
Considerado o mais importante evento audiovisual da América do Sul focado em questões socioambientais, a 15ª Mostra Ecofalante de Cinema promove uma série de debates discutindo questões urgentes que dialogam com o conteúdo dos filmes programados. Visando promover o cinema como um espaço de reflexão crítica e engajamento socioambiental, os debates reúnem cientistas, cineastas, jornalistas, lideranças comunitárias, intelectuais e ativistas para sete rodas de conversa.
Os encontros conectam as dimensões mais urgentes da crise ecológica contemporânea – como a emergência climática, a expropriação predatória de territórios e a violência política – às suas profundas implicações subjetivas e simbólicas, discutindo desde os regimes de apagamento histórico e as disputas de gênero até o esgotamento físico e mental da vida nas grandes cidades. O festival acontece de 28 de maio a 10 de junho e os debates estão sediados no cine Reserva Cultural, em São Paulo, com entrada franca.
O encontro “Emergência Climática & Crise Ambiental”, que ocorreu ontem, 28 de maio, realizou uma reflexão sobre como o colapso climático vem reconfigurando territórios e subjetividades, e sobre o papel da ciência, das políticas públicas e da sociedade civil na construção de respostas à altura do desafio. O O debate ocorreu logo após a exibição do documentário “Bangladesh Submersa” (Espanha, 2025, 85 min), de Natxo Leuza.
“Colonialismo, Território e Povos Originários: Histórias de saques e violências” é o tema do debate de hoje, 29 de maio, às 21h. Em pauta, a continuidade do colonialismo em suas dimensões materiais e simbólicas, e sobre as estratégias de resistência dos povos originários na América Latina e no Brasil. Participam a cineasta e arte-educadora Cristina Llumipanta, Majoí Favero Gongora, mestre e doutora em antropologia social pela Universidade de São Paulo, e Paulo Henrique Martinez, livre-docente em história ambiental pela Universidade Estadual Paulista.
A mediação fica a cargo de Jamille Anahata, poeta do povo Mura, pesquisadora e integrante da Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas. O debate é realizado logo após a exibição do documentário “Nossa Terra” (Argentina/EUA/México/França/Países Baixos/Dinamarca, 2025, 122 min), de Lucrecia Martel, às 19h. Em sua primeira incursão no documentário em longa-metragem, a premiada cineasta argentina narra a investigação do assassinato de Javier Chocobar, líder da comunidade Chuschagasta. Em torno desse caso emblemático se desdobra uma história muito maior, secular, de colonialismo, desapropriação e apagamento.
Os conflitos na região do Oriente Médio são temas de dois dos debates programados em 2026: “Conflitos, Guerra e Memória” e “Palestina: Apagamentos e Resistências”. O primeiro, programado para 1º de junho, às 20h30, conta com a participação de Safa Jubran, professora associada da Universidade de São Paulo, onde leciona língua e literatura árabes, Reginaldo Mattar Nasser, professor livre-docente na área de relações internacionais da PUC-SP, e Mariana Duccini, professora e mestre e doutora pela ECA-USP.
Com a mediação do jornalista, escritor e analista político João Paulo Charleaux, eles analisam como as guerras envolvem disputas em torno da memória e o papel do arquivo e da imagem como instrumentos de resistência cultural, histórica e política. O debate será realizado logo após a exibição do filme “Você Me Ama (França/Líbano/Alemanha, 2025, 75 min), de Lana Daher, às 19h15.
Uma jornada pela memória audiovisual do Líbano, a obra é inteiramente construída a partir de imagens de arquivo – 70 anos de cinema, TV, vídeos caseiros e fotografias que percorrem o imaginário libanês marcado por alegria e intimidade, destruição e perda. Pelos olhos de cidadãos, cineastas e artistas, a obra reconstrói uma história fragmentada em um país sem arquivo nacional, celebrando a expressão criativa como forma de resistência, renovação e preservação da memória.
Já “Palestina: Apagamentos e Resistências”, em 3 de junho, às 21h, discute a violência contra Palestina como um regime de apagamento que opera simultaneamente no plano territorial, simbólico e afetivo. O debate problematiza como os sentidos das imagens e narrativas se tornam territórios de resistência contra o projeto de genocídio imposto ao povo palestino.
Como o cinema pode atuar como contra-arquivo diante de um apagamento planejado? E de que forma a preservação das subjetividades e da memória histórica pode confrontar a fragmentação imposta pela ocupação? A conversa é conduzida pela jornalista palestino-brasileira Soraya Misleh, Salem Nasser, professor de direito internacional na FGV Direito SP, e pelo cineasta Carlos Adriano, doutor em estudo dos meios e da produção mediática pela USP.
