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Lançamento do livro “Perspectiva Ecológica da Modernização Chinesa” promove debate sobre desenvolvimento e meio ambiente

Crédito: Jin Haoyuan/Xinhua.

Os desafios que as mudanças climáticas trazem a todos nós necessitam de respostas que vão muito além de iniciativas que visam a proteção ambiental, é preciso reformular todo o modelo de produção e o estilo de vida que o mundo industrial criou, o que exige iniciativas dos governos, das empresas, dos indivíduos e dos órgãos internacionais. Estas questões estão sendo refletidas e pesquisadas em todas as partes do globo e, ao Brasil, é necessário conhecer mais o que parceiros como a China têm teoricamente e na prática atuado com relação à questão ecológica.

No intuito de aprofundar o intercâmbio intelectual entre Brasil e China, a Fundação Maurício Grabois, em conjunto com o Centro de Estudos Avançados Brasil China (CEBRACh) e a editora Chongqing, promove uma parceria que se concretiza com a publicação em português no Brasil, pela editora Anita Garibaldi, do livro “Perspectiva Ecológica da Modernização Chinesa”, de autoria do diretor-geral do Instituto de Estudos da Civilização Ecológica da Academia Chinesa de Ciências Sociais, Zhang Yongsheng.

Crédito: Site do CEBRACH.

Trata-se de um dos volumes da série “Seis Perspectivas da Modernização Chinesa”, organizada por Jiang Hui, pesquisador no campo do socialismo com características chinesas e ex-vice-presidente da Academia Chinesa de Ciências Sociais. Na segunda-feira, 3 de agosto de 2026, ocorreu no anexo 2 da Câmara dos Deputados, em Brasília, o lançamento desse livro e a abertura da exposição fotográfica “Construindo um Futuro Compartilhado Brasil-China”.

A realização do evento foi do Grupo Parlamentar Brasil-China da Câmara dos Deputados, da Frente Parlamentar Brasil-China do Congresso Nacional, da Agência de Notícias Xinhua, do CEBRACH, do Instituto Confúcio da Universidade de Brasília e da Fundação Grabois. Para saber mais do conteúdo desta obra, confira a entrevista que o presidente da Grabois, Walter Sorrentino, forneceu à Xinhua e que a Intertelas, em parceria, reproduz no formato pergunta e resposta abaixo.

O presidente da Fundação Grabois, Walter Sorrentino. Crédito: Site do PC do B.

Como foi estabelecida e qual objetivo da parceria entre a Fundação Maurício Grabois, o CEBRACh e a editora Chongqing?

A parceria entre a Fundação Maurício Grabois, o CEBRACH e a editora Chongqing foi construída a partir de um esforço comum de aprofundar o intercâmbio intelectual entre Brasil e China, especialmente em temas estratégicos como desenvolvimento, sustentabilidade e teoria social. Seu objetivo central é promover a circulação de ideias contemporâneas chinesas no Brasil, de sua modernização, contribuindo para qualificar o debate público e acadêmico sobre alternativas ao modelo de desenvolvimento dominante, ao mesmo tempo em que fortalece os laços de cooperação cultural e científica entre os dois países.

Nesta obra, Zhang Yongsheng introduz o conceito de civilização ecológica. Muitos autores no Brasil e em outras partes do mundo já levantaram ideias e conceitos parecidos, então qual seria o diferencial real da proposta chinesa?

O diferencial da proposta chinesa de civilização ecológica, tal como apresentada por Zhang Yongsheng, está em sua articulação sistêmica entre projeto de desenvolvimento, ação estatal e transformação cultural, indo além de formulações normativas ou críticas abstratas. Trata-se de uma nova concepção de desenvolvimento e de civilização, conceitos incorporados à estratégia nacional, com desdobramentos institucionais concretos, metas de planejamento e políticas públicas coordenadas, o que lhe confere um caráter prático e operacional que nem sempre está presente em abordagens similares no Ocidente.

O Brasil, em sua história, teve uma tendência de copiar modelos externos sem levar em conta o contexto nacional, algo que esta obra não aconselha. Que tipo de reflexão esta obra pode incitar sobre esta questão? Estaria o Brasil, conforme alguns economistas desenvolvimentistas, em nossa relação atual com a China, repetindo alguns erros do passado?

A obra convida o Brasil a refletir criticamente sobre sua tradição de importação acrítica de modelos, destacando a importância de adaptar experiências internacionais às especificidades históricas, sociais e ambientais nacionais. No contexto da relação com a China, o livro sugere que a cooperação deve evitar padrões primário-exportadores ou dependentes, estimulando, em vez disso, uma parceria baseada em agregação de valor, transferência tecnológica e desenvolvimento soberano, de modo a não reproduzir assimetrias típicas do passado. Da  perspectiva brasileira, entretanto, a obra nos fala de questões universais para a presente época histórica, como sejam a da noção e concepção de desenvolvimento, do papel do Estado e do planejamento – obviamente nos marcos da formação econômico social brasileira.

Crédito: Jin Haoyuan/Xinhua.

Onde a experiência brasileira e chinesa sobre a relação meio ambiente e desenvolvimento encontram-se?

As experiências brasileira e chinesa convergem na busca por conciliar desenvolvimento econômico com preservação ambiental em contextos de grande diversidade territorial e desafios sociais complexos. Ambos os países enfrentam a necessidade de reduzir desigualdades, ampliar infraestrutura e, ao mesmo tempo, preservar biomas estratégicos, o que cria um terreno comum para troca de políticas, tecnologias e estratégias de planejamento sustentável. Entretanto, entre os dois países existem diferenças importantes de matrizes em termos institucionais, energéticos e biomas, que supõem soluções originais para serem equacionadas para a sustentabilidade ambiental.

