
Esta entrevista, realizada pelo site Opera Mundi com a jornalista Florência Costa, especialista em Índia e parceira da Revista Intertelas, foi publicada no dia 10 de maio. No mesmo período, houve o anúncio de cessar-fogo entre Índia e Paquistão. Um cessar-fogo que muitos analistas acreditam ser ainda instável e onde há atores, como o governo Trump dos EUA, querendo os créditos como intermediário. Esse é um conflito de longa data entre dos países detentores de armas nucleares, porém continua pouco conhecido no Brasil. A Intertelas reposta essa entrevista, com consentimento das partes, no intuito de trazer mais conhecimento sobre a questão.
A disputa entre a Índia e o Paquistão pelo território da Caxemira, que dura sete décadas, teve um novo capítulo neste ano. No escopo da “Operação Sindoor”, a Índia atingiu nove alvos no território do Paquistão, em resposta ao ataque perto de Pahalgam, na região indiana de Jammu e Caxemira, ocorrido em 22 de abril. “Isso não acontecia desde 1971”, destacou a jornalista Florência Costa, correspondente no país por sete anos. “Desta vez, Índia mandou a mensagem de que não dá mais”.
Os ataques contra os hindus na Caxemira foram reivindicados pela Frente de Resistência (TRF), uma organização pouco conhecida, surgida em 2019 e declarada organização terrorista pelo governo indiano, em 2023. Para a Índia, o grupo é apenas uma fachada do grupo armado Lashkar-e-Taiba (Let, Exército dos Justos, em português). Islamabade, por sua vez, nega a participação no ataque. Em entrevista ao Opera Mundi, a jornalista e autora de “Os Indianos” (Contexto, 2012) traz detalhes sobre o conflito e apresenta um contexto histórico das disputas na região. Confira:
Opera Mundi: em meio décadas de disputa entre o Paquistão e a Índia pela Caxemira, qual o diferencial dos recentes ataques na região?
Florência Costa: No dia 22 de abril, houve um ataque na Caxemira, em Pahalgam, um resort de turismo muito visitado. Foi inesperado. Pahalgam é um ponto importante para a religião hindu. É onde se inicia a peregrinação em direção à Caverna Amarnath, um Templo da divindade Shiva, a 4 mil metros de altura. Essas montanhas são consideradas sagradas. Em 2024, um grupo de peregrinos já havia sofrido um ataque terrorista. A religião está muito presente. Desta vez, homens armados entraram e atiraram contra os hindus no local. Como havia muitos turistas, eles perguntaram quem era muçulmano e quem era hindu, pedindo para as pessoas comprovarem que eram mulçumanas rezando. Eles foram mortos diante de suas esposas e filhos.
Foi o pior ataque contra civis desde 2008, quando 10 terroristas entraram de barco em Mumbai e mataram 166 pessoas. A diferença fundamental é que, desta vez, a Índia reagiu. A resposta da Índia demonstra que o país cansou e que não vai revidar somente nos campos de terroristas da Caxemira ocupada pelo Paquistão, mas no próprio território do Paquistão. É a primeira vez, desde a guerra de 1971, que os ataques acontecem em outros territórios do Paquistão. Dessa vez, a Índia passou a mensagem de que não dá mais, porém, não no sentido de que vai haver uma guerra nuclear, como alegam os paquistaneses.
Importante observar que a resposta indiana não aconteceu sem antes o governo Modi consultar outros países. A Índia é um Estado responsável. Modi conversou com líderes no mundo inteiro, não foi algo da cabeça dele. Após o ataque, o Exército indiano postou no X: “justiça foi feita. Jai Hindi”, quer é significa “Vitória para a Índia”.
Como você avalia a reação da Índia?
A Índia tinha que reagir, não havia a menor possibilidade de não reação, mesmo que o governo não quisesse. A população está enfurecida e protestando. Civis foram mortos. O clima na mídia indiana e da população está muito emocional. Logo após o ataque em 22 de abril, o presidente Modi afirmou: “nós vamos perseguir os terroristas até os confins da terra”. O próprio nome da Operação é muito simbólico. Sindoor é uma marca de pó vermelho que as indianas usam na raiz do cabelo e que significa que você é uma mulher casada. Operação Sindoor faz referência às mulheres que estavam lá e que viram seus maridos serem mortos.
A reação da opinião pública foi muito forte. Ao mesmo tempo, há toda uma preparação da população, com exercícios militares, contra possíveis ataques. Hoje, a Caxemira indiana tem uma população de cerca de 14 mil a 15 mil pessoas e se considerarmos a região ocupada pelo Paquistão, com 6 mil, temos 20 mil pessoas em um território aproximadamente da dimensão do Piauí. Há rios que cruzam ali e que vão para o Paquistão, daí o movimento da Índia de represar essas águas.
