
Impulsionados por um aumento nos orçamentos de defesa europeus, os gastos militares globais atingiram um recorde de 2,72 trilhões de dólares dos EUA em 2024, de acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI, na sigla em inglês). A Europa liderou a tendência de alta, com os gastos com defesa disparando 17%, para 693 bilhões de dólares, o maior aumento regional e o nível mais alto desde o fim da Guerra Fria.
Analistas afirmam que o aumento nos gastos militares reflete a crescente ansiedade da Europa em relação à segurança, impulsionada pela retirada dos compromissos de segurança dos EUA com a região e pela pressão das nações europeias para reduzir a dependência de Washington e fortalecer suas próprias capacidades de defesa em meio à crescente instabilidade global.
Aumento nos gastos
De acordo com o SIPRI, todos os países europeus, exceto Malta, aumentaram seus gastos militares em 2024. Os gastos militares da Ucrânia subiram para 64,7 bilhões de dólares em 2024, impressionantes 34% do seu PIB, o maior ônus para a defesa entre todas as nações. O Reino Unido aumentou os gastos com defesa em 2,8%, para 81,8 bilhões de dólares, enquanto a França aumentou seu orçamento de defesa em 6,1%, para 64,7 bilhões de dólares.

Os gastos militares da Alemanha subiram 28%, para 88,5 bilhões de dólares, tornando-se o maior gastador em defesa na Europa Central e Ocidental e o quarto maior do mundo; a Suécia, em seu primeiro ano como membro da OTAN, aumentou os gastos com defesa em 34%, para 12 bilhões de dólares, atingindo o limite de 2% do PIB do bloco; e a Polônia aumentou seu orçamento em 31%, para 38 bilhões de dólares, totalizando 4,2% do seu PIB. “As políticas mais recentes adotadas na Alemanha e em muitos outros países europeus sugerem que a Europa entrou em um período de gastos militares elevados e crescentes, que provavelmente continuarão a curto prazo“, disse Lorenzo Scarazzato, pesquisador do Programa de Despesas Militares e Produção de Armas do SIPRI.
Pressão dos EUA
Todos os 32 membros da OTAN aumentaram seus orçamentos de defesa em 2024, de acordo com o SIPRI, com 18 países atingindo ou excedendo a meta de 2% do PIB do bloco. O gasto total da OTAN atingiu 1,5 trilhão de dólares, representando 55% dos gastos militares globais. O aumento reflete a crescente inquietação da Europa quanto à confiabilidade das garantias de segurança dos EUA. Em fevereiro, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, disse a seus colegas membros da OTAN que Washington não se concentraria mais principalmente na segurança europeia, instando o continente a assumir maior responsabilidade pela ajuda militar à Ucrânia.
O forte aumento nos gastos militares também ocorre em meio a uma pressão renovada de Washington. Em seu segundo mandato, o presidente dos EUA, Donald Trump, reforçou as exigências anteriores, instando os membros da OTAN a aumentarem os gastos com defesa para 5% do PIB, mais que o dobro do valor de referência atual da aliança. Em uma coletiva de imprensa em janeiro, Trump declarou: “Acho que a OTAN deveria ter 5%“, repetindo suas críticas de primeiro mandato de que a Europa, particularmente a Alemanha, estava investindo pouco em sua própria defesa. Ele também alertou sobre uma possível retirada de tropas estadunidenses da Europa caso o bloco não cumpra as metas mais elevadas.
A retórica gerou inquietação em todo o continente. O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, reconheceu as crescentes expectativas, descrevendo a meta de 2% como “um piso, não um teto” e pedindo às nações europeias que “turbinem” seus esforços de defesa à luz das ameaças em evolução. O ING, um think tank com foco na economia global, afirmou em análise recente que os primeiros contatos entre EUA e Rússia sobre um possível acordo de paz com a Ucrânia, juntamente com as críticas do vice-presidente estadunidense J.D. Vance à Europa na Conferência de Segurança de Munique, aumentaram a pressão sobre os países europeus para que se rearmem. “Os últimos acontecimentos no Salão Oval só aumentaram esse senso de urgência“, observou o documento.
Desafios por vir
Em meio à crescente incerteza transatlântica, a busca de longa data da Europa por autonomia estratégica assumiu uma nova urgência. A Agenda Estratégica da UE 2024-2029 destaca a defesa como uma prioridade máxima. Em março, a Comissão Europeia lançou o “Livro Branco para a Defesa Europeia – Preparação para 2030”, destacando medidas para abordar as lacunas na capacidade de defesa e fortalecer a indústria de armas do bloco por meio do aumento das compras conjuntas.
Anteriormente, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, revelou um plano de 800 bilhões de euros (904,69 bilhões de dólares estadunidenses) para aumentar os gastos da UE com defesa. A iniciativa inclui um empréstimo de 150 bilhões de euros (cerca de 169,94 dólares) para ajudar os Estados-Membros a investir conjuntamente em ativos militares essenciais. Embora não seja mais membro da UE, o Reino Unido continua desempenhando um papel fundamental na defesa europeia. Em fevereiro, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, prometeu aumentar os gastos com defesa de 2,3% para 2,5% do PIB até 2027 e para 3% até 2029, caso seja reeleito.
Seth Krummrich, coronel aposentado dos EUA e atual vice-presidente de Gestão de Riscos do Cliente do Global Guardian, disse à Al Jazeera que, apesar do esperado aumento nos gastos com defesa da Europa, “ainda foi chocante ver isso se desenrolar“. “A Europa reconhece a necessidade de se manter independente e não depender tanto dos Estados Unidos”, disse ele. “Isso não quer dizer que os Estados Unidos não apoiarão a Europa, mas a ‘certeza garantida’ do apoio americano não é mais sentida“.
O think tank ING também alertou que, do ponto de vista do financiamento público, mais gastos com defesa na zona do euro “não poderiam vir em pior hora” e que países como França, Bélgica e Itália já estão sob o procedimento de déficit excessivo da UE, lutando para reduzir seus déficits para abaixo de 3% do PIB. “Aumentar os gastos com defesa para uma meta mais alta da OTAN será, portanto, um desafio, especialmente porque alguns dos países com alto déficit já lutam para atingir a meta atual de 2%“, afirmou ele.
Fontes: Copyright Xinhua. Proibida a reprodução.
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