Futebol não é para ser decidido em uma ilha de edição

O desenho de um retângulo imaginário, indicando o uso do árbitro de vídeo, será uma das marcas desta Copa. Crédito: Shaun Botterill/Getty Images/Veja.

Não bastasse o início precipitado – há um mês, quando a pandemia de Covid-19 estava (e continua) em seu pico -, o Brasileirão 2020 tem sido marcado por outro absurdo. O uso do árbitro de vídeo – o VAR, da sigla em inglês (video assistent referee). Ou se acaba com o VAR no futebol ou o VAR acaba com o futebol.

E não se trata de resistência à tecnologia, nem de não querer a atualização do esporte. Ao contrário. O futebol é sempre vanguarda porque é o jogo das subjetividades. Da imprecisão, do inesperado. É o jogo do momento. E o VAR mata isso. O futebol é o jogo em que as percepções e as decisões são aquelas do instante, do in loco. E o VAR enterra isso.

Justamente quando o mundo mais procura e precisa de experiências que fujam à mecanização, à robotização, o futebol – que é isso, das emoções – é transformado num jogo mediado pelo computador. Justamente quando a sociedade carece de, e parte dela busca, meios de se humanizar, o futebol, que traz as sensações da vida humana à flor da pele, é transformado num videogame modorrento.

Poderia esparramar aqui em argumentos técnicos e científicos que sustentam, objetivamente, a inviabilidade do VAR no futebol. Por exemplo, dizer que todo movimento humano exibido em câmera lenta tem uma conotação diversa daquela que o movimento em si, em seu tempo real de acontecimento, denota. Não precisa ser teórico em linguagem audiovisual, comunicação, semiótica ou algo do gênero para saber disso.

Reprodução da imagem do aparelho do VAR no chão, depois de ser chutado pelo goleiro Gatito Fernandez, no jogo Botafogo x Internacional. Crédito: YouTube.

Só fazer um teste: dá um tchauzinho aí com a mão. Agora imagina esse tchauzinho em câmera lenta. Deixa de ser um tchauzinho, torna-se um aceno melancólico. Deturpação assim ocorre com a câmera lenta de um movimento de braço de um jogador que venha eventualmente a esbarrar, com o braço ou a mão, na bola. Sempre em câmera lenta terá a sensação de gesto deliberado.

Só o exato instante de quando acontece é que é capaz de revelar se foi ou não intencional. Portanto, só no aqui-e-agora do campo é que se tem condições de julgar. Não se decide futebol em ilha de edição. Porque, se assim for, deixa de ser futebol.

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