
A série coreana “Melancholia” não é sobre depressão, desânimo ou tristeza, mas sobre a beleza da matemática e o prazer de solucionar problemas. Podemos dividir a série em duas etapas. Na primeira, o cenário é uma escola da elite política e econômica da Coréia, o Colégio Asung, cuja missão é preparar os filhos dessa elite, para serem a casta dominante do país. Entretanto, ao contratar a Ju Yoon Su, uma professora de matemática, muito qualificada, mas nada convencional e filha de um matemático famoso, os planos da poderosa diretora da instituição Noh Jung A sofrem profundas reviravoltas.
Yoon Su concorda com Jung A de que o ensino deve ser de qualidade, contudo, Jung A defende que as escolhas e projetos da escola devem manter o foco no desenvolvimento das habilidades de alunos e alunas filhas e filhos da classe governante, supostamente, “superdotados”. Já Yoon Su defende uma abordagem justa, igualitária para todos os alunos. Num ambiente escolar fortemente competitivo, alunos, professores e pais vivem em clima de grande ansiedade por desempenho.
Paik Seung Yoo, aluno que aos 10 anos de idade revela seu “dom” para a matemática e, por isso, é convidado a estudar no Massachussets Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos da América. Entretanto, sua marcante capacidade de resolver problemas matemáticos, causaram enorme admiração dos professores de lá, mas, também, uma grande frustração em um colega e amigo, resultando em tragédia para ambos. Ele perde o gosto pela matemática, volta para Coreia, é matriculado no Colégio Asung e vai ser aluno de Yoon Su. A profunda admiração entre professora e aluno traz de volta o gosto pela matemática e o prazer pela solução de problemas, que estavam reprimidos em Seung Yoo.
Enquanto isso, a valorização do ensino da matemática era cada dia mais intensa, e as exigências por resultados era cada dia maior. Yoon Su e o Sr. Han foram contratados para organizar vários eventos classificatórios para premiações, incluindo as Olimpíadas de Matemática, o que desencadeia uma “corrida maluca” ao pódio, um jogo astuto de corrupção para subornar professores, enganar alunas e alunos, com a conivência dos pais. O relacionamento amistoso entre Seung Yoo e Yoon Su permite que ela sugira passeios para visitar museus inspiradores de teses que articulam matemática, filosofia, arte e natureza, em clara associação ao desenvolvimento tecnológico, a internet das coisas e a inteligência artificial.
É nesse contexto que ela apresenta a ele obra de arte “Melancholia”, explicando seu significado de ir até o vazio das profundezas do universo e lá encontrar a luz, encontrar novas soluções a partir do caos. Disputas ardilosas, inveja e traição seguem a trilha da destruição dessa relação e a professora sofre acusação da comunidade escolar de praticar “atos imorais e comportamento inadequado”, o que lhe vale ser demitida do quadro do colégio e, também o fim de seu projeto de casamento.
Seung Yoo continuou sua trajetória de aluno brilhante na Universidade de Hankook e quatro anos depois já havia recebido vários prêmios. Yoon Su voltou a dar aulas anonimamente, mas sua fama de professora extraordinária não desaparece e o curso onde dá aulas começa a ficar famoso e atrair o interesse dos poderosos e, a luta pelo poder, continua. Seung Yoo quer encontrar Yoon Su para levar adiante seu plano de esclarecer os acontecimentos de anos atrás. Ele vai conseguir fazer justiça, como havia prometido? Essa é a pergunta que alimenta o suspense dessa segunda parte.
O cenário são as instituições de ensino superior, cursos especializados e disputas antigas são reeditadas a partir da nova geração de alunas e alunos. Será que a série vai responder ao enigma lançado no primeiro episódio: Colégio Asung é visto como uma escola de privilegiados e, por isso bem-sucedidos. Isso seria resultado de sorte, esforço ou destino. Numa competição, segundo antiga fábula coreana, teria ganho a sorte.
Entretanto, uma outra interpretação informa que a sorte não pode determinar tudo porque a sociedade é permeada pela justiça. Para conhecer a resposta você vai precisar assistir aos 16 episódios do trabalho primoroso da criação, direção, fotografia, fundo musical e roteiro, que prendem a atenção do expectador durante todo tempo.
Ana Maria Otoni Mesquita
Graduada em Psicologia pela PUC-RS
Mestre em Psicologia Clínica e Psicodrama pela PUC-Rio
Doutora em Ciências pela Ensp-Fiocruz, Rio de Janeiro
