
Incluindo a Guerra Jishin (672–673). Crédito: https://boardgamegeek.com/boardgamefamily/58709/history-yamato-period
“A China jamais buscará hegemonia.”
Deng Xiao Ping, Assembleia Geral da ONU, 9 de abril 1974
O “Hou Hanshu”, Livro de Han Posterior, menciona que em 57 e.c. o Imperador Guangwu de Han concedeu um selo de ouro à missão do país de Wō (倭), termo chinês que designava o Japão e seu povo. O primeiro contato com a China ocorreu quando os Yayoi já tinham amadurecido, durante mais de 300 anos, o processo de aculturação dominante dos povos originários pela superioridade de conhecimento e força. Muitos Jomon já tinham sido subjugados e trabalhavam para os dominadores.
Muitos viviam foragidos, isolados, sempre ameaçados. Os Yayoi prosperaram. Já eram mais de 100 clãs espalhados por três ilhas: Kyushu, Shikoku e Honshu. Cada clã subjugava a tribo que encontrava na área que invadia e dispunha ao mesmo tempo de terra arável e mão de obra para produzir. Os Jomon não eram inimigos que os ameaçassem.
Ao chegar na China, o clã dos Yayoi que ousou a perigosa viagem descobriu um Império que dispunha de saberes incompreensíveis, como a escrita, e se estendia em dimensões espaciais espantosas para os habitantes do minúsculo arquipélago. Em 1784, na ilha de Shikanoshima, na Baía de Hakata, Fukuoka, foi descoberto um selo com a inscrição 漢委奴國王 “Rei do estado de Na (奴) de Wō (委), vassalo de Han (漢)”. O clã dos Yayoi que vivia nessa ilha da atual Prefeitura de Fukuoka em 57 e.c. usava esse selo para se sobrepor aos vizinhos.
Como ninguém no arquipélago sabia ler, quem trazia a placa da China dizia a todos que o chefão de um reino gigantesco o reconhecia como rei das ilhas distantes, o protegeria e ajudaria. Wō foi o primeiro nome da identidade japonesa, atribuído pelos chineses para se referir aos ilhéus. Nessa pequenina placa, o caractere aparece em forma simplificada. Como veremos, nesse caso o simples virou complicadíssimo, despertou fúrias, desencadeou tragédias.
Nomear significa desvelar o ser do nomeado e distinguir esse fenômeno de outros fenômenos. Ninguém sabe quando o selo desapareceu. Ele valia mais que ouro no tempo dos iletrados. Assegurava um padrinho poderosíssimo, com domínio sobre mistérios insondáveis, como as figuras mágicas que carregavam mensagens sem usar a voz. Quando o que era amuleto ressurgiu em 1784, o ouro portava um signo maldito. Os alfabetizados estavam diante da evidência de que foram vassalos. Pior ainda, estavam diante do que os horrorizou no século IV e.c. e que tinham recusado em 757 e.c. Quando chegarmos a essas datas, a frase anterior se esclarecerá. Depois, quando chegarmos em 8 de julho de 1853, veremos ressurgir do inconsciente coletivo japonês o trauma que veremos ocorrer em seguida.
A História registra que no século IV e.c. a Cultura japonesa galgou um novo e decisivo patamar. Após 700 anos desde a chegada no arquipélago, um clã dos Yayoi vai sair da fase da Cultura oral ao importar da Coreia a escrita chinesa. Vejamos como isso sucedeu. Um poder emergente na região de Nara, o clã Yamato, reuniu clãs locais e criou a Confederação Yamato. Navegaram até a Coreia. Fizeram aliança com o poderoso reino Baekje e se tornaram influentes em Gaya, no sul da península. O clã Yamato ágrafo levava para a Coreia o que tinha a oferecer: soldados para ajudar nas guerras regionais.
