Como os cubanos ridicularizaram a CIA

Crédito: Sputnik Internacional.

Esse é o subtítulo do livro “Nossos Agentes em Havana”, do jornalista francês Jean Marc Pillas (Editora Record), que descreve um momento épico nas relações conflituosas entre Cuba e EUA. O nome é uma referência à clássica obra de Graham Greene, “Nosso Homem em Havana”, uma sátira aos romances de espionagem que caracterizam esse escritor britânico, ele próprio ex agente do Serviço Secreto Britânico.

Durante quase 20 anos (décadas de 70 e 80), os Estados Unidos gastaram milhões de dólares para organizar e manter uma rede de espionagem em Cuba, como parte das atividades destinadas a sabotar o país e derrubar seu governo. Entretanto, em 1987 o governo cubano anunciou publicamente que havia controlado e registrado todas as operações clandestinas, incluindo tentativas de sabotagem e assassinato de Fidel Castro. Resultou que todos os cubanos que haviam sido recrutados pela Agência Central de Inteligência (CIA, em inglês) eram na verdade agentes duplos infiltrados por Cuba e que permitiram, em um monumental golpe de contra-espionagem, proteger o país do imperialismo norte-americano.

Crédito: IMDb.

Jean-Marc Pillas tomou ciência da história em 1989 durante uma reportagem em Cuba para a TV francesa. Com a curiosidade inerente a um jornalista, pesquisou na Embaixada dos Estados Unidos em Paris material da imprensa sobre os fatos e se viu diante de uma história digna de filmes ou romances de espionagem. Se dispôs a conhecer os agentes duplos e, após negociações com o Ministério do Interior cubano foi autorizado a entrevistar alguns e acessar as filmagens feitas sem conhecimento dos espiões norte-americanos. Posteriormente foi levado ao Museu da Espionagem, onde estavam expostos materiais confiados pela CIA àqueles que acreditava serem seus agentes em Cuba.

O ator Alec Guinness sentado no bar de Sloppy Joe enquanto filmava “Our Man em Havana”. Crédito: Peter Stackpole/The LIFE Picture Collection/Getty Images.

Curiosamente agentes da Direção de Vigilância Territorial (DST), órgão de segurança francês, tentaram interferir no trabalho do jornalista, inclusive para que servisse de olheiro e entregasse os nomes dos cubanos com os quais conversaria. Obviamente Jean-Marc se recusou a violar seu papel de jornalista e escritor e seguiu sua pesquisa em Cuba. Como um jornalista de verdade, e não como os serviçais da nossa grande imprensa que conhecemos bem pelo seu trabalho parcial e raso, Jean-Marc Pillas preocupou-se em investigar e entrevistar os envolvidos de ambos os lados do Estreito da Flórida, a fim de fazer um trabalho completo e acima de qualquer propaganda ou proselitismo oficiais.

Ernie Kovacs no filme “Our Man in Havana” (1959), dirigido por Carol Reed. Crédito: IMDb.

Nos Estados Unidos, os membros da Câmara dos Representantes, Senado, Departamento de Estado e, surpreendentemente, do Diretório de Operações da CIA, responsável pela condução das operações clandestinas da agência de espionagem norte-americana confirmaram boa parte do que os interlocutores cubanos haviam previamente contado. Os membros da CIA, obviamente, só falaram na condição de anonimato, mas foram diretos ao reconhecer as falhas grosseiras e os gastos astronômicos com agentes duplos cubanos.

A atriz Maureen O’Hara. Crédito: IMDb.

Os políticos norte-americanos não só confirmaram todos os fatos já pesquisados pelo jornalista francês como se dedicaram a criticar a CIA pela sua incompetência e desperdício de dinheiro do contribuinte. Em 1995, finalmente o livro foi lançado trazendo à luz esse capítulo da história de enfrentamento entre Cuba e EUA. Deve-se destacar que os diálogos e fatos narrados nos livros são transcrições exatas das conversas com os personagens envolvidos.

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“Nossos agentes em Havana” mostra como, através da ação corajosa de alguns homens e mulheres que se infiltraram, a contra-espionagem cubana derrotou novamente a CIA, protegendo o país das tentativas dos Estados Unidos de derrubarem o regime e tornarem Cuba novamente uma colônia. Uma batalha nessa longa guerra que se iniciou com a Revolução de 1959 e prossegue até os dias de hoje.

 

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