
Após os ataques militares de EUA-Israel contra o Irã que começaram no sábado, a atenção global voltou-se para o Estreito de Ormuz, especialmente depois que o Irã alertou que poderia interromper o trânsito por essa via navegável vital em retaliação, provocando ondas de choque nos mercados internacionais. O que torna o estreito tão vital? Essa passagem crítica já foi fechada antes? Um bloqueio completo é viável?
Por que o Estreito de Ormuz importa ?
Situado entre o golfo de Omã, ao sudeste, e o golfo Pérsico, ao sudoeste, o estreito serve como a única passagem marítima para o oceano aberto, consolidando seu status como um dos pontos de estrangulamento mais estrategicamente vitais do mundo. Em um relatório recente de J.P. Morgan, analistas alertam que produtores de petróleo no Oriente Médio poderiam manter a produção por “no máximo 25 dias” se o Estreito de Ormuz fosse completamente fechado. Arábia Saudita, Iraque, Catar e Emirados Árabes Unidos, junto com o próprio Irã, dependem desse caminho estreito para exportar seu petróleo bruto.
Cerca de 20% dos embarques globais de petróleo passam por esse estreito crítico. Para o gás natural liquefeito (GNL), as apostas são igualmente altas: o Catar, um dos três maiores exportadores mundiais de GNL, move quase todo seu fornecimento pelo estreito, representando cerca de 20% do total global. Os ataques EUA-Israel ao Irã causaram um aumento dramático nos preços internacionais do petróleo. Em 1º de março, os futuros do Petróleo Bruto Leve e Doce para entrega em abril subiram 12,4%, para 75,33 dólares do EUA por barril na Bolsa Mercantil de Nova York, enquanto os futuros do Brent Crude para entrega em maio dispararam 13%, para 82,37 dólares na Bolsa de Futuros ICE de Londres. Analistas alertam que, se o conflito persistir, os preços do petróleo podem disparar para 150 dólares por barril.
Os efeitos cascata vão além do básico. Os custos de frete e seguros estão aumentando à medida que gigantes do transporte marítimo, incluindo a Mediterranean Shipping Company (MSC), Maersk, CMA CGM e a alemã Hapag-Lloyd AG, desviam embarcações para buscar portos seguros, suspendem novas reservas e redirecionam cronogramas. Uma análise da The Economist alerta que as tensões no Estreito de Ormuz podem inflar significativamente os custos globais de transporte de energia, com prêmios de seguro em alta e petroleiros forçados a contornar o Cabo da Boa Esperança.
Já foi fechado antes?
Embora o Estreito de Ormuz nunca tenha sido totalmente ou permanentemente fechado, todo tremor estratégico na região foi registrado nos gráficos globais de preços. Durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), o Irã ameaçou repetidamente fechar o estreito e lançou minas em 1987, visando petroleiros. Essas operações elevaram os preços do petróleo de mais de 30 dólares por barril para mais de 45 dólares, enquanto as tarifas de frete dos petroleiros dobraram.
Mais recentemente, em julho de 2018, o Irã deteve um petroleiro britânico no Estreito, fazendo os preços do petróleo subirem levemente. A medida ocorreu apenas dois meses após os Estados Unidos se retirarem do acordo nuclear com o Irã e reimpuserem sanções. Em junho de 2025, após o ataque dos EUA às instalações nucleares do Irã em Fordow, Natanz e Isfahan, o consenso parlamentar de Teerã para fechar o Estreito provocou um aumento de 6% nos preços do petróleo bruto Brent.
Um bloqueio completo é viável?
Embora o fechamento do Estreito de Ormuz represente um fardo insuportável para a economia global, especialistas militares duvidam que um bloqueio completo seja viável. A própria geografia apresenta desafios: o estreito se estende por apenas 21 milhas náuticas em seu ponto mais estreito, com rotas marítimas de apenas duas milhas de largura em cada direção. Manter as águas continuamente minadas seria incrivelmente difícil de sustentar e quase certamente provocaria retaliação militar de outros envolvidos.
Há outra restrição: as próprias exportações de petróleo do Irã transitam pelas mesmas águas. Bloquear o estreito cortaria efetivamente uma fonte crucial de receita nacional, uma ferida autoinfligida que Teerã historicamente evitou. Como uma artéria crucial para a energia global, o Estreito de Ormuz permanece sob intensa atenção internacional. O Irã também deve pesar os riscos de confronto com as muitas nações que dependem dessa passagem para sua segurança energética.
Pegue o Japão, por exemplo. Segundo sua emissora pública NHK, a economia do país sofreria um “golpe fatal” se o estreito fosse fechado permanentemente, já que importa 90% de seu petróleo bruto do Oriente Médio. Tal interrupção poderia potencialmente reduzir o PIB do Japão em 3%. Por enquanto, uma paralisação total e de longo prazo parece improvável. Mas a incerteza sozinha lança uma sombra sobre energia, transporte e estabilidade econômica globais. Nas águas estreitas do Estreito de Ormuz, o pulso econômico mundial bate, e toda ameaça faz com que ele perca um ritmo.
Fontes: Copyright Xinhua. Proibida a reprodução.
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Tradução – Alessandra Scangarelli Brites – Intertelas
