Índia e China produzem mais da metade dos filmes no mundo, diz especialista russo

Cena de “Kung Fu Yoga” (2017), de Stanley Tong, uma produção entre China e Índia, com o chinês Jackie Chan e o indiano Sonu Sood. Crédito: divulgação.

Ex-diretor do Festival Internacional de Filmes de Moscou, Kirill Razlogov, que chefiou o Instituto Russo para Pesquisa Cultural, ensina história do cinema mundial por mais de 50 anos. Doutor em estudos da arte, Razlogov foi entrevistado pela repórter Olga Bubnova, da TV BRICS. Razlogov integrou o júri do 4º Festival de Filmes do BRICS, que ocorreu em Niterói, no Rio de Janeiro, em outubro do ano passado.

O senhor representou a Rússia no júri do 4º Festival de Filmes do BRICS. O principal objetivo do evento, segundo a mídia russa, é popularizar filmes ‘criados fora dos Estados Unidos e da Europa’. É esse mesmo o principal objetivo?

Essa foi uma ideia do primeiro-ministro da Índia. Com a nossa ajuda, com a minha participação, o projeto saiu um pouco diferente. A tarefa é mostrar que o centro da indústria de cinema existe não apenas em Hollywood, mas na Índia e na China. E isso é verdade. A maioria dos filmes no mundo são realizados no Sudeste Asiático. Diretores e espectadores são mais numerosos nessa região do mundo. Os filmes de Hollywood e dos países ocidentais são apenas uma opção a mais. Até mesmo as tecnologias são diferentes. Na Índia, por exemplo, um filme dura, em média, três horas.

Kirill Razlogov. Crédito: TV BRICS.

Há um intervalo no meio da exibição dos filmes. Ir ao cinema é quase que um programa para o dia todo. Costumava ser assim também em Hollywood nos anos 50. Hoje, a duração de um filme é, em media, duas horas. Os seus festivais são geralmente guiados por esses tipos de filmes. Nossos colegas indianos querem mostrar que filmes são produzidos também na Índia e na Rússia. Esses filmes são produzidos de forma diferente porque são produtos cultura e tradição diferentes. Esses filmes tem a sua própria audiência, frequentemente maior do que as produções de Hollywood.

O Brasil é um forte produtor de filmes e a China também. A  China e a Índia produzem mais da metade dos filmes mundiais. E a Rússia não é o ultimo país nesse quesito, apesar de estar conectada também com a Europa. Com exceção da África, onde essa arte está começando a se desenvolver, todos os outros países são grandes produtores de filmes. O festival do BRICS procura mostrar que há outros modelos de cinema ainda mais interessantes do que o que estamos acostumados.

Como está o desenvolvimento do cinema na África do Sul?

A África do Sul produz cerca de 10 filmes longas por ano, em geral focados na luta contra o apartheid, ou seja, a história recente do país. Há um interesse óbvio na questão dos direitos das mulheres. Os documentários da África do Sul são talvez até mais interessantes do que os longas. Mas os longas fazem sucesso na África do Sul e nos países vizinhos. Então, não se trata de um país onde não há cinema, mas é um país que precisa desenvolver mais essa indústria.

Como é o programa do Festival dos BRICS?

Há uma competição oficial de filmes com regras bastante duras. São apenas dois filmes de cada país. A Rússia apresentou o “The Lord Eagle” (2018), dirigido porEduard Nivikov, que ganhou o prêmio principal no Festival de Filmes de Moscou de 2018, e o “Tutor” (2018), de Anton Kolomeets. Além disso, há seções especiais. Um deles é o programa de restauração de filmes antigos. A Rússia apresentou dois filmes. Um foi o “Fragment of an Empire” (“Fragmento de um Império”), lançado em 1926, de Fridrikh Ermler. É um clássico. A equipe do Fundo Estatal de Cinema não apenas o restaurou como adicionou frames que haviam sido cortados em outras cópias. O segundo filme, de Marlen Khutsiev, é o “It was the month of May” (“Foi no mês de maio”). É um filme de TV. Há ainda uma seção de curtas de estudantes. Em uma parte do festival há apresentação de longas de animação, que são muito populares hoje em dia.

A China apresentou o filme “Goddess” nessa seção de filmes restaurados. É de 1934, uma época muito difícil na política do país, mas muito benéfica em termos de cinema, a chamada “Era Dourada” do cinema chinês. Como o cinema chinês se desenvolveu naquele período?

O cinema sempre foi popular na China. Aquele era um período de dificuldades sociais e nessas fases a criatividade vem à tona. Foi uma época especialmente importante para a China porque praticamente não havia censura. Mas mesmo assim, o cinema não era percebido como algo que tinha um valor político importante. Filmes muito diferentes eram produzidos. Na China e em outros países, sentimentos pessoais, experiências pessoais eram mais importantes do que cataclismas sociais. Filmes militares, sobre o movimento de libertação, também eram sucesso. Esses, no entanto, ganharam ímpeto maior na China pós-Guerra, quando assuntos militares tornaram-se chaves. A China tem uma poderosa indústria de filmes que cobre a sua própria audiência e uma parte considerável da audiência global.

