura.

Na carda aberta, “Judeus exigem ação”, divulgada nesta quarta-feira, 22 de outubro de 2025, líderes incluindo o ex-presidente do Knesset, Avraham Burg, a escritora judia-estadunidense Naomi Klein, o ex-negociador de acordos anteriores com os palestinos, Daniel Levi, e o cineasta ganhador recente do Oscar, Yuval Abraham, demandam sanções a Israel até que sejam respeitadas das leis e resoluções internacionais referentes aos direitos do povo palestino.

Carte lembra proclamação de Einstein e Arendt diante do terrorismo contra os palestinos

A carta endereçada ao secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, e aos líderes governamentais, é a primeira ação Judaica conjunta deste porte desde a declaração do cessar-fogo com a troca de prisioneiros entre israelenses e palestinos. Ela segue a tradição inaugurada por Albert Einstein e Hanna Arendt em sua publicação denunciando o terrrorismo israelense contra aldeões palestinos, logo antes da implantação do Estado de Israel.

É com grande alívio que damos as boas-vindas ao cessar-fogo”, diz a carta, e, “no entanto, não deve haver qualquer dúvida de que ele é frágil: as forças de Israel permanecem em Gaza, o acordo não faz referência à Cisjordânia, as questões básicas acerca das condições da ocupação, apartheid e a negação dos direitos palestinos seguem sem ser levadas em consideração”.

Chamado aos líderes mundiais  

Além disso, a carta chama os líderes mundiais a aderirem às leis internacionais, sancionar os cúmplices dos crimes de Guerra, garantir que a ajuda internacional chegue a Gaza. Os judeus que firmam a carta também rejeitam a acusação de antissemitismo como falsidade contra aqueles que advogam paz e justiça. “O cessar-fogo deve ser o começo, não o fim. O risco de que se reverta em uma realidade política de indiferença com a ocupação e a permanência do conflito é muito grande. A pressão deve ser continuada para que se avance rumo a uma era de paz e justiça para todos – tanto judeus como palestinos”.

Em entrevista ao jornal israelense, um dos idealizadores da carta, o ex-presidente do Knesset, Avraham Burg declarou: “Através de toda a escuridão de Gaza, nunca parei de escrever e defender meus valores. Disso emergiu este projeto que apoiei de todo o coração”. “Chegamos a um momento de ruptura existencial”, prosseguiu Burg, “Meu país está em conflito com meus mais profundos valores humanos e judaicos. Entre um aparato Estatal sequestrado e as fundações morais de meu povo a escolha é clara”.


“Não ao fanático supremacismo judaico”

Em agosto, Burg havia chamado os judeus em todo o mundo a se unirem em uma petição levada à Corte de Haia, acusando Israel de crimes contra a humanidade e no chamamento escreveu: “Precisamos de um milhão de judeus, menos de 10% da população judaica global para assinarem esta petição conjunta a Haia”, conclamou. “Eu cheguei à conclusão de que estava errado ao pensar que éramos poucos. Milhares de judeus em todo o mundo têm esperado por este chamado. O que vem acontecendo em Gaza e nos territórios palestinos ocupados não é judaísmo – é uma horrenda mutação religiosa e fanática. Temos que nos levantar contra ela, falar a verdade diante do poder e nos recusarmos ao silêncio”, prosseguiu.

Penso que veremos mais gente que não se dispõe a votar ao dia a dia usual após este frágil cessar-fogo. Dizem que isto tem de mudar. Temos que, fundamentalmente, exigir aquilo pelo qual nos levantamos. Porque um retorno vazio ao status quo de 6 de outubro só nos vai levar a mais desastre. A pressão funciona. A responsabilização importa. Não podemos seguir como se nada tivesse acontecido”.  “Ao longo da história judaica, houve momentos em que a maioria seguiu cegamente líderes desastrosos e foram os poucos que se ergueram contra eles para preservar as mais nobres e grandiosas tradições. Isso aconteceu antes e é nosso dever mais uma vez”, alertou Burg.

A minoria justa deve oferece um guia de vida à maioria desencaminhada. Devemos nos opor às ideologias de supremacismo judaico e à liderança de um primeiro-ministro corrupto que nos sacrifica a todos no altar de seus próprios interesses egoístas e ruínas letais”. O ex-negociador por Israel, Daniel Levy, que assina a carta, disse que a iniciativa é para “superar o que foi negligenciado por décadas: a recusa à busca de qualquer caminho político para atender e resolver a questão da ocupação e ao permanente conflito. Isso nunca poderia nos levar à segurança ou bem-estar”.

A iniciativa, acrescentou Levy, é encontrar outras vozes judaicas. “Elas não são difíceis de encontrar, elas seguem se proliferando, muitos estão profundamente desgostosos com o que tem sido feito em nome do coletivo judaico, como se isso fosse aquilo que aprendemos da história judaica, como se este fosse o nosso destino”. A carta ocorre no momento em que uma pesquisa conduzida pelo Washington Post mostra a desaprovação da agressão de Israel entre os judeus estadunidenses, com 61% dizendo que Israel cometeu crimes de guerra contra os palestinos em Gaza.

Fonte: Texto originalmente publicado no site do Jornal Hora do Povo.
Link direto: https://horadopovo.com.br/centenas-de-personalidades-judaicas-pedem-sancoes-a-israel-por-genocidio-em-gaza/

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