Adeus ao Spartacus dos gramados

Maradona comemora a vitória sobre a Inglaterra, na Copa do México de 1986. Uma partida histórica entre duas nações que se enfrentaram militarmente nas Malvinas, resultando na morte de argentinos e na falta de respeito dos ingleses à soberania da Argentina. Crédito: https://www.ole.com.ar/

A morte súbita de Diego Armando Maradona adoeceu um pouco mais a humanidade. No mesmo dia que faleceu Fidel Castro, há quatro anos, despediu-se o derradeiro personagem da era dos deuses do futebol mundial. Depois que El Pibe abandonou os estádios, as torcidas tiveram que aprender a contentarem-se com jogadores que podiam ser craques fenomenais, como seu compatriota Lionel Messi, mas que perderam a rara combinação entre magia nos pés e sangue nos olhos que tornam inigualáveis os grandes campeões. Não foi o maior jogador da história, mas provavelmente tenha sido o mais carismático, ao lado de Garrincha.

Os feitos e números de Pelé não têm paralelo e talvez nunca venham a ser alcançados, tampouco sua diversidade técnica ou estabilidade desportiva. Mesmo o rei do futebol, no entanto, é uma personalidade opaca perto de Don Diego. Sempre polêmico e senhor de si, o argentino seguiu pela vida rasgando o manual de boa conduta, negando-se à domesticação que os donos do espetáculo buscam impor a seus contratados.

Maradona jogou e viveu como um rebelde. Canhoto dentro e fora de campo, foi amigo do líder da revolução cubana, do venezuelano Hugo Chávez e do brasileiríssimo Lula. Tatuado com a face do Che, abraçou a causa daqueles que, como ele, desafiavam a ordem e tentavam reinventar o mundo.

Suas jogadas épicas jamais serão esquecidas. A fila de ingleses driblados como se fossem bonecos de pano, nas quartas-de-final da Copa de 1986, até a bola ser engolida pelas redes de Peter Shilton, em saborosa vingança pela humilhação argentina na Guerra das Malvinas.

O gol com a mão de Deus, na mesma partida, transformando uma aberrante contravenção em vitrine de seu ilimitado talento para o futebol e a troça. A caminhada divina e o passe magistral para Caniggia, em 1990, fulminar a seleção brasileira, desclassificada sem dó, nem piedade.

Essas e muitas outras lembranças viverão para sempre, geração após geração. Maradona também seguirá presente porque ousou romper os grilhões da indústria do esporte. Insurgiu-se como Spartacus, colocando sua arte e seu prestígio a serviço dos povos que lutam pela libertação. Vida eterna ao deus argentino do futebol!

Fonte: Texto originalmente publicado no site do Opera Mundi.
Link direto: https://bit.ly/operamundi-AdeusAoSpartacusDosGramados

Breno Altman
Jornalista e fundador do site Opera Mundi. Escreve mensalmente para o Blog da Boitempo sobre história da esquerda brasileira, latino-americana e mundial

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