
Para além do mercado e dos acordos bilaterais entre governos, é possível – e preciso – pensar caminhos alternativos para intercâmbios entre o Brasil e países da África, no audiovisual. Essa foi uma das reflexões promovidas pelo painel “Conexão Brasil–África: reimaginando circuitos de circulação audiovisual”, promovido pelo Mercado do Cinema Independente (Meci), encontro que integrou a programação da 14ª edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba.
O painel reuniu a produtora e pesquisadora Ana Camila Esteves, idealizadora e realizadora da Mostra de Cinemas Africanos, criada em 2018 em Salvador, e o fundador e diretor do Creative Africa Lab, Romeo Umulisa, de Ruanda. O debate ocorreu no último dia 17 de junho de 2025. Os debatedores consideram como fundamentais acordos como o promulgado em dezembro de 2023 entre os governos do Brasil e da África do Sul, de fomento a coproduções audiovisuais entre os dois países, e entre Brasil e Nigéria – que viria a ser assinado uma semana depois (foi firmado em 24 de junho de 2025).
Destacam, por outro lado, a necessidade de se estimular também iniciativas independentes, principalmente para a formação de plateia, isto é, para fazer com que o público, no Brasil, tenha acesso a filmes de países da África, e no continente africano, a obras brasileiras. Os dois especialistas avaliam que, até pelas raízes africanas da formação brasileira, há um crescente interesse mútuo por se conhecer expressões artísticas de cada uma das partes. Essa proximidade se dá especialmente com os países africanos que têm a língua portuguesa como idioma oficial (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique e São Tomé e Príncipe).
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“São mais de 35 milhões de africanos que falam português. Há uma conexão natural. Mesmo assim, em África se conhece mais o que se passa na Europa do que o que se passa no Brasil”, afirmou Umulisa. Ana Camila também vê demanda para co-realizações e coproduções entre Brasil e países da África, inclusive para além dos que integram a Palop (acrônimo para Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa). Apesar disso, disse considerar ainda pouco compreensível até que ponto os acordos bilaterais em curso são capazes de dar conta dessa necessidade.
Tanto ela como o diretor do Creative Africa Lab defendem que espaços de conexões outros, para além dos canais oficiais, devem ser fomentados e estabelecidos. Destacaram mostras e festivais no Brasil que têm se preocupado em incluir em sua programação a exibição de filmes africanos, ou mesmo pautado a conexão Brasil-África em foros de debate – como o próprio Meci do Olhar de Cinema. Ainda, cineclubes e sessões de exibição similares.
Perguntada pela Revista Intertelas/ Rede Macuco sobre o papel dos cursos de cinema e audiovisual das universidades nesse caminho de aproximação e intercâmbio, Ana Camila assinalou ser imprescindível haver esse movimento. Para a absoluta maioria dos que iniciam estudos na área, a oportunidade de primeiro contato com os cinemas africanos pode estar na formação pelas instituições de ensino.
Também foi pontuado no encontro como a televisão aberta, por meio da TV pública, pode contribuir para a difusão, no Brasil, do audiovisual de países africanos. Projetos que até 2015 eram desenvolvidos pela TV Brasil, incluindo a exibição de telenovelas de Angola na programação, como já registrado aqui em Intertelas, foram relembrados no debate.

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