Tehran Times – O cálculo estratégico de Teerã: por que a pressão sobre a AIEA leva à aceleração nuclear do Irã

Crédito: Tehran Times.

A resolução de 12 de junho do Conselho de Governadores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) marca um momento crítico na longa disputa diplomática entre capitais ocidentais e Teerã sobre o programa nuclear pacífico do país.  Embora a resolução tenha sido aprovada com o apoio dos Estados Unidos e de três países europeus (França, Alemanha e Reino Unido), Teerã não a vê como uma decisão técnica, mas como a continuação de uma campanha de pressão politicamente motivada — uma que, na visão do Irã, tem persistentemente minado os esforços diplomáticos e alimentado tensões crescentes. A resposta rápida e calculada do Irã — expandindo suas capacidades nucleares em locais seguros — reflete uma lógica estratégica moldada pelo o que Teerã vê como descumprimento ocidental e fracasso das abordagens diplomáticas.  

Interpretando a resolução: Uma manobra política, não uma necessidade técnica  

Da perspectiva do Irã, esta resolução é um “evento repetitivo” e uma tática familiar no manual do Ocidente, que prioriza a pressão política em detrimento do diálogo técnico genuíno. Autoridades em Teerã argumentam que citar as chamadas questões não resolvidas — algumas das quais datam de antes do Plano de Ação Integral Conjunto (JCPOA) de 2015 — serve como pretexto para politizar o trabalho da AIEA. O foco da resolução nas supostas “falhas no cumprimento de suas obrigações” pelo Irã e na “incapacidade da AIEA de fornecer garantias” sobre a natureza pacífica do programa nuclear iraniano é visto não como uma avaliação imparcial, mas como um mecanismo para justificar mais pressão.

O Ministério das Relações Exteriores iraniano e a Organização de Energia Atômica do páis rapidamente rejeitaram a resolução, classificando-a como “politicamente motivada” e “sem qualquer base técnica ou jurídica“. Essa postura decorre da crença de que o verdadeiro objetivo não é resolver questões pendentes de salvaguardas, mas criar uma forma de punir o Irã por seus avanços nucleares — avanços que Teerã insiste terem sido acelerados pelas políticas fracassadas do Ocidente.  

Resposta estratégica: Escalada calculada para dissuasão  

A reação do Irã não foi impulsiva nem meramente simbólica. O anúncio de uma nova e segura instalação de enriquecimento de urânio e a substituição das centrífugas IR-1 de primeira geração na instalação subterrânea fortemente fortificada de Fordow por máquinas IR-6 avançadas são passos técnicos significativos. Essa medida envia um sinal deliberado da capacidade e determinação do Irã.  

A escolha de Fordow é estrategicamente crucial. Sua localização subterrânea profunda o torna praticamente imune a ataques militares, transformando-o em um reduto seguro para a tecnologia nuclear mais avançada do Irã. Ao aprimorar as capacidades neste local, o Irã não está apenas aumentando sua capacidade de enriquecimento, mas também reforçando sua dissuasão estratégica. Teerã vê isso como uma medida defensiva necessária, consequência direta de um ambiente diplomático em que os direitos e a segurança do Irã não podem ser garantidos apenas por acordos.

Quadro jurídico e diplomático da ação do Irã

Para entender a posição do Irã, sua interpretação do próprio JCPOA é fundamental. Teerã sustenta que seus avanços nucleares pós-2019 não constituem uma violação, mas sim “medidas compensatórias” legalmente justificadas pelos Artigos 26 e 36 do acordo, que permitem ao Irã suspender seus compromissos, no todo ou em parte, caso outras partes não cumpram os seus.  

Autoridades iranianas argumentam que a retirada dos EUA em 2018 e o subsequente fracasso das três nações europeias em entregar os benefícios econômicos prometidos — evidenciado pela ineficácia de mecanismos como o INSTEX e pelo não cumprimento das obrigações do “Dia da Transição” em outubro de 2023 — representaram uma violação fundamental do acordo. Dessa perspectiva, a decisão do Irã de reduzir seus compromissos foi um exercício legítimo de seus direitos sob o JCPOA, tomado somente após um ano de “paciência estratégica” e a ausência de alívio econômico tangível. Essa estrutura legal redefine a expansão nuclear do Irã não como um desafio, mas como uma resposta baseada em regras ao descumprimento da outra parte.  

Capacidade nuclear como alavanca estratégica na era pós-JCPOA  

A campanha de pressão contínua do Ocidente consolidou uma lição estratégica fundamental em Teerã: acordos diplomáticos sem mecanismos de execução robustos não são confiáveis, enquanto as capacidades técnicas locais proporcionam dissuasão tangível e alavancagem crítica para negociações. Assim, o programa nuclear iraniano tornou-se um ativo estratégico cujo “potencial de ruptura” alterou fundamentalmente a dinâmica de poder regional e criou um escudo formidável contra ameaças militares.

Além disso, o Irã encara a potencial ativação do mecanismo de “snapback” com ceticismo estratégico. Embora os três países europeus possam apresentá-lo como último recurso, sua autoridade legal para acioná-lo expira em outubro de 2025. Isso cria um prazo que pressiona não apenas o Irã, mas todas as partes envolvidas. Teerã deixou claro que tal medida seria um ponto sem retorno, provavelmente levando à adoção de medidas drásticas — incluindo uma possível retirada do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP). Isso transforma o “snapback” de uma mera ameaça em uma aposta arriscada com consequências imprevisíveis para as normas globais de não proliferação.  

Um ciclo previsível de pressão e avanço  

A recente resolução da AIEA e a resposta do Irã são os resultados previsíveis de uma estratégia falha baseada em pressão. Da perspectiva de Teerã, suas ações são uma resposta lógica e estratégica a um processo diplomático que não cumpriu seus compromissos. Enquanto questões centrais – sanções, garantias necessárias e cumprimento recíproco – permanecerem sem solução, o ciclo de pressão e avanço nuclear provavelmente persistirá. O Irã permanece confiante em sua capacidade de resistir à pressão e salvaguardar seus direitos soberanos por meio de resiliência técnica e estratégica.

Fonte: Texto publicado orginalmente em inglês no site do Tehran Times.
Links diretos: https://www.tehrantimes.com/news/514224/Tehran-s-strategic-calculus-Why-pressure-on-the-IAEA-leads-to

Por Soheila Zarfam

Tradução – Alessandra Scangarelli Brites – Intertelas

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