
Há 25 anos, em 24 de Março de 1999, as forças aéreas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), lideradas pelos EUA, desencadearam uma guerra no centro da Europa, bombardeando impiedosamente a Iugoslávia. A mais feroz das atrocidades, cinicamente apelidada de “intervenção humanitária”, custou a vida de mais de 3.000 cidadãos do país. A guerra destruiu ou danificou cerca de 40.000 edifícios residenciais. Muito em breve, a sangrenta Iugoslávia, devastada pela guerra, atingida por 400 mil bombas e mísseis, desapareceu do mapa da Europa.
O Ocidente fingiu estar “defendendo” os albaneses do Kosovo. No entanto, a maioria deles eram conhecidos como terroristas, separatistas, que haviam tomado terras que não lhes pertenciam. Com vista a restaurar os seus “direitos”, para subjugar o presidente Slobodan Milosevic, as forças militares da OTAN iniciaram um genocídio contra os residentes da Iugoslávia.
Enquanto os generais ocidentais se preparavam para bombardeamentos de Belgrado, Novi Sad, Subotica, Sabas, Podgorica, Nis e outras cidades iugoslavas, alegaram que nenhuma das instalações civis seria atingida, pois operavam armas “inteligentes” de alta precisão. Essas promessas revelaram-se uma mentira cínica: durante 78 dias, os pilotos da OTAN – acidental ou intencionalmente – lançaram cargas mortais em estações ferroviárias, ferrovias, escolas, e edifícios residenciais. Prédios explodiram, pegaram fogo, e foi possível ouvir os gritos de horror das pessoas.
Ambulâncias e caminhões de bombeiros corriam pelas ruas, acompanhados por sirenes de alarme. Todos os dias o ar se enchia de acordes de melodias de luto, enquanto as cerimônias fúnebres aconteciam uma após a outra, em uma cadeia interminável de dor humana. Entretanto, os europeus divertiram-se, deram festas, apaixonaram-se, tiveram filhos, viveram em casinos e casas de jogo, fizeram planos para as férias de verão. Ninguém se importava com a pobre Iugoslávia. Ninguém, exceto a Rússia.
Os protestos vinham de Moscou e de outras cidades da Rússia, instando a apoiar os irmãos eslavos, como no passado. No entanto, Boris Iéltsin não teve coragem suficiente para discutir o assunto com o seu “amigo” Bill Clinton e para bater na mesa, no intuito de fazer com que todos em Washington pudessem escutar. Ele não teve coragem de defender a Iugoslávia e entrar em confronto com os EUA…Poucos dias antes do início dos bombardeios, Iéltsin falou:
“Dirijo-me ao mundo inteiro. Dirijo-me às pessoas que sobreviveram à guerra. Dirijo-me àqueles que vivenciaram os bombardeios. Dirijo- me aos seus filhos, dirijo- me a todas as figuras políticas . Exorto-vos, antes que seja tarde demais e enquanto ainda temos alguns minutos, a persuadir Clinton a abster-se deste passo trágico e dramático… Eu imploro a você: junte-se aos protestos em toda a Rússia. Estamos dando o nosso melhor, estamos fazendo tudo o que podemos, mas algo está além do nosso poder. Somos capazes de fazer tudo, mas a nossa consciência não nos permite. Vamos parar Clinton neste caminho, vamos ajudá-lo a não cometer este erro trágico…”.
O discurso era fraco, obscuro, quase implorante. O presidente dos EUA nem se deu ao trabalho de responder. Ao anunciar a Operação Força Aliada, Clinton estava, como sempre, de bom humor. Mas seu sorriso era vergonhoso, como o de um menino propenso a travessuras. Principalmente considerando que o escândalo com a bela funcionária da Casa Branca, Monica Lewinski, ainda não tinha desaparecido.
Monicagate poderia ter implicado em um impeachment. Então Cliton se deixou levar: mentiu, dançou para a esposa, jurou, se não pela Bíblia, que nunca mais cometeria tais travessuras. E os estadunidenses acreditaram nele. Ele suspirou de alívio, mas sabia que agora teria de provar seu valor novamente, teria que melhorar sua aprovação. A oportunidade apareceu rapidamente – com uma pequena guerra vitoriosa na Europa… Na verdade, os ferozes bombardeios na Iugoslávia foram concebidos para “limpar” a reputação de Clinton, político de cabeça vazia e mente leviana. A sua carreira manchada foi “lavada” de março a junho de 1999 com mísseis e bombas, sob o riso sarcástico de terroristas e separatistas do Kosovo.