O Paquistão nega ter cometido os ataques e qualquer envolvimento com a Frente de Resistência (TRF).
Eles sempre negaram os ataques. Seis dias antes, o chefe das Forças Armadas do Paquistão, Syed Asim Munir Ahmed Shah, que foi chefe do serviço secreto indiano e é um general linha dura, descreveu a Caxemira como a “veia jugular do Paquistão”, ou seja, uma região vital para a identidade do país. O Paquistão é um Estado cliente. Inclusive analistas paquistaneses importantes usam o termo “um Estado falido” para se referir à situação do país. Sua economia é inacreditavelmente inferior à da Índia, que já se tornou o quarto maior PIB do mundo hoje. Ela ultrapassou o Japão e a previsão é de que se torne o terceiro PIB mundial em dois anos. Hoje, o primeiro é os Estados Unidos, seguido da China e da Alemanha, aí vem a Índia.
O Paquistão, por sua vez, é um país muito pobre, com grave crise econômica. É uma ditadura de 40 anos. Todos os primeiros-ministros do Paquistão acabam saindo, de uma forma ou de outra, antes do mandato. Alguns são assassinados, outros presos. O caso mais conhecido é do último primeiro-ministro civil, Imran Khan, que está preso há dois anos sob uma acusação de lawafare, muito semelhante ao que vimos no Brasil. Ele estava em Moscou quando eclodiu a Guerra na Ucrânia. Foi capitão do críquete e é uma espécie de Pelé do esporte, o mais popular tanto na Índia, quanto no Paquistão, devido à herança britânica.
O grande inimigo dele é o atual chefe das Forças Armadas do Paquistão, que mandou prendê-lo. Quando isso aconteceu, a população foi às ruas para protestar. O Exército paquistanês é muito questionado hoje. Isso demonstra como os governos militares podem ser desastrosos. Neste sentido, o Paquistão é diferente da Índia que, após a independência em 1947, criou instituições democráticas. É um país que faz favores militares para outras potências, servindo a outros interesses. Ele tem fronteiras com a Índia, o Irã e o Afeganistão e esses três países sofrem com terrorismo.
Existia um temor em relação à escalada de um conflito entre duas potências nucleares. Como você avalia esse risco?
O Paquistão sempre usa o blefe da arma nuclear. “Vai ter guerra nuclear se a Índia reagir“, mas a Índia vai aceitar todos os ataques e não vai reagir? Não existe isso. Se houver escalada nuclear é o fim do mundo. Tanto que temos conflitos com potências nucleares, veja a Guerra na Ucrânia, e isso não acontece. O primeiro teste nuclear da Índia foi em 1974, o do Paquistão em 1998. Por isso, eles são potências nucleares. O Estocolmo Peace Report Institute (SIPRI) menciona 172 ogivas indianas e um número semelhante de ogivas paquistanesas. De certa forma, a nuclearização faz com que as partes se retenham um pouco.
A população paquistanesa também está nas ruas em razão do ataque desta semana. Há uma grande incógnita sobre como o conflito vai seguir. Isso vai se tornar uma nova Cargil ou vai virar mais um ataque? Ninguém sabe. A Caxemira para os paquistaneses é uma questão de identidade nacional, de sobrevivência. E para a Índia também. Nenhum lado vai abdicar disso.

Qual a posição da China, da Rússia, dos Estados Unidos sobre o conflito?
A China não entra em guerras externas. Ela é a maior potência comercial da Índia, não irá misturar as coisas. Ela tem uma histórica postura de neutralidade. Pequim entrou em guerra com a Índia em 1962. Os chineses venceram e ficaram com a região de Aksai Chin. Ela tem um importante corredor econômico com o Paquistão, onde há um porto. Então, ela se mantém neutra sempre que acontecem esses ataques. E, agora, tem a questão do BRICS, que é muito importante para a Índia.
Em geral, o Ocidente e, em particular os Estados Unidos, sempre usou o Paquistão para os seus objetivos durante a Guerra Fria. A China não faz esse tipo de coisa. A política dela é diferente e isso, em boa parte, a faz ser o país que é. A Índia também mantém uma relação estratégica com a Rússia, que é um parceiro fiel desde a Guerra Fria. É uma relação muito importante, histórica e estável porque os russos sempre ajudaram a Índia. Durante a guerra de 1971, os Estados Unidos apoiaram o Paquistão, que fez vários favores pagos contra a então União Soviética. Hoje, a Índia estabelece uma relação estratégica com os Estados Unidos, que são importantes economicamente. Ela está em todas as frentes.
