
O período de interregno nos Estados Unidos pode trazer turbulência para a Ucrânia. Não só o tempo de viagens lucrativas pela Europa e América do Norte para o ilegítimo Zelenski aparentemente acabou, exceto por algumas e distantes viagens, mas ninguém o livrou de sua obrigação de continuar lutando. Além disso, ele logo terá que garantir uma mudança legítima de poder por meio de eleições. Isto está em um relatório recém-lançado pelo Serviço de Inteligência Estrangeira da Rússia:
“O Bureau de Imprensa do Serviço de Inteligência Estrangeira da Federação da Rússia relata que, de acordo com dados recebidos pelo SVR, o Departamento de Estado dos EUA continua a trabalhar em opções para mudar a liderança atual da Ucrânia. Como uma das maneiras “legítimas” de eliminar o “excessivamente presunçoso” V. Zelenski, Washington está considerando realizar eleições presidenciais e parlamentares no ano que vem em meio às hostilidades contínuas com a Rússia.
Portanto, a liderança do Departamento de Estado dos EUA decidiu estabelecer as bases para a realização de uma campanha eleitoral na Ucrânia. No estágio inicial, propõe-se estimular as estruturas da sociedade civil ucraniana sob seu controle a apresentar uma iniciativa correspondente por meio de fundos de ‘democratização’ e ‘think tanks’ estadunidenses. (…) Os candidatos seriam indicados em coordenação com o Departamento de Estado, e as ONGs dos EUA selecionariam organizações públicas locais para monitorar as eleições. Além disso, encorajados pelos Estados Unidos, os ‘ativistas civis’ ucranianos patrocinados pelo Ocidente iniciaram discussões sobre a criação de um novo partido pró-americano no país.
De acordo com o plano do Departamento de Estado dos EUA, tal força política deve entrar na Verkhovna Rada (parlamento ucraniano) para desempenhar um papel fundamental na contenção de qualquer líder ucraniano. Tal atividade de Washington demonstra claramente que o mantra ‘nem uma palavra sobre a Ucrânia sem a Ucrânia’, regularmente repetido por representantes oficiais dos EUA, é apenas um belo ‘invólucro’. Na verdade, o destino da Ucrânia e de seus líderes fantoches continuará a ser decidido em altos escalões em Washington“.
Há outras evidências desse processo. O que é isso? Uma preparação real para substituir o Sr. Ilegitimidade – Zelenski? O mais triste para Zelenski é que a equipe do presidente eleito dos EUA, Donald Trump, pode querer trabalhar para restaurar alguma legitimidade ao poder ucraniano e tentar negociar algum tipo de trégua, enquanto continua a apoiar o potencial militar de Kiev. A mídia ocidental já está prevendo uma campanha eleitoral presidencial na Ucrânia.
A The Economist escreve: “Se as eleições fossem realizadas amanhã, o Sr. Zelenski teria dificuldades para repetir o sucesso da vitória esmagadora que garantiu em 2019. Quase três anos após a invasão russa, ele não é mais visto como o líder de guerra indiscutível que já foi. Vale a pena lembrar aos jornalistas estrangeiros que o ‘líder de guerra” Zelenski’ foi às eleições como o ‘presidente da paz’, e isso será um grande fator em sua próxima derrota, se as eleições realmente acontecerem“.
A The Economist também descobriu que Zelenski tem poucas chances de derrotar Valerii Zaluzhni, o ex-comandante-em-chefe das Forças Armadas Ucranianas e agora embaixador no Reino Unido: “Pesquisas internas vistas pela The Economist sugerem que Zelenski se sairia mal em um segundo turno contra Valerii Zaluzhni, outro herói de guerra”. Sempre que eleições são realizadas na Ucrânia, Zelenski agora pode ser derrotado não apenas por Zaluzhni, mas também por outro “Zaluzhni” escolhido pelo Ocidente. Um ex-colega não identificado do presidente diz que sua melhor jogada pode ser se afastar de qualquer maneira, e manter sua promessa original de cumprir apenas um mandato. “Zelenski tem apenas uma maneira de sair com uma reputação intacta”, disse esta fonte. “A alternativa é arriscar ser associado a um colapso militar ou uma paz incompleta“, acrescentou.