Quando a censura apareceu no cinema chinês?

Surgiu nos anos 30, mas veio com força principalmente nos anos 40, no período pós-guerra, e durante a guerra civil. E, como em todos os países do sistema socialista, a censura tornou-se um dos principais mecanismos pelo qual o processo cinematográfico passou. Houve também o período da Revolução Cultural, quando se fazia um ou dois filmes em um ano. Eram óperas revolucionárias. Todos assistiam porque ninguém fazia filmes na China. Quando esse período difícil terminou, nos anos 70, a cinematografia chinesa emergiu. Os chineses começaram a fazer 150 filmes por ano. A cinematografia chinesa reconquistou seu status grandioso, de uma das maiores cinematografias do mundo. A China produzia um pouco menos do que a Índia, mas mesmo assim produzia muito.

O cinema indiano do século 20 se desenvolveu com rapidez. Os filmes exibidos no festival do BRICS são da década de 70, como “A vila dos brâmanes” e “O circo”. Na ex-União Soviética,  obras de diretores indianos eram muito apreciadas. O público russo ainda conhece o cinema indiano?

Os filmes indianos são novos para a audiência russa. A Rússia já teve seus ídolos indianos, como Raj Kapoor, o maior deles. O filme pós-guerra “The Tramp” (“O Vagabundo”) foi muito popular entre os soviéticos, assim como o filme “Sr 420”. O cinema  indiano era popular na Rússia da época da URSS. Não eram filmes hostis como os americanos ou franceses. Assim, era mais fácil passar pela censura. Após a queda da URSS, eu acho que somente o canal do Cinema da Índia manteve o interesse em filmes indianos.  Uma das metas do Festival BRICS é dar a esse cinema o direito de ser novamente um produto cultural. Em 2020, o Festival de Filmes do BRICS vai ocorrer na Rússia. Eu acredito que este será o ano do retorno do cinema indiano e chinês de massa para os espectadores russos.

Se no século 20 os filmes indianos foram na maioria melodramas, hoje em dia há vários gêneros?

A Índia produz cerca de 700 filmes por ano. Em cada estado da Índia, com suas próprias línguas, produz cerca de 230 filmes, mais do que na Rússia. Por isso, o cinema indiano é muito variado. Em alguns estados, apenas homens frequentam salas de cinema. No estado de Kerala (Sul da Índia), as pessoas têm nomes como Stálin e Lênin. Lá, há uma forte influência marxista e o cinema social é muito importante para uma parte da população pobre. Mumbai, onde está a sede da indústria de Bollywood, tem uma produção diversificada. No estado de Bengala Ocidental, o cinema intelectual e filosófico floresce, com enorme sucesso nos festivais internacionais de cinema.

Pelo Brasil, o filme representado na seção de arquivos foi “The Cruel Gang” (Gangue bruta”), produzido em 1933, de Umberto Maura. É um clássico. O que o sr acha desse filme?

Esse foi um período de transição do cinema mudo para o falado. É um filme aventureiro. O cinema latino-americano é assim em muitos aspectos. Mas para nós, historiadores, o período mais interessante do cinema brasileiro é o chamado Cinema Novo. Foi uma nova onda brasileira nos anos 60.

O objetivo do festival é unir diretores dos BRICS para discutir problemas comuns e principalmente debater o desenvolvimento de parcerias em um futuro próximo. Quais são os planos?

Há muitos planos, mas eles são implementados com grandes dificuldades. Afinal de contas, temos diferentes línguas, tradições e costumes nos BRICS. É necessário encontrar assuntos em comum entre os países. Senão, será uma cooperação puramente econômica. Há algum tempo, um filme russo-chinês foi exibido na China: a versão chinesa de “Viy”, de Nikolai Gogol. Esperava-se um sucesso comercial imenso. Mas isso não aconteceu. Encontrar esses pontos em comum é uma tarefa difícil. Todos os anos eu participo de encontros onde discutimos isso. As co-produções são necessárias, nós precisamos mostrar filmes uns para os outros, mas ainda não houve grandes mudanças nessa direção. Mas tenho bastante esperança no festival que a Rússia vai organizar neste ano.

Fonte: Texto originalmente publicado no Beco da Índia.
Link direto: http://becodaindia.com/india-e-china-produzem-mais-da-metade-dos-filmes-no-mundo-diz-especialista-russo/

Veja aqui o vídeo da TV Brics da entrevista com Kirill Razlogov – essa entrevista foi publicada originalmente em russo e depois traduzida para o inglês pela TV Brics. Essa versão em português foi feita pela Equipe Beco da Índia.

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