Quais os principais grupos armados que ameaçam a paz na região?
Existem hoje cerca de 500 mil a 700 mil tropas da Índia e 200 mil tropas do Paquistão na região da fronteira chamada de “Linha de Controle”. É um dos lugares mais quentes do mundo militarmente. São três principais grupos terroristas. Um está sediado na Caxemira indiana e os dois outros no estado do Punjab do Paquistão, que tem territórios nos dois países. O Punjab é o estado econômico e politicamente mais importante do Paquistão.
Na Caxemira, o principal grupo é o Hizbul Mujahideen (HM), que significa Força dos Mujahideen. Os dois outros grupos em Punjab são o Jaish-e-Mohammed (JeM), que significa soldado de Mohammed, e o Lashkar-e-Taiba (LeT), Exército dos Puros, que fez um dos maiores ataques lá. Eles são citados no ataque de 22 de abril. Toda vez que tem um ataque, a Índia reage atacando esses pontos de treinamento. Vários ataques desta semana na Caxemira foram nos pontos do HM e campos de treinamento do Let e do JeM. Mas houve outras localidades desta vez. Desde 1971, a Índia não atacava profundamente dentro do Paquistão. Isso é um diferencial.
Qual o histórico dessa disputa entre Índia e Paquistão pela Caxemira?
Tudo começa em 1947, com a independência da Índia, realizada de modo turbulento pelos britânicos. Naquele momento, houve um deslocamento de 10 milhões de pessoas, com milhões de mortes. Os hindus do Paquistão foram para a Índia e os mulçumanos da Índia foram para o Paquistão. Esse processo foi uma tragédia e é ainda um trauma. Foi um pacto doloroso que resultou em três países, o Paquistão, a Índia e o Bangladesh.
Já em 1948, aconteceu o primeiro conflito com militantes paquistaneses na Caxemira, que não aceitavam que a região ficasse com a Índia. Durante o domínio britânico, vários estados indianos eram governados por nobres, os chamados marajás. A Inglaterra não tinha uma influência tão forte nesses territórios como em outros. A Caxemira era um desses estados, ela era governada por Hari Singh. Quando o Paquistão invadiu o território, ele fez um acordo com o governo indiano para se proteger dos ataques e a região ficou com a Índia. É esse acordo que o Paquistão não aceita. Em 1948, a ONU entrou nas negociações e foi decidido que dois terços do território da Caxemira ficariam com a Índia e um terço, com o Paquistão.
E continuaram os conflitos?
Eles nunca pararam. Em 1965, teve uma infiltração sangrenta de militantes do Paquistão durante três semanas, seguida por um acordo de paz. Em 1971, aconteceu a guerra mais importante, que resultou na criação de Bangladesh, na época, Paquistão oriental. No final dos anos 80, começou o período da insurgência. Com o fim da guerra da União Soviética no Afeganistão (1979 a 1989), os mujahidin, apoiados pelo Paquistão, foram para a Caxemira com armamento dos Estados Unidos e deram início a vários atentados, sempre reivindicando a ida da Caxemira para o Paquistão.
Em 1999, houve o conflito de Cargil, que é muito importante, porque foi o primeiro conflito depois da nuclearização dos dois países. Em 2001, aconteceu o ataque terrorista em Nova Deli, quando 20 homens armados entraram no Parlamento. Outro ataque terrorista aconteceu em 2006 em uma linha de trem em Mumbai, capital financeira da Índia, levando à morte de mais de 200 pessoas. Dois anos depois, 10 homens saíram de barco em direção a Mumbai e atacam vários pontos, entre eles o icônico hotel Taj Mahal.
Em 2019, aconteceu um outro ataque na Caxemira. Foram colocadas bombas em comboios militares e 40 soldados indianos foram mortos. Isso aconteceu pouco antes da eleição do Nerenda Modi. Aí tivemos o ataque aos peregrinos e este, agora, em 2025. A reação da Índia se dá, portanto, neste contexto. O Paquistão nunca assume os ataques, afirmando que não são ataques do Estado, mas de grupos armados. E a Índia tenta apresentar as evidências, mas as potências mundiais sempre colocam panos quentes. Agora, no entanto, foi a gota d´água para a Índia.
Fonte: Texto publicado originalmente no site do Opera Mundi.
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Por Tatiana Carlotti

Parabéns pela pesquisa com a história indo-paquistanesa.