Trazia para os domínios de Yamato o que os coreanos de Baekje e Gaya ofereciam: professores que traziam técnicas e conhecimentos avançados. Foi então, no convívio com os vizinhos coreanos letrados, que os Yamato descobriram um poder que asseguraria domínio não apenas sobre o arquipélago. Os Baekje ensinaram como funcionava o poder do antigo amuleto de transmitir mensagens sem precisar da voz.
A escrita foi percebida pelos Yamato como um poder capaz de dominar tudo e todos. Esse padrão de entendimento hegemônico tinha sido constituído na longuíssima fase do pensar-sentir da Cultura oral, desde o tempo dos antepassados continentais. Talvez tenha sido por não conseguirem dominar tudo e todos no continente que os Yayoi decidiram cruzar o mar e tentar dominar outras terras. Ao chegar no arquipélago, encontraram presa fácil. Subjugaram. Prosperaram. E séculos depois foram explorar o desconhecido, esquecidos de que voltavam à origem.
Ávidos, importaram professores coreanos para os ensinar a ler e escrever com os caracteres chineses. Os coreanos eram generosos; tinham aprendido com os chineses a alegria de oferecer. Além da escrita, os coreanos iriam oferecer muito mais. No século IV e.c., os Yamato mantinham a escrita como um instrumento de poder nas mãos da elite. No século XVIII e.c., os párias, Burakumin, ainda eram proibidos de frequentar escolas. Na segunda metade do século XX, movimentos educacionais como Dowa ajudaram muitos Burakumin a aprender a ler e escrever. A estratificação social rígida criada pelos Yayoi foi mantida e aprimorada pela Cultura dominante ao longo dos 2.300 anos da história japonesa.
O significado do caractere Wō, 倭, aquele primeiro nome escrito pelos chineses para nomear os Yayoi, nos dicionários mais antigos, como o Shuowen Jiezi (c. 121 d.C.), é expresso como Shùn Mào, 顺皃, que significa “aparência de obediência”, “cordato” ou “gentil”. Neste período do Shuowen Jiezi, a “obediência” era uma qualidade positiva. Além disso, o caractere tem uma pronúncia alternativa (Wēi), usada em expressões clássicas como Wēichí, 倭迟, que descreve um caminho “sinuoso”, “serpentino” ou “longo”.
A característica de maleabilidade na Cultura chinesa é positiva. A ambiguidade só surgiu depois, quando se fez a decomposição do ideograma em seus dois componentes. O radical Rén, 亻, significa pessoa, povo, ou uma característica sua. O problema explosivo surgiu quando os Yamato descobriram que o componente fonético, Wěi, 委, sozinho, significava “curvar-se”, “rebaixar-se”, “dobrar-se”, “abandonar” ou “delegar”. Para uma Cultura guerreira, serem chamados de “povo submisso” era insulto insuportável.
Podemos imaginar um professor coreano tentando explicar a um aluno enfurecido que os chineses tinham como padrão traduzir nomes estrangeiros pelo caractere que mais se aproximava do som do termo estrangeiro. Ao seguirem o padrão, os tradutores oficiais do Imperador tinham escolhido o caractere Wō 倭 como transcrição fonética mais próxima ao som “Wa”, a palavra falada com que os Yayoi ágrafos se chamavam. Há quem só escute o que quer ouvir. Em especial, os enfurecidos. Dominados pela fúria, os Yayoi decidiram que Wō 倭 era ideograma que os insultava, e não o fonema que o generoso professor coreano tentava em vão explicar.
Os semialfabetizados decidiram que o professor que os alfabetizava estava errado. Os Yayoi não conseguiam admitir seus erros. Os Yayoi criaram a Cultura do hegemonismo guerreiro que seguiu a recriá-los. O círculo vicioso até hoje não foi rompido. Os Yayoi criaram o Japão e criaram os japoneses que discriminam e subjugam até hoje os japoneses que não são reconhecidos como japoneses por discordarem dos japoneses que seguem a discriminá-los. Daqui em diante vamos usar o termo japoneses para nos referir aos dominantes. Ao final falaremos sobre a Cultura dos dominados, única esperança de futuro para o Japão.