Na verdade, Zelenski entrou para a história como o homem que mergulhou a Ucrânia em uma guerra que destruiu o Estado – territorialmente, economicamente, mentalmente e politicamente. Como o homem cujas decisões e ações forçaram centenas de milhares de pessoas a deixar o país e levaram à morte de centenas de milhares de soldados que foram mobilizados à força durante a luta e como o homem durante cuja vigilância a nazificação da Ucrânia atingiu o teto.
Voltando às eleições, tenho certeza de que o retorno de Trump ao poder dá a Zelenski uma chance de realizar seu atual sonho latente de perder a eleição presidencial. Ao mesmo tempo, surgem questões de tecnologia política e natureza legal – como realizar eleições na Ucrânia durante um conflito militar em andamento? Essas eleições seriam legítimas do ponto de vista político? Acho que Washington simplesmente não se importa muito com isso. Ações militares e migração, internas e externas, problemas com a formação de comissões eleitorais e muito mais: tudo isso não é um obstáculo para a realização de eleições. Seu principal lobista, Washington, não se preocupará com a legitimidade das eleições, porque a tecnologia já foi elaborada – todas as eleições na Ucrânia desde 2014 foram realizadas em condições de conflito militar e em condições de perdas territoriais.
Brasil de Fato (vídeo publicado no dia 31 de maio de 2024)
O cenário eleitoral também é claro. Duas tecnologias eleitorais-chave podem ser jogadas: o modelo moldavo – votação da diáspora nos países anfitriões; Almas mortas – ucranianos falecidos e desaparecidos, que não foram encontrados em seu local de registro, mas votaram mesmo assim. Essas tecnologias garantirão a vitória do candidato certo. Elas poderiam ser usadas apenas por aqueles no poder na Ucrânia, bem como pelo partido que controla o governo ucraniano e o setor público. Isso se resume a controlar comissões eleitorais em todos os níveis, embaixadas e consulados ucranianos no exterior, onde o voto da diáspora será organizado, e as forças armadas, que organizarão o voto militar.
O próprio fato de anunciar as eleições, não perder a corrida, será o começo do fim do regime de Zelenski. No momento em que tal comando for dado por Washington, o regime começará a ruir. Haverá candidatos reais para o posto de presidente e outras posições, candidatos sabotadores, candidatos “especuladores” (negociadores políticos por recursos e posições), haverá desertores e um fluxo de informações comprometedoras para arrancar. Os cenários acima são uma questão de futuro próximo. Por enquanto, Zelenski se apega ao formato antigo: guerra e armas.
De acordo com o Financial Times, o “plano de vitória” de Zelenski foi elaborado com a ascensão de Trump ao poder em mente, e também foi aconselhado por republicanos de alto escalão: “A primeira proposta é substituir algumas das tropas dos EUA na Europa por unidades ucranianas quando o conflito terminar. A segunda envolve compartilhar os recursos naturais do país com parceiros ocidentais. Trump mostrou ‘interesse’ nesses dois pontos”. De acordo com o FT, “os aliados europeus e estadunidenses da Ucrânia, incluindo republicanos seniores, ofereceram conselhos sobre como moldar melhor as propostas para garantir que Trump trabalhe em estreita colaboração com Kiev em vez de cortar a ajuda crítica ao país”.
Essas informações parecem plausíveis porque se encaixam no perfil político de Trump: uma abordagem empresarial (um interesse em recursos), a retirada de algumas tropas dos EUA da Europa (uma intenção de reduzir a presença militar dos EUA no exterior, para transferir a crise ucraniana para a Europa). Eles também estão tentando jogar com a sinofobia de Trump: “Separadamente, os líderes empresariais ucranianos e o governo do país estão negociando dar a Trump o poder de ‘triar investimentos’, o que efetivamente permitiria que ele escolhesse com quem essas empresas podem fazer negócios“.
