
“A Flor do Buriti” é o mais próximo que podemos chegar de um cinema indígena. Isso porque é produto de mais de dez anos de convivência dos diretores João Salaviza e Renée Nader Messora com o povo Krahô nos municípios de Goiatins e Itacajá, no Tocantins. A cosmovisão dos Krahô faz parte da narrativa não-linear a ser contada, com os indígenas fazendo parte do processo de produção do longa que ganhou o prêmio de elenco da mostra Un Certain Regard no Festiva de Cannes 2024.
Totalmente falado na língua Krahô, o filme possui divisas temporais não demarcadas, assim como uma mistura de drama e documentário. Surge um estranhamento instigante para a audiência não-indígena, que acompanha a história, ao mesmo tempo que toma noção de que o método de contar histórias daquele povo é diferente das formas narrativas da modernidade da qual o cinema faz parte.
Três momentos marcantes do contato dos Krahô com não-indígenas, o Estado e a sociedade brasileira em geral se entrelaçam no filme, dando impressão de que o passado está no presente e os tempos se entrelaçam sendo vividos pela comunidade simultaneamente. Traduzir isso em uma linguagem cinematográfica é um triunfo dos produtores e um deleite para quem se permite entrar de cabeça na experiência promovida pela obra.
Na abertura do filme, por volta de 1940, crianças Krahô observam curiosos um boi se aproximar de sua aldeia. Não há sequer palavra no idioma dos indígenas para nomear o animal, até então desconhecido. Na decisão de matar o bovino, as crianças apontam a flecha para o espectador, prenunciando aquele momento como um encontro conflituoso entre dois mundos, corresponsabilizando aqueles que assistem ao longa. É o início do massacre dos Krahô perpetrado por fazendeiros que expandiam suas criações de gado pela região do atual estado do Tocantins (na época, Goiás). A cena da matança é um dos pontos altos do filme, com primorosa construção.
Como o filme não segue linearidade, somos apresentados a outros dois momentos da história dos Krahô entrelaçados com os acontecimentos de 1940. Na década de 1970, durante a Ditadura (1964-1985), homens da aldeia são compulsoriamente recrutados pelos militares para formar a Guarda Rural Indígena (GRIN), um infame experimento do regime ditatorial, quando indígenas de diversas etnias foram treinados – inclusive em técnicas de tortura – para patrulhar seus próprios semelhantes e afastá-los das fazendas e comunidades rurais.
O objetivo era usar os próprios indígenas como agentes da destruição de sua cultura e modo de vida para inseri-los forçosamente na sociedade não-indígena. Vem do desfile de formatura da GRIN a única demonstração pública que se tem notícia da técnica de tortura “pau-de-arara”, imagem hoje famosa e reproduzida em livros didáticos como exemplo do terror perpetrado pela Ditadura. (Confira “A história sinistra das milícias indígenas treinadas pelo exército para torturar índios”, no Diário do Centro do Mundo)
No terceiro momento retrato no filme, estamos no governo Bolsonaro (2019-2022), quando jovens líderes dos Krahô se dirigem à Brasília para participar do Acampamento Terra Livre, uma das maiores manifestações políticas que ocorrem atualmente no Brasil. Uma vez por ano, povos indígenas de todo o país se reúnem na capital federal como demonstração de força e repúdio aos ataques contra sua existência.
E esses ataques estão presentes na viagem dos jovens Krahô, desde os outdoors de exaltação a Bolsonaro pagos pelo agronegócio próximos às suas terras demarcadas desde 1990, às invasões ao seu espaço – retratado no filme por traficantes de animais silvestres, até as pequenas violências do cotidiano com não-indígenas que manifestam alienação em relação à diversidade de povos, com a postura do “índio é tudo igual”.
Contudo, o contato entre civilizações diferentes não está condenado a ser apenas a sucessão de matanças e saques. A interação com uma professora de escola pública e a utilização da internet para entrar em contato com outros indígenas, alarga o horizonte dos Krahô e permite conscientizar e organizar politicamente a aldeia para lutar por suas terras e pelos direitos indígenas de todo o Brasil.
O impacto da fala de Sonia Guajajara, acessível primeiro pelo smartphone e depois ao vivo, é um componente que acende o ímpeto para a luta dos Krahô que se irmanam com outros povos em frente aos símbolos do poder em Brasília. Essa recriação de sua forma de ser por parte dos Krahô, onde os diferentes tempos cronológicos parecem habitar o mesmo espaço, delicadamente construída ao longo da obra, faz de “A Flor do Buriti” um dos melhores filmes brasileiros da década.
Inova na forma de contar a(s) história(s) a partir de uma compreensão do ser e do estar distinta da modernidade, mas não a exclui, pelo contrário, a mescla, para comprovar que nossa diversidade é o que nos faz uma unidade chamada humanidade, com suas variadas formas de existir e se manifestar. O encontro do diferente não está fadado à violência. Existem outras formas de pensar e agir. No entanto, só a tomada de posição ativa, como nos ensinam os Krahô, é capaz de construir esse mundo onde caibam vários mundos.
Roberto Santana Santos
Professor da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (EDU-UERJ), doutor em políticas públicas e mestre em história política.
Ficha Técnica
Título: A Flor do Buriti
Direção: João Salaviza e Renée Nader Messora
Roteiro: João Salaviza, Renée Nader Messora, Ilda Patpro Krahô, Francisco Hyjnõ Krahô e Henrique Ihjãc Krahô
Duração: 123 min (2h e 03 min)
País e ano de lançamento: Brasil/Portugal, 2023