Para um povo guerreiro, e cônscio da magnitude do pai cultural que lhe concedia poder através do selo de ouro, que lhe possibilitava saberes através da escrita, descobrir que o chamou de “povo submisso” era revoltante. O insuportável era a impotência. Insuportável era não poder extravasar a fúria em ataque guerreiro. Insuportável era saberem-se militarmente anões diante do gigante. Fúria e impotência geraram dor insuportável. O recalque sobreveio para ocultar a lava que ameaçava incendiar a consciência. Trancaram no submundo do inconsciente coletivo o desejo frustrado de matar quem os insultou.
A impotência reprimida fermentou 400 anos. Foi somente em 757 e.c., já no período de Nara, com o Império em ascensão, que os japoneses decidiram que era hora de recusar o nome que receberam dos chineses. Trocaram o nome do povo e país pelo termo homófono, Wa, 和, que significa Harmonia, Paz. Recusaram o nome que os revoltou pois não acreditaram que os chineses os respeitaram ao escolher ideograma homófono ao nome que eles próprios se davam. Quem não respeita não pode crer que alguém respeite. Os Yayoi não respeitaram os Jomon.
Façamos uma rápida visita à atualidade avançadíssima, com seus velocíssimos e sapientíssimos algoritmos. Logo que o presente artigo for publicado, a cavalaria algorítmica sairá em disparada para corrigir e reconstruir, segundo diferentes comandos resultantes de diferentes motivações, as versões hoje disponíveis. A escolha de palavras como “anão”, “bárbaros” em pleno século XXI ao traduzir Wō, 倭, para idiomas ocidentais reforça a soberba do hegemonismo da Cultura Ocidental.
Ao verter 倭 por “anão”, o tradutor ocidental (algoritmos incluídos) não está apenas errando filologicamente; está repetindo o gesto da Cultura colonialista ao impor sobre o outro uma categoria de inferioridade física que não existia no original. Bárbaros, na Grécia antiga, berço do hegemonismo, nomeava os não gregos. “Bar, bar, bar” era como soava aos gregos antigos o som de línguas que eles desconheciam. Só os gregos não eram bárbaros para os gregos. A palavra Hegemon foi criada por quem criou o modelo que o Ocidente seguiu até hoje.
Os Imazighen, “homens livres”, do norte da África, que falam a mesma língua por 8.000 anos, Tamazight, ainda hoje são chamados de Berberes, bárbaros, nome que lhes foi atribuído por colonizadores europeus cujas línguas nasceram anteontem. A Cultura dos colonizadores não respeitou o direito dos Imazighen de serem chamados pelo nome que eles escolheram para si mesmos. Para poderem explorá-los sem consciência de culpa, era preciso trocar o nome para inferiorizar e justificar a exploração.
Para que suas tropas matassem chineses sem culpa, era preciso ensinar que os chineses eram insetos. O mecanismo do hegemonismo é sempre o mesmo. Para dominar e explorar, é preciso inferiorizar. Os Imazighen seguem resistindo e exigindo o direito de serem chamados pelo nome que escolheram para si, e não pelo nome que os colonizadores lhes impuseram para os inferiorizar e explorar. A resistência dos Imazighen persistirá até que alguma geração de descendentes dos exploradores os ouça, se envergonhe e respeite o que lhes é de direito: “Não sou o que tu me chamas. Sou o que eu sei que sou.”
Voltemos a 757 e.c. Quando os japoneses escolheram Wa, 和, Harmonia, Paz, adotaram um termo cujo significado expressava um sentido aos chineses e expressava outro completamente diferente aos japoneses, em virtude das diferentes bases orais das duas Culturas. Wa, 和, Harmonia, Paz, para a Cultura chinesa, desde a origem sempre teve dimensão ontológica: harmonia entre o Céu e a Terra. Harmonia Wa, 和, na Cultura japonesa, em virtude da base na Cultura oral hegemônica dos Yayoi, sempre teve dimensão social: Harmonia significa o dever de concordância no interior de cada estrato social com o que emana do estrato superior, até chegar ao Imperador.