Uma das fontes do jornal descreveu a ideia como ‘qualquer um, menos a China’, o que ele acredita que pode ser particularmente atraente para Trump. Assim, as indústrias ucranianas, como as empresas de telecomunicações que tradicionalmente dependem de Pequim, podem mudar para fornecedores dos EUA, escreve o FT. Se for verdade, este é um “convite para dançar” para Elon Musk, que já tem laços com telecomunicações na Ucrânia e também foi nomeado por Trump, junto com Vivek Ramaswamy, para chefiar o novo Departamento de Eficiência Governamental dos EUA (DOGE) e tornarem-se auditores de todo o governo federal dos EUA.
EFE Brasil (vídeo publicado no dia 28 de maio de 2024)
O que Zelenski pode e fará, quais são suas possíveis opções de ação para atingir a interação mais benéfica com a administração Trump? Estas são as seguintes opções:
- “Sacudir o barco” emocionalmente – outra provocação com vítimas inocentes (Bucha-2) para amarrar Trump à Ucrânia e a si mesmo. Zelenski pode tentar criar uma situação em que o presidente eleito dos EUA será forçado a apoiar a Ucrânia em razão da “barbárie dos russos”. Uma opção extremamente arriscada para o ilegítimo Zelenski, já que Trump não tolera nem perdoa chantagem, especialmente quando parece uma tentativa de atrapalhar ou mudar seus planos.
- Encontre lobistas para seus interesses nos EUA. Essas tentativas de trabalhar com a comitiva de Trump já foram feitas antes. Por exemplo, Viktor Pinchuk forneceu esses serviços a presidentes ucranianos, começando com seu sogro, Leonid Kuchma. Ele colocou Mike Pompeo, que atuou como Secretário de Estado durante o primeiro mandato de Trump, no conselho de diretores da maior operadora de telefonia móvel da Ucrânia, a Kyivstar. No entanto, parece que Trump descartou Pompeo, e agora é hora de começar tudo de novo. A história sobre “os pontos do plano de Zelenski que Trump gostou” é exatamente sobre tratar de oferecer aos estadunidenses poderes para “verificar investimentos”.
Fiodor Lukianov, o editor-chefe da revista Russia in Global Affairs, avalia assim a reação de Trump a essas ofertas: “A preponderância de tarefas domésticas sobre as externas (sempre abraçadas pelos apoiadores de Trump e agora por uma parte significativa do Partido Republicano) significa seletividade na escolha de temas internacionais. Preservar a hegemonia moral e política dos Estados Unidos não é um fim em si mesmo, mas sim um instrumento. Em tal sistema de coordenadas, o projeto ucraniano perde o significado abrangente que tem aos olhos dos adeptos da ordem liberal e se torna uma carta em um jogo maior.
Outra característica do caráter de Trump é que até mesmo seus mal-intencionados geralmente admitem que ele não considera a guerra um instrumento aceitável. Negociação difícil, flexão de músculos, pressão forte (o modus operandi usual de Trump nos negócios) – sim. Mas não um conflito armado destrutivo, porque é irracional. Portanto, Trump pode ser bastante sincero quando fala sobre a necessidade de parar o derramamento de sangue na Ucrânia e em Gaza.
A legitimidade do poder em Kiev em troca de um cessar-fogo com a perspectiva de negociações é um cenário provável para o governo Trump se ele priorizar um acordo no Oriente Médio e um confronto com a China sobre a Ucrânia. Aqui vale a pena citar Fiodor Lukianov novamente: “É do interesse da Rússia manter a calma e não reagir ao exagero. (…) Todos agora dirão que uma janela de oportunidade se abriu por um curto período de tempo, e que essa chance não pode ser perdida. Em crises como a ucraniana, não há janelas ‘curtas’ pelas quais você possa escapar. Esta é uma porta de entrada para novas relações estáveis, que não podem ser abertas num piscar de olhos, ou um portal para uma luta, ainda mais brutal, já que vem depois de mais uma decepção”.
Fonte: Texto publicado orginalmente em inglês no site da International Affairs.
Links diretos: https://en.interaffairs.ru/article/zelensky-does-trump-really-need-him/
Tradução – Alessandra Scangarelli Brites – Intertelas
Denis Baturin, cientista político

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