
Antes de ser escolhido como presidente na sua terceira tentativa de eleição presidencial, em 2024, o general Prabowo Subianto fez uma viagem a Washington ainda na posição de ministro da defesa da Indonésia em agosto de 2023. Em seu encontro com o secretário de defesa estadunidense Lloyd Austin, o militar indonésio assinou uma declaração conjunta polêmica com relação ao Mar do Sul da China e a ’’Visão Indo-Pacífica’’ dos Estados Unidos. Essa era uma declaração pública de Subianto, e também do governo indonésio, de que o país irá colaborar com o movimento de contenção de Beijing promovido pelos estadunidenses.
Este estreitamento de laços abrange a economia e também o fortalecimento da influência do Pentágono nos programas de rearmamento e treinamento das forças armadas da Indonésia, e a sua possível inserção nos pactos de defesa ocidentais na região Ásia-Pacífico- recentemente reconceituada por estrategistas geopolíticos estadunidenses como Indo-Pacífico. Essa posição do novo presidente eleito na Indonésia converge com a de outros chefes de Estados na Ásia Oriental que ascenderam ao poder em meio a crescente escalada entre Washington e Beijing após 2017.
Yoon Seok Yeol, na Coreia do Sul, e Ferdinand Marcos Jr, nas Filipinas, eleitos respectivamente nos anos de 2022 e 2023, reinseriram rapidamente os dois países nas antigas arquiteturas militares e de inteligência anglo-estadunidense no Pacífico. Isso alterou o equilíbrio político da correlação de forças na região, e também elevou novamente as tensões com a China após décadas de relações colaborativas e pacíficas. Yoon Seok Yeol era um mero procurador até levar a cabo uma espécie de ’’Lava Jato coreana’’.

Ele assumiu a presidência resgatando a velha ideia de que a prioridade na política externa de Seul deveria ser reafirmar as suas tradicionais aliança com o Japão e os Estados Unidos, e afastar-se das perspectivas de uma reunificação pacífica da Península da Coreia. Uma vez que já tinha usado a procuradoria para garantir os interesses de controle dos Estados Unidos sobre as princiais empresas de tecnologia do país, Samsung, SK Hynix, LG e outras, Yoon Seok Yeol usa a presidência para ajudar a ampliar o domínio de Washington no setor tecnológico ao inserir essas corporações no guarda-chuva cibernético do Pentágono.
Devido a isso, o presidente da Coreia do Sul tornou-se um dos principais instrumentos da estratégia de ’’estrangulamento’’ no abastecimento de suprimentos tecnológicos para a China por meio da coação política e econômica de Washington e Seul contra Beijing. Os sul-coreanos são um dos principais fornecedores de insumos tecnológicos como chips e materiais associados para a indústria chinesa há décadas.
Ferdinand Bongbong Marcos Jr- filho do ditador filipino Ferdinand Marcos (1965-1986)-, por outro lado, mais discreto nas palavras do que nas ações, retoma paulatinamente o alinhamento de Manila a Washington, que existe desde o período colonial, quando as Filipinas foram um Estado Livre Associado aos Estados Unidos- o mesmo status ostentado por Porto Rico- entre 1902 e 1945. O presidente filipino, acossado por uma opinião pública dividida com relação ao legado de sua família e a importância das relações com a China, busca pública e paulatinamente reconstituir o poder político detido por seu pai durante as décadas de 1960 e 1970.