Paz significa ausência de conflito. Como se mantém a ausência de conflito numa sociedade rigidamente estratificada? Através da submissão. O ritual implacável relembra a cada instante, em todas as circunstâncias: curvar-se diante do poder no grau exato de inclinação requerido pelo sistema hegemônico, e cumprir ordens. Monarquia hegemônica e rigidez japonesa são dois pleonasmos.
Os caracteres chineses, quando adotados para escrever outro idioma, como o japonês, grafam com o mesmo ideograma um outro pensar-sentir, não aquele do qual nasceram. Sistemas de escrita importados funcionam como instrumento de expressão do pensar-sentir já existente em qualquer povo ágrafo. O sistema de escrita que nasce de sementes no mundo interno (linhas 1, 2, 3 nos hexagramas), ao surgir no mundo externo (linhas 4, 5, 6 nos hexagramas), expressa o conteúdo das sementes que germinaram no interior. O sistema de escrita importado não pode substituir as sementes no interior. Seguirá sempre a expressar os conteúdos formados na fase ágrafa por quem o importou.
Agora voltemos ao século IV e.c. Os Yamato não importaram apenas a escrita chinesa. Os Yamato trouxeram da Coreia (Baekje) arquitetos, artesãos especializados em metalurgia e, ponto crucial, escribas e burocratas que conheciam o funcionamento do estado chinês. Ao aplicar os modelos chineses, os Yamato se tornaram o primeiro governo a ter supremacia de fato no Japão. Transformaram uma confederação de estados (Uji, 氏) num estado unificado. Consolidaram seu poder não apenas militarmente. Começaram a unificar mitos e ritos locais, práticas de purificação (misogi, autopurificação; harae, purificação por um sacerdote) e magias propiciatórias que remontavam às tribos autóctones, os Jomon.
Os Yamato escolheram como símbolo de poder os Kofun, imensas câmaras funerárias em forma de fechadura, Zenpō-kōen-fun, sobre as quais colocavam terra para formar morros recobertos com pedras. A posteridade nomeou o período da história japonesa entre 250-538 e.c. de Kofun. Nomear uma época decisiva de sua história não é algo banal. A posteridade escolheu o nome Kofun pois é herdeira do marco Cultural que buscaremos entender a seguir.
A base do Daisen Kofun, construído no começo do século V, media 486 metros de comprimento e 305 metros de largura. Aproximadamente o dobro da base da Grande Pirâmide de Gizé, que tem cerca de 230 metros. O mais antigo Kofun data do século III. Durante os 300 anos desde 57 e.c., quando o Rei de Na (atual Fukuoka) foi reconhecido como vassalo de Han, há registro de 5 missões de clãs japoneses em visita à China. É provável que os Yamato tenham se inspirado na gigantesca necrópole subterrânea de Qín Shǐ Huángdì mencionada por Sīmǎ Qiān (c. 145-87 a.e.c.) no Shiji, 史记.
Visto de cima, o Kofun consistia em dois aposentos: o menor, quadrado, dava acesso ao maior, redondo, onde ficava o caixão. O quadrado não estava dentro do círculo nem vice-versa. Os opostos não estavam integrados. Os dois aposentos eram contíguos. O símbolo não alcançava a Harmonia que interliga opostos interdependentes como o Yin-Yang no interior do círculo. Qin Shi Huang construiu um mundo subterrâneo, oculto aos vivos, para levar seu poder para a outra vida. Os Yamato construíram um símbolo visível para que o morto exercesse poder sobre os vivos neste mundo. O poder, no Japão, não se ocultava. Ele precisava ser visto, admirado e temido.