A mediação é de Eduardo Sombini, repórter da Folha de S.Paulo. Às 19h30 é projetado o filme “Partition” (Líbano/Palestina/Canadá, 2025, 61 min), no qual a diretora Diana Allan mescla imagens de arquivo da Palestina sob ocupação britânica com áudios de refugiados palestinos no Líbano. Selecionado para o prestigioso Festival de Roterdã e inédito no Brasil, o longa revela os fios invisíveis que conectam o passado e o presente da região utilizando uma montagem dialética e uma banda de som assíncrono.
Debate organizado em parceria com a Anistia Internacional Brasil, “Democracia, Ética e Justiça”, em 2 de junho, às 21h, discute os desafios da responsabilização diante de tecnologias e corporações que operam acima dos direitos humanos e dos interesses coletivos, exigindo novos caminhos de proteção, justiça e controle social. Compõem a mesa Txai Suruí, indígena do povo Paiter Suruí e fundadora do movimento da Juventude Indígena de Rondônia, Jurema Werneck, médica e doutora em comunicação e cultura pela UFRJ, e Selma Dealdina, quilombola do Território Sapê do Norte.
O sociólogo Uvanderson Silva responde pela medição. Antecedendo ao encontro, é exibido o longa-metragem “O Silêncio da Terra” (Espanha/França/Bélgica, 2025, 77 min), de Frank Gutiérrez, às 19h45. O filme acompanha as histórias de Berta Cáceres, Paulo Paulino Guajajara e Aldo Zamora – três defensores ambientais assassinados na América Latina por enfrentarem megacorporações e seus interesses econômicos. A obra investiga quem está por trás desses crimes, por que a impunidade persiste e quais as consequências dessa violência para o planeta e para o futuro da humanidade.
O tema do encontro em 4 de junho, às 19h30, é “Feminismos, Corpo e Lutas de Gênero”, cuja proposta é estabelecer uma interlocução entre o cinema, a literatura, a educação e as questões de gênero. Em discussão, como a escrita de si – atravessada por questões de classe, gênero e sexualidade – oferece meios para tornar visível o que foi historicamente silenciado e reconhecer os corpos como lugares de experiência política. O debate aborda também os modos como o cinema e a educação podem atuar na constituição de subjetividades que reconheçam as lutas e estéticas feministas como vias para a desconstrução das opressões e a afirmação da justiça social.
Participam Karla Bessa, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero PAGU e professora da Unicamp, Mariana Delfini, mestre em teoria literária e literatura comparada pela FFLCH-USP e Daniela Auad, professora titular no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de São Carlos, com mediação de Cláudia Mogadouro, criadora e coordenadora do Coletivo Janela Aberta – Cinema & Educação. A mesa é antecedida, às 18h, pela projeção do longa-metragem “Escrevendo a Vida – Annie Ernaux pelos Olhos dos Estudantes” (França, 2025, 90 min), no qual a realizadora francesa Claire Simon aborda os diferentes olhares marcados por um forte viés de gênero de jovens estudantes sobre a obra de Annie Ernaux, autora vencedora do Prêmio Nobel de Literatura.
Encerrando o ciclo de debates, em 5 de junho, às 20h30, “Vidas Exaustas: solidão, trabalho e a reconstrução do comum”. A proposta da mesa é investigar a exaustão como estrutura organizadora da vida contemporânea, analisando a indissociabilidade entre o mal-estar coletivo, as mutações no mundo do trabalho e a emergência da crise climática.
O objetivo é refletir sobre como o cinema e a clínica podem atuar na constituição de subjetividades capazes de reconhecer o sofrimento psíquico não como patologia isolada, mas como sintoma social e político de um tempo em colapso. Interessa-nos também debater o papel das redes comunitárias de cuidado como estratégia de resistência e resposta à precarização sistêmica da saúde mental da sociedade.
Participam do encontro o mestre em artes e psicólogo Tales Ab’Saber, Ludmila Costhek Abílio, pesquisadora afiliada do Instituto Alameda e professora colaboradora do programa de pós graduação em sociologia da IFCH/Unicamp, e Maria Maeno, médica e pesquisadora com mestrado e doutorado pela FSP-USP. A mediação é de responsabilidade de Denis Russo Burgierman, diretor de publicações como as revistas Superinteressante e Vida Simples e autor do livro “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas ao redor do mundo.
A exibição de “Querido Amanhã” (Dinamarca/Suécia/Japão, 2025, 82 min), de Kaspar Astrup Schröder, antecede o debate, às 19h. O filme apresenta um cenário onde a solidão no Japão deixou de ser um drama individual para se tornar uma crise nacional, culminando na criação de um “Ministério da Solidão”. A obra acompanha o processo de dois indivíduos para quem a solidão se tornou tão avassaladora que o caminho de volta parece quase perdido.
A 15ª Mostra Ecofalante de Cinema é viabilizada por meio da Lei Rouanet e do ProAC – ICMS, Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas. Ela tem patrocínio do Itaú, White Martins e da Spcine e apoio da VEJA. A produção é da Doc & Outras Coisas e a coprodução é da Química Cultural. A realização é da Ecofalante, Governo do Estado de São Paulo e do Ministério da Cultura.
