Portal Vermelho: Relatório enviado por Cláudio Castro aos EUA compromete a soberania nacional

O ministro da Justiça e Segurança, Ricardo Lewandovski, e o governador do RJ, Claudio Castro (PL) durante entrevista coletiva, após reunião sobre a operação mais letal da polícia nas favelas cariocas. Crédito: Reprodução de vídeo.

O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), vem articulando com os Estados Unidos uma possível cooperação internacional para o combate ao crime organizado. De acordo com o jornal O Globo, as tratativas começaram há menos de seis meses. A suspeita parceria ganhou força em maio de 2025, quando uma comitiva norte-americana, liderada por David Gamble — chefe interino da Coordenação de Sanções do Departamento de Estado — esteve em Brasília para discutir estratégias de enfrentamento ao crime organizado. Coincidentemente, no mesmo mês, Cláudio Castro esteve em Nova York para negociar um acordo de cooperação com a DEA, agência antidrogas dos Estados Unidos. Nesse contexto, o governador entregou um relatório solicitando que o Comando Vermelho fosse classificado pelos EUA como organização narcoterrorista.

O documento, elaborado pela inteligência da Secretaria Estadual de Segurança Pública do Rio de Janeiro, busca convencer Washington a reconhecer o Comando Vermelho (CV) como organização terrorista internacional. A iniciativa, liderada por Castro, insere-se na retórica do chamado “narcoterrorismo”, amplamente difundida durante a gestão de Donald Trump. Intitulado “Análise Estratégica: Inclusão do Comando Vermelho nas Listas de Sanções e Designações dos EUA”, o relatório revela uma tentativa de pressionar o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) dos Estados Unidos para – a partir da classificação de terroristas – impor sanções econômicas contra os chefes da facção, facilitar extradições e parcerias com órgãos internacionais como DEA, FBI e Interpol.

A ideia liderada por Castro ignora a legislação brasileira, que distingue claramente entre organizações terroristas — motivadas por ideologias políticas, religiosas ou sociais — e organizações criminosas, como o CV e o PCC, que operam por interesses econômicos. O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, reafirmou essa distinção, alertando para os riscos de subjetivismo e arbitrariedades. A proposta também expõe o sistema financeiro nacional à ingerência externa. Caso o Comando Vermelho seja classificado como terrorista pelos Estados Unidos, qualquer instituição financeira brasileira que tenha supostamente recebido recursos do tráfico estaria sujeita a sanções internacionais e restrições de mercado.

Entre os cartéis já classificados como organizações terroristas pelos Estados Unidos estão o Tren de Aragua, da Venezuela, e o Sinaloa, do México. O Tren de Aragua, inclusive, tem atuação no Brasil, com vínculos operacionais com o Comando Vermelho e o PCC. A repercussão do relatório reacende o debate sobre a soberania nacional e os rumos da Segurança Pública no Brasil. Especialistas apontam que a manobra tem caráter político. O sociólogo Ignacio Cano, da UERJ, vê no gesto uma tentativa da extrema direita de justificar operações que resultam em execuções sumárias.

O governo do estado não tem legitimidade para decidir essa questão diretamente com um país estrangeiro — isso é uma atribuição do governo federal”, afirmou Cano, acrescentando que “mesmo em países que adotam leis antiterroristas, as normas desses países não autorizam execuções sumárias. O propósito é político, buscando pressionar por medidas que não se sustentam juridicamente”, analisa Cano.

A proposta serve para justificar ações estapafúrdias

Leia a entrevista com Ignacio Cano, doutor em Sociologia e um dos principais especialistas no Brasil em violência, segurança pública e direitos humanos. Cano que é professor e coordenador do Laboratório de Análise da Violência (LAV) da UERJ traz uma perspectiva crítica e baseada em evidências sobre o uso do termo “narcoterrorismo” no país.

Vermelho: O senhor ficou surpreso com a entrega do relatório de Cláudio Castro à Embaixada Americana?

Isso já faz um tempo. Não fiquei surpreso. É parte de uma operação de extrema direita para justificar ações estapafúrdias, especialmente execuções sumárias, sob a lógica do “narcoterrorismo”. Mesmo em países com leis antiterroristas, não há licença legal para execuções sumárias. O propósito é político, buscando um objetivo que não é apenas o de constranger o governo federal, mas o de pressionar por operações e medidas que, hoje, não se sustentam juridicamente.

Vermelho:Qual seria o impacto internacional? Isso provocaria intervenção militar como na costa da Colômbia e Venezuela?

É uma hipótese distante e muito remota. Diferentemente de situações como Venezuela e Colômbia, o tráfico do Rio não afeta diretamente os EUA, tornando qualquer justificativa para intervenção absurda e sem respaldo legal.

Vermelho:Quais seriam, na sua avaliação, as alternativas mais eficazes para combater o crime organizado, especialmente o tráfico de drogas e a ocupação de territórios no Rio de Janeiro?

Enfrentar o crime organizado vai muito além do tráfico de drogas. As medidas mais eficazes seriam, primeiro, tratar as drogas como uma questão de saúde pública e não de segurança pública. No contexto atual, não há apoio político suficiente para isso, mas seria um avanço fundamental. Em segundo lugar, combater a corrupção. O crime organizado não se mantém sem corrupção em todos os níveis da administração pública.

Seria essencial abrir investigações rigorosas envolvendo funcionários públicos, policiais, políticos e até mesmo alguns juízes. Uma força-tarefa federal seria importante para investigar essas conexões e desvios. Em terceiro lugar, o enfrentamento econômico é crucial. Como ocorreu na operação Carbono Oculto, em São Paulo, é preciso atacar os mecanismos de lavagem de dinheiro dessas organizações, o que envolve pessoas em vários níveis e setores.

Fonte: Texto publicado originalmente no site do Portal Vermelho.
Link direto: https://vermelho.org.br/2025/11/03/relatorio-de-claudio-castro-aos-eua-fragiliza-soberania-nacional/

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