Aquelas enormes chaves cobertas por morro no interior das quais existia um cadáver abria para onde? Só poderia ser para o interior da terra. Nas pinturas chinesas os mortos cavalgam fênix, Fènghuáng, 凤凰, cavalgam dragões que os erguiam ao Céu. A diferença na representação da morte revela duas cosmologias profundamente distintas, das quais decorrem duas visões políticas distintas. Na cosmologia chinesa, o Céu é a vacuidade, Kōng, 空, onde se movem luzes que ensinam com as leis da Mutação, Yì, 易, como se movem as fugazes aparições que chamamos fenômenos. Aparências surgem do invisível, perduram mutantes no visível, e desaparecem no visível para seguir caminhos no invisível.
Na cosmologia criada pelos Yamato, o Céu foi construído pelo arbítrio da família para usar uma divindade como fonte de legitimidade. A construção foi simples e rápida. Escolheram uma divindade na prateleira da cosmovisão oral dos Jomon, e a colocaram no centro do cosmos, séculos antes do heliocentrismo criado também por um hegemon, o Imperador Constantino. Construído o Céu, inverteram a ordem dos fatos e anunciaram ao povo submetido que a família Yamato havia sido escolhida pela divindade para ser sua representante na Terra.
Esta inversão é o truque de todo poder hegemônico: apresentar como origem o que foi, na verdade, criado por um desejo intencional. Desde aqueles tempos distantes, hegemons acreditam que repetindo mentiras convencem os tolos, e as mentiras se tornam verdades. Para hegemons, verdade é tudo que lhes for conveniente. As atuais “Novas Mentiras” são velhas como o hegemonismo. Para a cosmologia chinesa, a Terra é lugar onde a vida é mantida pela Vida. A Vida Celeste se expressa na regularidade em que o Céu alterna os dois ciclos da unidade de tempo que chamamos dia.
No ciclo diurno, o movimento do Visível se manifesta com a grande luz áurea a aquecer e iluminar em ascensão e declínio para ativar os seres. O Invisível se manifesta no interior do Visível nos eclipses parciais ou completos. No ciclo noturno, o movimento do Invisível se manifesta com a Grande Escuridão que resfria em crescente e decrescente para repousar os seres. O invisível desvela seu movimento ao mover mínimos sinais luzentes de presença na imensidão do breu, para inspirar sonhos aos adormecidos e orientar navegantes despertos.
A luminosidade em algumas luzes é faiscante, noutras é estável. O Invisível ergue os oceanos nas marés crescentes e os retrai nas marés vazantes durante ambos os períodos, diurno e noturno, para explicitar que o Invisível atua sempre no Visível, tal como o Visível se move no Invisível — não apenas nos mínimos sinais luzentes, mas também ao alternar presença e ausência na crescente e decrescente luz argêntea da lua. Os eclipses ensinam que o desalinhamento com a luz apaga quem a reflete.
Os dias nascem das noites, o Visível nasce do Invisível. O Tempo nasce da Eternidade. Todos que por ele passam, dela vieram e a ela retornam. Leis celestes inspiram leis terrestres para que vivam em harmonia. Os que vivem em desarmonia com as leis destroem-se pois se voltam contra a Vida que mantém a vida. O modelo chinês de autoridade nasceu Benigno. O governante que compreende que o Visível nasce do Invisível, que o dia nasce da noite, e que a Vida que sustenta a vida é uma dádiva, não pode governar pela força ou pela mentira. Ele governa pelo exemplo, pela moderação e pela busca da harmonia. A sua autoridade é benigna porque é participativa: ela participa da ordem maior que a fundamenta.
Para a cosmologia dos Yayoi, a Terra era o território que invadiram, onde subjugaram nativos, onde procriaram como coelhos. Os sítios arqueológicos deste período revelam aldeias fortificadas com fossos e paliçadas. Sepultamentos com armas (espadas, pontas de flecha). A guerra não era um evento acidental; era um fator estruturante da organização social. A liderança era, em grande medida, liderança guerreira.