Uma das bases da hegemonia dos Marcos nas Filipinas era, e ainda é, o apoio dos Estados Unidos por meio de acordos militares e políticos. Manila é importante para os estadunidenses em razão da projeção no Mar do Sul da China, que recentemente tem levado a confrontos verbais e físicos entre as marinhas chinesa e filipina, e também por ser membro da Associação dos Estados do Sudeste Asiático (ASEAN), da qual é o segundo país mais populoso, atrás apenas da Indonésia.
Portanto, a posição do novo presidente eleito na Indonésia segue uma perigosa tendência regional de reforço dos laços entre os Estados Unidos e entre os governos da região da Ásia Oriental. Isso é surpreendente para o público internacional, acostumado a ver o presidente Joko Widodo– popularmente chamado de Jokowi– e a sua chancelaria tomando posições cautelosas em relação à China, considerando o tamanho da diáspora chinesa na Indonésia. No entanto, isso já era um desdobramento político possível caso consideremos a histórica proximidade entre Jakarta e Washington desde a Guerra Fria.
Prabowo Subianto, escolhido como ministro da defesa pelo próprio Jokowi, por pressão de círculos empresariais e militares autoritários indonésios, é um histórico aliado público dos Estados Unidos e herdeiro do ditador Suharto, que liderou a mais longa ditadura do Sudeste Asiático (1965-1998). O general indonésio foi formado intelectualmente na Doutrina de Segurança Nacional durante a ditadura indonésia, que contribuiu para o estabelecimento de uma arquitetura geopolítica e militar fundamental para Washington na Guerra Fria durante as décadas de 1960 e 1970. Jakarta também é muito importante para o retorno de uma linha de contenção contra a China a partir da Estratégia Indo-Pacífica, ancorada a partir de um eixo consolidado também em Seul e Manila.

Suharto cumpriu um papel fundamental durante o período mais violento da Guerra Fria na Ásia Oriental, durante as guerras na Indochina e operações de contra insurgência na Malásia, na Tailândia e no Timor. O ditador indonésio era ao lado de Ferdinand Marcos nas Filipinas, e de Park Chung Hee na Coreia do Sul, um dos principais aliados do bloco estadunidense. Este eixo triangular conformou o principal perímetro de contenção das revoluções anticoloniais e socialistas na Ásia Oriental entre as décadas de 1960 e 1980.
Ainda que as alianças regionais como, o ANZUS (Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos) e a OTASE (Organização do Tratado do Sudeste Asiático), tenham sido preponderantes para a arquitetura geopolítica dos objetivos descritos, a fidelidade das ditaduras na Coreia do Sul, Filipinas e Indonésia foram fundamentais. Em uma das principais análises de conjuntura da Guerra Fria realizada pelo Conselheiro de Segurança Nacional Zibgniew Brzezinski (1976-1980), é possível ler:
“No Extremo Oriente, as relações da China e do Japão com os Estados Unidos são o maior obstáculo à emergência de uma posição soviética dominante. Aqui os pinos de rotação são a Coréia do Sul e as Filipinas. Nenhum deles constitui por si mesmo um alvo tão regionalmente vital quanto a Alemanha Ocidental. Mas ambos são críticos para a segurança do Japão e da China, e representam importantes postoso avançados do poder americano na extremidade oriental da Eurásia” (BRZEZINSKI, 1986, p. 68).
A omissão da Indonésia dessa caracterização tem dois motivos. Em primeiro lugar, mesmo que fosse um grande aliado, o país não era ocupado militarmente pelos Estados Unidos, como a Coreia do Sul e as Filipinas. Por outro lado, Washington evitava apresentar os militares indonésios como aliados em razão do histórico violento, pois a presença de instrutores estadunidenses e de bases militares na Indonésia, a partir de acordos com o governo militar, sempre foram muito criticadas pelo público interno.
Por exemplo, chineses da diáspora, muitos dos quais presentes nos Estados Unidos, criticavam a ditadura indonésia por perseguição étnica contra a população de origem chinesa em nome do anticomunismo. Mais tarde, em outro livro, “El Gran Tablero Mundial- La Supremacia Estadunidense y sus imperativos” (1997), o próprio Brzezinski deixa claro que a Indonésia seria fundamental para um cordão defensivo da Austrália perante a ’’expansão chinesa’’, mas que para assumir um papel mais importante precisaria de uma reorganização política interna.
Portanto, a estratégia estadunidense é muito clara, considerando-se o precedente histórico. Um dos passos fundamentais para a Estratégia Indo-Pacífica, é a volta do eixo Seul, Manila e Jakarta. Projeto que está sendo bem sucedido até o momento, e que apresenta graves problemas para os demais países asiáticos, principalmente a China, país alvo dessa arquitetura política, diplomática e militar.