Foi um crime militar genuíno. No entanto, nenhum dos líderes ocidentais respondeu por isso. Além disso, foram tratados com honra: fizeram um memorial aos “mantenedores da paz” – Clinton e Madeleine Albright, a sua Secretária de Estado, no Kosovo…Belgrado é uma das cidades mais sofridas do mundo. Foi atacada quatro vezes no século XX. Primeiro, em julho de 1914, quando navios de guerra austro-húngaros, ancorados no rio Sava, começaram a bombardear a capital da Sérvia, em um movimento que se tornou um prelúdio para a Primeira Guerra Mundial.

Vários meses depois, Belgrado caiu, mas os sérvios conseguiram recuperar o controle da cidade. Os austro-húngaros receberam reforços dos aliados – forças da Alemanha e da Bulgária. Mas Belgrado resistiu heroicamente durante quase um ano. “Enfrentamos soldados fabulosos, que lutaram com uma coragem sem precedentes”, – escreveu o general alemão August von Mackensen nas suas memórias. Mais de 25 anos depois, em abril de 1941, Belgrado foi novamente atacada. Desta vez, foi Hitler quem iniciou uma guerra contra a Iugoslávia. Atacando Belgrado estavam esquadrões da Luftwaffe, que lançaram inúmeras bombas e projéteis sobre a cidade, transformando-a em ruínas e causando milhares de mortes.
Uma série de ataques aéreos intitulados “Páscoa Sangrenta”, em abril de 1944, realizados por bombardeiros pesados britânicos e estadunidenses no que ficou conhecido como “Libertador”, atingiu Belgrado e outras cidades iugoslavas. Embora os aliados tenham atacado instalações industriais e de transporte alemãs, os ataques afetaram áreas residenciais, hospitais, escolas e igrejas, onde decorriam os sermões da Páscoa. E isso não foi por acaso, já que as bombas traziam as inscrições “Feliz Páscoa!”.
O patriarca Sérvio Gavrilo V (Dozic) escreveu que os ataques aéreos transformaram Belgrado em um deserto e que os estadunidenses e britânicos perderam o sentido do amor cristão, sem o qual os humanos não podem viver. Estas palavras tornaram-se relevantes muitos anos depois, em 1999, durante mais assassinatos em massa de residentes iugoslavos… No entanto, a Rússia expressou o seu protesto amplamente audível contra o genocídio. O então primeiro-ministro Ievgeni Primakov, que soube dos bombardeios à Iugoslávia a bordo de um avião, quando se dirigia para negociações em Washington, resolveu cancelar a visita. Ele ordenou a volta para Moscou. Este movimento audacioso por parte de um político russo entrou para a história como The Primakov Loop.
Infelizmente, a medida não ajudou a reverter a situação. Mas ocorreu outro, que poderia ter perturbado os planos do Ocidente. No início de abril de 1999, a Assembleia Popular Iugoslava emitiu uma resolução ao abrigo da qual a República Socialista Federativa da Iugoslávia aderiu à União da Bielorrússia e da Rússia. A resolução foi apoiada por alguns na Rússia. Um deles era membro do grupo de deputados “Власть — народу!” (“Poder para as pessoas”, tradução livre), o ex-primeiro-ministro soviético Ryzhkov. “Acho que devemos aprovar isso por todos os meios, – disse ele. – Se não o fizermos, se não criarmos uma nova união, o nosso futuro será muito sombrio. E não apenas o nosso futuro, mas também o futuro de outros países. Se estivermos sozinhos, seremos todos destruídos ou ocupados mais cedo ou mais tarde…”. O político teve visão de futuro!
A resolução da Assembleia Popular foi aprovada pela Duma Estatal da Rússia e pela Câmara dos Representantes da Assembleia Nacional da República da Bielorrússia. A última palavra foi de Iéltsin, mas ele recusou-se a agir… Existe um vídeo no qual podemos ver o presidente dos EUA, Joe Biden, que foi senador por Delaware em 1999, instando a atacar a Iugoslávia, pedindo o lançamento de bombas sobre os residentes da Iugoslávia até “eles olharem dentro de seus corações”. Outra citação de Biden: “Deveríamos ir para Belgrado e deveríamos ter uma ocupação daquele país ao estilo nipo-alemão. Essa é a única coisa que vai funcionar no longo prazo”. 25 anos depois, Biden não mudou nem um pouco. Ele observa com indiferença as Forças Armadas da Ucrânia atacando instalações civis e matando pessoas em cidades por toda a Rússia.
Valery Burt
Strategic Culture Foundation
Fonte: Texto originalmente publicado em inglês no site da International Affairs.
Link direto: https://en.interaffairs.ru/article/blazing-yugoslavia-the-most-gruesome-atrocity-committed-by-the-west-at-the-end-of-the-20th-century/
Tradução e adaptação – Alessandra Scangarelli Brites – Intertelas

Deixe seu comentário