Os Yayoi não lutaram só para subjugar os Jōmon. Ao tornarem-se muitos, começaram a disputar entre si. Todos queriam mandar, ninguém queria obedecer. A discórdia é mãe das guerras. Clãs lutaram contra outros clãs. Aliavam-se por conveniência, separavam-se pela mesma razão. Herdeiros da cosmologia que criaram, os Yamato sabiam muito bem o que era a terra. É o que se conquista com armas e se impõe com poder. O modelo japonês de autoridade nasceu hegemônico e guerreiro.
A visão territorialista dos Yamato não matou a relação sagrada com a natureza da Cultura oral dos Jōmon. Caçadores-coletores-pescadores não sabiam controlar a terra. Sabiam contemplar e buscar compreender como fluía a natureza viva. Os ciclos das estações, os movimentos dos peixes, o crescimento das plantas. Sabiam ler o que os invasores tinham esquecido.
Os analfabetos eram doutos na linguagem sagrada da Vida que eles respeitavam e reverenciavam. Os invasores esqueceram o que os Jōmon nunca deixaram de saber: a natureza não é território a conquistar, mas Vida a respeitar. Para a cosmologia chinesa, a morte é uma passagem da energia que constituía a forma visível e retorna ao invisível de onde veio. Antes de surgir uma aparição, não há forma. Formas surgem do Sem Forma, Wúxíng, 無形. Movem-se no espaço-tempo. Quando desaparecem no espaço-tempo, retornam ao Sem Forma. A Vida prossegue além das vidas.
Na cosmologia japonesa construída pelos Yamato, a morte é o retorno à terra. Por isso cobriam com terra a fechadura. Quando quem detinha a supremacia do poder morria, os sucessores, para preservar o poder, monumentalizavam a morte para intimidar os vivos. Foram construídos cerca de 160.000 a 200.000 Kofun. Em toda parte, no arquipélago, entre árvores, córregos, na paisagem viva do Japão antigo, as tumbas lembravam a morte, milênio após milênio. Nasceu com os Yamato o culto nipônico à morte, complexo mórbido emanado do trauma reprimido. Izanami (Aquela que Convida), a Deusa da Criação e da Morte, foi quem criou as oito ilhas principais e os Deuses. Nefasto começo.
No século VI e.c. a Vida reagiu para salvar o amor à vida que os descendentes do Jōmon nunca perderam. A posteridade estabeleceu 538 e.c. como data para o final do período Kofun em virtude de um presente que o rei Seongmyong, do reino coreano de Baekje, enviou ao imperador Kinmei. Quem alfabetizou o Japão com a escrita chinesa compartilhou também uma das luzes espirituais que recebeu da China, o Budismo. O Imperador Kinmei recebeu uma imagem de Buda, sutras e outros objetos religiosos. Alguns clãs apoiaram, outros temeram que sobrepujasse o culto que os Yamato haviam criado com elementos da Cultura Jōmon. Um acordo acabou por ser feito.
Os donos do Kofun mantiveram nas mãos do Imperador a religião que criaram, e delegaram aos estrangeiros o que interessava ao poder delegar. A introdução de uma segunda religião exigia nomear a primeira, aquela que os Yamato criaram. Estavam conscientes de que a segunda era 800 anos mais velha, e trazia bagagem das duas matrizes civilizacionais da Ásia, Índia e China. Para explicitar quem mandava em quem, nomearam sua religião como Xinto, 神道, o Caminho dos Deuses. Proprietários do Caminho que arbitraram ser o Supremo, deixaram ao Budismo as demais opções.
Os primeiros jardins no Japão surgiram durante os períodos Asuka (538-710) e Nara (710-794), influenciados pelo budismo com estética e técnicas da China e Coreia. Foram criados para a corte Imperial e clãs poderosos. Grandes lagos representavam oceanos. Ilhas eram construídas para simbolizar as Ilhas dos Imortais na tradição Daoista. Pedras eram escolhidas e posicionadas para lembrar montanhas sagradas.