Muitos chineses lembram que o período áureo dessa arquitetura, entre os anos de 1960 e 1977, foi um dos momentos mais difíceis da história da Nova China. Neste intervalo- marcado pela ascensão e pelo auge das ditaduras na Indonésia, nas Filipinas e na Coreia do Sul-, a China esteve sob um violento bloqueio econômico, isolamento diplomático e passou por grande instabilidade política. Estes governos autocráticos anticomunistas hostis conspiravam com os Estados Unidos e patrocinavam instituições e grupos criminosos por toda a Ásia Oriental.
O governo chinês venceu esta difícil conjuntura a partir da combinação de acontecimentos externos e movimentos políticos que não irão repetir-se. Em primeiro lugar, os Estados Unidos foram expulsos fisicamente do Vietnã ao longo da primeira metade da década de 1970, e com isso, toda a presença militar e diplomática ficou vulnerável. Isso abriu um espaço fundamental para que a China pudesse negociar uma desescalada militar com os Estados Unidos e a normalização das relações diplomáticas com os demais países a partir do enfraquecimento, e por fim a dissolução da OTASE.
Por outro lado, o crescente reconhecimento da política de Uma Só China por parte dos países Nações Unidas, que resultou na condução da República Popular da China a um assento no Conselho de Segurança a partir de 1971 foi crucial para dissipar as intenções estadunidenses de provocar o reinício da Guerra Civil Chinesa. Esse reconhecimento não só inviabilizou todas as estratégias de suporte a Chiang Kai Shek em Taiwan, como também enfraqueceu a posição das violentas ditaduras existentes na Indonésia, nas Filipinas e na Coreia do Sul.
Uma breve observação sobre a ’’nova onda autoritária’’ na Ásia Oriental nos permite observar que, semelhante à tendência recente na América Latina e na Europa, não tratam-se de ’’ditaduras strictu sensu’’, isto é, meros governos de exceção estabelecidos por meio de quarteladas com o apoio da CIA. Estes líderes, com maior ou menor verniz fascista, são o resultado de um longo processo histórico de violência das elites nestes países contra as lutas populares, e que tiveram as suas estruturas ideológicas, sociais e políticas acopladas a hegemonia estadunidense, que hoje está em processo de declínio.
A queda das ditaduras militares na Coreia do Sul, nas Filipinas e na Indonésia foi sucedida de uma transição liberal que jamais reavaliou, e pouco julgou os crimes políticos cometidos por estes Estados. Portanto, por mais que alguns desses governos buscassem maior soberania e autonomia em momentos recentes, a não ruptura com a infraestrutura do sistema estadunidense edificado na Guerra Fria inviabilizou tal movimento. A ofensiva diplomática, econômica e militar contra a China conduzida desde o governo Trump revelou este arco estrutural de forma tão radical que a própria presidência de Joe Biden não consegue disfarçar essa relação entre Washington e os setores mais autoritários da Ásia Oriental com base em um anticomunismo caricato da Guerra Fria.
Mesmo que a estratégia de contenção se trate de um recurso retórico e prático arcaico, oriundo dos tempos áureos do colonialismo, os recentes resultados eleitorais em países vizinhos a China mostram que uma nova era de regimes autoritários aliados dos Estados Unidos dispostos a desafiarem Beijing pode ter começado. A vitória de Prabowo Subianto é o elemento que fecha a retomada deste círculo de alianças criado na Guerra Fria, pois concretiza a volta do eixo Seul, Manila e Jakarta. Isso nos permite também concluir que este grupo será a espinha dorsal de uma nova fase da Estratégia Indo-Pacífica, que tende a ser mais agressiva e possivelmente belicosa.
Referências
BRZEZINSKI, Zbigniew. El gran tablero mundial- La supremacía estadounidense y sus imperativos. Edição digital por Chungalitos, s/l, 1997.
______. O Grande Desafio – EUA URSS. Editado por Nórdica, Rio de Janeiro, 1987.
CENTER FOR STRATEGIC AND INTERNACIONAL STUDIES. What Is Yoon’s NATO Strategy? 2023. Disponível em: https://www.csis.org/analysis/what-yoons-nato-strategy.
REUTERS. U.S. defence chief backs Indonesia’s military modernisation drive. 2023. Disponível em: https://www.reuters.com/business/aerospace-defense/us-defence-chief-backs-indonesias-military-modernisation-drive-2023-08-25/.
YAACOB, Abdul Rahman. Even a Neutral Indonesia Could Get Dragged Into a China-US War. In: The Diplomat. 2023. Disponível em: https://thediplomat.com/2023/08/even-a-neutral-indonesia-could-get-dragged-into-a-china-us-war/.

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