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“Living the land”: o impacto sociocultural das transformações econômicas nas populações rurais da China, no início dos anos 1990

Living The Land (Sheng Xi Zhi Di), de Huo Meng. Crédito: Autoral Filmes.

Muito se fala sobre a necessidade do desenvolvimento econômico e tecnológico e sua importância para a evolução e o progresso de um país. Porém, pouco se comenta sobre o impacto sociocultural que ele exerce, em especial, sobre os mais frágeis. Em inúmeros exemplos da história humana, tais mudanças acabam por ser, em diversas ocasiões, duras e até violentas. A transformação que ocorre há algumas décadas na China, um país de história e cultura milenar, em essência, não é tão diferente do que ocorreu com outras nações que também buscaram o progresso tecnológico e econômico.

Isso mostra que as contradições inerentes do processo de desenvolvimento podem ser encontradas até em países onde o governo tenta promover uma modernização mais igualitária a todos. No filme dirigido por Huo Meng, “Living the Land”, o público tem acesso a uma reflexão de como as políticas sociais e coletivistas da China acabaram entrando em confronto com as tradições e o modo de vida de populações rurais que vivem nos recantos mais remotos do país. Como o próprio diretor relatou em entrevistas, essas políticas desafiaram o próprio modo de vida dessas comunidades.

Assim, no enredo, acompanhamos a trajetória do menino Chuang, de 10 anos, que, em 1991, mora na vila de Bawangtai. Seus pais partiram para a cidade. O pequeno, durante os anos de passagem da infância para a vida adulta, é criado pela bisavó e os demais integrantes da comunidade. Desde cedo é exigido dele a maturidade de ajudar no trabalho do campo, de seguir os ritos das tradições e até de ajudar os adultos em momentos de crise, como brigas ou a dificuldade das pessoas do vilarejo em lidar com um jovem da comunidade que sofre de transtorno mental. É bastante interessante a influência grande que as figuras femininas acabam tendo sobre o personagem. Da tia a bisavó, elas são base do seu crescimento e formação como pessoa.

Living The Land (Sheng Xi Zhi Di), de Huo Meng. Crédito: Autoral Filmes.

Especificamente, é mostrado ao público um quadro da condição social das mulheres chinesas, historicamente bastante oprimidas e subjugadas em uma sociedade com profundas raízes na importância que a autoridade masculina deve exercer sobre a nação em geral. Estão retratadas desde as políticas de um só filho que impôs regras de conduta bastante duras sobre as famílias, para tentar limitar a explosão demográfica que ocorreu na China nos anos 1980, até a imposição histórica dos interesses do núcleo familiar sobre as escolhas de vida de seus indivíduos. Imposição que não leva em conta nem as vontades, nem os interesses individuais de seus membros. Essa é uma característica típica de uma sociedade coletivista milenar, onde as mulheres tinham, ou ainda têm em alguns casos, a obrigação de casar com a pessoa, cuja análise dos familiares conclui que é a melhor candidata para todos.

Os que conhecem um pouco da história da China, sabem que a revolução chinesa foi de extrema importância para o aprimoramento da condição da mulher na sociedade do país. Direitos e igualdades de oportunidades promoveram uma mudança profunda. Contudo, a mentalidade social leva anos, séculos e até milênios para aceitar certas transformações culturais, de valores e das suas próprias tradições e costumes. No filme de Meng, essa questão é bastante retratada dentro de um contexto de modificações muito acentuadas. Da mãe que precisa abandonar o filho e acompanhar o marido para trabalhar nos grandes centros urbanos, até a bisavó que, ao perder o marido, se vê sozinha para cuidar de uma família numerosa, em um vilarejo sem muita estrutura.

Living The Land (Sheng Xi Zhi Di), de Huo Meng. Crédito: Autoral Filmes.

Outros pontos de reflexão que o diretor aborda ao longo da produção trazem um debate muita atual sobre que tipo de desenvolvimento é melhor para a humanidade. Por exemplo, há momentos do filmes que os agricultores da vila questionam qual o real valor da exploração do petróleo, que invade suas plantações, sem qualquer tipo de aviso prévio, nem leva em conta a opinião dos habitantes locais sobre tal empreendimento governamental em suas terras. Um dos agricultores chega a afirmar: por um acaso comemos petróleo?

Outro debate importante é sobre qual papel terá o ser humano quando a tecnologia substituir o seu trabalho e a sua importância social.  Em uma sociedade global, onde a vida profissional acaba sendo o aspecto mais importante da vida humana, mais que qualquer outra área ou aspecto do ser humano, tais indagações são de extrema importância e provocam questionamentos: deixamos o trabalho manual árduo para traz, mas nos tornamos dependente da tecnologia, ao ponto dela ter total domínio de nossas vidas. Seria essa uma forma de viver ideal a todos nós humanos? Por fim, o belo filme de Huo Meng apresenta também os dois lados da vida em uma sociedade rural tradicional da China dessa época, onde a colaboração e o afeto entre os membros da comunidade contrastam com as injustiças que a tradição impõe aos indivíduos e como essa situação torna-se ainda mais problemática, em períodos de rápido desenvolvimento econômico.

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