Os olhos dos poderosos senhores deleitavam-se ao contemplar seus oceanos, suas ilhas, suas montanhas. Viam o que tinham encomendado, aprovado e mandado construir na sua propriedade. O coração dos humildes jardineiros reverenciava o sagrado manifesto nas pedras, arbustos, árvores, cardume de peixes, revoada de pássaros. Cada um vê o que alcança.
Mestres paisagistas concebiam obras de arte magníficas e monumentais. Quem plantava, adubava e podava eram os iletrados, os humildes que amavam plantas, que sorriam ao ver pequeninas mudas a verdejar. Os descendentes dos Jōmon falavam com as plantas e elas respondiam. Em 604 e.c., o Príncipe Shōtoku promulgou a primeira constituição do Japão, a Constituição dos Dezessete Artigos (17-jō kenpō), fundamentada no Confucionismo e no Budismo chinês. O aluno continuava a aprender com o professor. Queria ser o seu professor, mas continuava a ser aluno do seu professor. O conflito seguia reprimido e negado.
Em 607 e.c., na célebre carta ao Imperador Yang da dinastia Sui, o mesmo Príncipe Shōtoku abre a mensagem com os seguintes termos: “Do soberano da terra onde o sol nasce, ao soberano da terra onde o sol se põe“. O recém-alfabetizado dirige-se a quem o alfabetizou afirmando que a luz que alvorece se dirige à luz que se apaga. O Príncipe Shōtoku não nasceu do código binário Yi, que gerou o Zhou Yi e o hexagrama 15, Modéstia, Qiān, 謙.
Era o primeiro sinal da sombra que avultava no inconsciente coletivo da Cultura japonesa. O terceiro e definitivo nome do Japão tornará secundário o segundo que ainda era ligado ao primeiro por homofonia. O terceiro afirmará a pretensão de superioridade, mecanismo de compensação do sentimento de inferioridade recalcado. Em torno do ano 700 e.c., foi oficialmente adotado o nome que o Príncipe Shōtoku havia usado, Nihon 日本, Sol Nascente. O conteúdo mórbido seguiu a se agravar no inconsciente coletivo, ao mesmo tempo que seguiram a florescer expressões luminosas que a Cultura japonesa também continuou a desenvolver.
Em 710 e.c., finalmente instalaram-se as primeiras escolas budistas no Japão: Sanron, Jōjitsu, Hossō, Kusha, Kegon e Ritsu, que a posteridade chamou “Seis Escolas de Nara” (Nanto Rokushū). Eram todas de origem chinesa. Foram trazidas por iniciativa e com patrocínio do governo Imperial e da aristocracia. O governo, especialmente o Imperador Shōmu, viu no Budismo uma ferramenta para a unificação nacional, proteção do Estado e centralização do poder. O monumental Tōdai-ji (東大寺) com seu Grande Buda tem na parte superior da fachada uma grande janela que era aberta em datas de grandes celebrações.
Assim, nessas datas, o povo podia ver, lá longe, o rosto do Buda. O vasto espaço interior do imenso Templo era reservado para a pequena aristocracia. Na prática, no dia a dia, os Templos funcionavam como centros de estudo acadêmico restrito à elite. Monges eram proibidos de ensinar pessoas dos estratos sociais mais baixos. A contradição com as origens do Budismo era evidente e pouco importava. Essas escolas prosperaram no breve período entre 710 e 850 e.c. Com renovações políticas e mudança da capital para Quioto, elas declinaram. Novas escolas surgiram, como veremos adiante, se consolidaram e perduram até hoje.
Gustavo A.C. Pinto
Formado em Filosofia pela PUC-RJ e tradutor do “I Ching”. É autor dos livros “Relâmpagos”, “Gotas de Orvalho”, “Rito da Montanha Sagrada” e “Astrologia e Budismo”