Que tipo de cooperação podemos estabelecer com os chineses, quanto a formular soluções conjuntas desde o início para problemas que na essência possam ser comuns?

Brasil e China podem avançar em formas de cooperação que envolvam pesquisa conjunta, desenvolvimento tecnológico compartilhado e planejamento integrado de políticas públicas, especialmente em áreas como energia renovável, agricultura sustentável, cidades verdes e manejos da urbanização em bacias hidrográficas. A chave é construir soluções desde a origem de forma colaborativa, combinando capacidades científicas, institucionais e produtivas, e com originalidades, em vez de simplesmente transferir modelos prontos.

Zhang Yongsheng salienta bastante a necessidade de transformação profunda da forma de ver e pensar o meio ambiente, assim como do estilo de vida capitalista que se baseia no consumo. Fala da formação de novos valores sociais que não estejam tão baseados no consumo material. Vários pensadores brasileiros, em especial os indígenas, têm enfatizado essa questão há décadas. Trata-se de uma mudança que ainda apresenta muitos obstáculos. Assim, como você percebe que Brasil e China estão lidando com essa situação na prática e o que podem melhorar? 

Tanto no Brasil quanto na China há avanços e limites na construção de novos valores sociais menos centrados no consumo. A China tem promovido mudanças por meio de políticas públicas e campanhas nacionais, enquanto o Brasil possui uma rica tradição de pensamento crítico, especialmente de matrizes indígenas e populares. No entanto, ambos ainda enfrentam a força estrutural do paradigma produtivismo-consumismo e, no caso brasileiro, mais intensivamente das lógicas de mercado. Em ambos se exige maior integração entre políticas educacionais, culturais e econômicas para consolidar mudanças mais profundas.

Crédito: Jin Haoyuan/Xinhua.

Grande parte das propostas colocadas pelo professor Zhang Yongsheng requerem também a existência de um Estado forte, capaz de equilibrar poder com os grandes conglomerados. Como países como o Brasil que, ao contrário da China, implementaram políticas neoliberais e ainda atuam nessa linha, podem recuperar o poder de maior atuação do Estado na reorganização social para a construção de civilização ecológica?

A recuperação da capacidade estatal em países como o Brasil passa por reformas institucionais, fortalecimento do planejamento público e reconstrução de instrumentos de política industrial, científica e ambiental, com marcos regulatórios soberanos, em função de um projeto nacional de desenvolvimento. Isso implica também redefinir o papel do Estado como indutor do desenvolvimento sustentável, capaz de regular mercados, coordenar investimentos e enfrentar interesses concentrados, superando os limites impostos por décadas de orientação neoliberal.

Isso é o que a Fundação Maurício Grabois chama de Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento Sustentável. Na China, isso é plenamente assegurado e vai reforçado com uma sólida capacidade de planejamento, a razão científica e técnica elevada à condição de reitora dos rumos do desenvolvimento.

Que tipo de novo arranjo social, econômico e político é necessário para enfrentar os desafios da crise climática?

Enfrentar a crise climática exige um novo arranjo que articule Estado forte, economia orientada por objetivos sociais e ambientais e participação democrática ampliada. Isso significa reorganizar a produção e o consumo em bases sustentáveis, com planejamento de longo prazo, inovação tecnológica e equidade social, superando a lógica de curto prazo e maximização do lucro que caracteriza o modelo vigente. Nós, da Fundação Maurício Grabois, entendemos que esse novo arranjo social, econômico e político é o socialismo.

Ao mesmo tempo, não se superará o desafio nos marcos de uma ou apenas de um conjunto de nações. Exige-se articulação e governança global fortes, o que está sendo destruído atualmente pelos EUA. Isso nos fala a ideia chinesa poderosa de uma “comunidade com futuro compartilhado” para propor um projeto coletivo de desenvolvimento, dignidade e sustentabilidade para toda a humanidade.

No âmbito do cenário Internacional, há forças que almejam permanecer no mesmo modelo industrial que Zhang Yongsheng se refere. Como Brasil e China podem atuar para que a civilização ecológica seja realidade um dia?

No cenário internacional, Brasil e China podem atuar conjuntamente na defesa de uma governança global mais equilibrada, promovendo o multilateralismo e iniciativas que priorizem o desenvolvimento sustentável. Isso inclui cooperação em fóruns internacionais, financiamento de projetos verdes e construção de alternativas ao modelo industrial intensivo em carbono, contribuindo para difundir a ideia de civilização ecológica como horizonte comum. Os presidentes Xi Jinping e Luiz Inácio Lula da Silva têm sido os principais líderes mundiais nessa direção.

O presidente chinês Xi Jinping coloca a construção de uma civilização ecológica como parte da ideologia do socialismo com características chinesas. Qual a sua opinião sobre isso?

A incorporação da civilização ecológica como parte do socialismo com características chinesas demonstra a centralidade da questão ambiental no projeto estratégico da China. Essa é uma inovação teórica e prática relevante, que integra desenvolvimento econômico, proteção ambiental e bem-estar social em uma visão de longo prazo, oferecendo elementos importantes para o debate internacional sobre caminhos alternativos de desenvolvimento. É um novo paradigma de desenvolvimento e de sustentabilidade. Demonstra que a teoria do socialismo amadureceu e que a teoria marxista se manifesta como um referencial avançado para análise crítica do presente e da projeção de futuro.

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