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Documentário de streaming, um gênero que mercantiliza – e banaliza – o conceito

Crédito: Raul Baretta/ Divulgação Santos Futebol Clube.

A Netflix e o Santos Futebol Clube anunciaram dias atrás o lançamento de um documentário sobre a história recente do alvinegro praiano. Recente mesmo – da crise de 2023, passando pela retomada ano passado, e chegando à volta de Neymar, fato que colocou a Vila Belmiro no centro do futebol mundial, no começo de 2025. Foi o que faltava para eu transformar neste esboço de ensaio uma reflexão que fervilhava há tempos em minha mente. Qual seja, a de que os investimentos das plataformas de streaming em documentários está a formar uma espécie de subgênero do gênero documentário – o documentário de streaming. Explica-se.

Primeiro, reitere-se não haver nenhum problema na disseminação de documentários. Ao contrário. É importante para popularizá-lo, massificá-lo, deixar de ser filme de nicho, só de cinéfilos. No entanto, a opção pelo que documentar e, principalmente, como documentar, é que tem causado desconforto. Há uma mercantilização dos fatos, e por consequência do documentário, o que leva a uma banalização do conceito.

Tudo na vida pode virar filme. Mas esse tudo requer contextos, interesse público, pegada artística… O que estamos a assistir é a uma onda de produções audiovisuais mais pensadas e realizadas como objeto de consumo, isca para atrair assinantes para as plataformas, do que como obras que contenham um quê de diferente que justifiquem se tornar isso, obras, documentários.

A história do Santos, e digo isso não porque sou torcedor do Peixe, é riquíssima, em acontecimentos, em personagens. Rende uma mega web série. Mas o recorte dado, esse tem mais valor comercial que histórico. Nenhum problema em ter valor comercial, começa a ser problema quando só prevalece o valor comercial. Cito esse documentário, mas há uma porção de outros exemplos nos menus dos streamings da praça: é crime da vida real espetacularizado e transformado em série documental, é polêmica entre celebridades virando série também, é trajetória de artistas ainda em formação tratada como se fosse a biografia de cânones, e por aí vai.

Frise-se: o foco não está no conteúdo; está na forma e no potencial de atrair assinaturas. Não se trata de purismo, de segregar o documentário a um gênero intocável, que não deve ter tratamento publicitário, de marketing. Deve sim, até para que mais gente tenha contato com o gênero e, principalmente, com os temas. O incômodo está nos temas, na retórica em torno deles, forjada para se constituir como caça clique, não como obra artística. Eis a reflexão.

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