O assassinato do aiatolá Khamenei: um erro de cálculo estratégico dos EUA

Pessoas se reúnem para lamentar a morte do Líder Supremo do Irã, o Aiatolá Ali Khamenei, em Teerã, Irã, em 1º de março de 2026. A mídia estatal iraniana confirmou no domingo que seu Líder Supremo, o Aiatolá Ali Khamenei, foi morto em um ataque conjunto entre os EUA e Israel no sábado, o que levou a ataques com mísseis iranianos contra alvos israelenses e estadunidenses em toda a região. Crédito: Xinhua.

Aos 86 anos, o líder da Revolução Islâmica, Aiatolá Seyyed Ali Khamenei, personificava a continuidade estratégica da República Islâmica. Para Washington e Tel Aviv, ele era fundamental para a doutrina de dissuasão do Irã, sua projeção regional e sua coerência ideológica. O ataque conjunto israelense-estadunidense ao seu complexo em Teerã, com os codinomes “Leão Rugidor” e “Fúria Épica”, foi apresentado como uma operação de decapitação. A premissa era simples: remover a autoridade máxima e desestabilizar o sistema.

Donald Trump caracterizou o ataque como “justiça estratégica”, apresentando o Irã como uma das principais fontes de instabilidade regional e alegando que a decapitação ofereceu uma vantagem inatingível por meio da diplomacia ou de sanções. Pressões internas moldaram esse cálculo. A longa relação de Trump com o financista Jeffrey Epstein ressurgiu em meio à recente divulgação de documentos do Departamento de Justiça que detalham alegações de má conduta sexual envolvendo menores. Ao longo de décadas, a caracterização de Epstein feita por Trump mudou — de comentários casuais em situações sociais, passando por um suposto afastamento, até a denúncia como pedófilo em 2024 — ilustrando o ambiente politicamente carregado em que as decisões nos EUA foram tomadas.

Para Israel, a operação passou a ser alvo de intenso escrutínio internacional. Em novembro de 2024, o Tribunal Penal Internacional emitiu mandados de prisão contra Benjamin Netanyahu e o ex-ministro da guerra Yoav Gallant por crimes de guerra e crimes contra a humanidade em Gaza. O TPI concluiu que eles usaram a fome como método de guerra, atacaram civis deliberadamente e cometeram atos desumanos, incluindo assassinatos e perseguição. Os ataques mataram mais de 71.000 palestinos, em sua maioria mulheres e crianças, devastaram a infraestrutura civil e deslocaram uma parcela significativa da população. Juristas e grupos de direitos humanos descreveram amplamente essas ações como genocídio.

Pessoas se reúnem para lamentar a morte do Líder Supremo do Irã, o Aiatolá Ali Khamenei, em Teerã, Irã, em 1º de março de 2026. A mídia estatal iraniana confirmou no domingo que seu Líder Supremo, o Aiatolá Ali Khamenei, foi morto em um ataque conjunto entre os EUA e Israel no sábado, o que levou a ataques com mísseis iranianos contra alvos israelenses e estadunidenses em toda a região. Crédito: Agência de Notícias Mehr/Divulgação via Xinhua.

Martírio e cultura estratégica

A liderança do Aiatolá Khamenei não pode ser avaliada sem compreender como a República Islâmica internaliza o conceito xiita de martírio. A Shahada não é uma “cultura da morte” simplista, nem uma rendição à autoaniquilação irracional. Trata-se de um princípio ético e político estruturado que norteia a concepção de resistência e legitimidade da República.

A tradição tem suas raízes em Karbala, em 680 d.C., quando Hussein ibn Ali, neto do Profeta, e seus companheiros foram massacrados pelas forças de Yazid após dias sem água ou comida. Esse evento estabeleceu um modelo no qual a legitimidade deriva da firmeza sob coerção, e não do sucesso militar imediato. As lições de Karbala continuam a moldar a arquitetura moral e institucional da República.

Nesse contexto, a morte em meio à resistência é uma validação, e não uma derrota. O Hezbollah e a República Islâmica institucionalizaram essa lógica. Hassan Nasrallah, assassinado em 2024, capturou sua essência: “A força e a superioridade do lutador não vêm do tipo de arma que ele carrega, mas sim de sua vontade… e de sua disposição diante da morte”. O martírio, nesse contexto, é simbólico; reforça a autoridade moral, legitima escolhas estratégicas e molda o horizonte da ação política.

Fundamentalmente, essa disposição não implica rejeição do mundo terreno. Como demonstra a pesquisa de Roxanne Euben sobre a jihad, o martírio remodela a sociedade de acordo com os princípios de justiça do Alcorão. O mujahidin pode buscar recompensa na vida após a morte, mas a luta visa simultaneamente estabelecer uma comunidade justa neste mundo. Para o aiatolá Khamenei, a resistência contra os Estados Unidos e Israel se concretizou nesses termos. O assassinato jamais funcionou como dissuasão. Dentro da imaginação moral e política xiita, o martírio fortalece a causa, valida os sucessores e concede flexibilidade estratégica. A resistência sob pressão é interpretada como confirmação histórica e moral da legitimidade.

A abordagem do aiatolá Khamenei ao martírio estava profundamente entrelaçada com a estrutura institucional. Não se tratava de um floreio retórico, mas sim de uma cultura estratégica. Disciplinava a tomada de decisões, fundamentava a doutrina da Guarda Revolucionária Islâmica e guiava a postura regional do Irã. Longe de gerar vulnerabilidade, reforçava a resiliência, permitindo que o Estado absorvesse choques enquanto projetava dissuasão.

Continuidade institucional e autonomia estratégica

A República Islâmica foi concebida para gerir as transições de liderança. O Conselho dos Guardiães supervisiona as eleições e monitoriza a conformidade política. A Assembleia de Peritos seleciona o Líder, equilibrando a legitimidade clerical com a competência estratégica. O Conselho de Discernimento do Interesse do Poder intermedia as disputas entre os ramos rivais do poder, e a Guarda Revolucionária Islâmica e outras unidades militares salvaguardam tanto a segurança interna como a posição regional da República. O artigo 111 da Constituição garante a transferência temporária de poder para um conselho composto pelo presidente, o chefe do poder judicial, o presidente do parlamento e um clérigo de alto escalão, de forma a evitar a falta de poder.

Entretanto, os apelos externos que instam os iranianos a se mobilizarem, partindo do pressuposto de que o Estado depende de uma única figura, refletem uma profunda incompreensão. Episódios históricos de fragmentação repetidamente levaram à intervenção estrangeira, moldando o sistema pós-1979 para salvaguardar a autonomia estratégica. O aiatolá Ruhollah Khomeini codificou um princípio simples: a preservação da República Islâmica é mais importante do que qualquer ocupante de cargo individual. O aiatolá Khamenei governou dentro dessa hierarquia. O sistema que ele deixa foi concebido para absorver choques, manter a coesão e garantir a continuidade em meio às transições políticas.

O ataque eliminou uma figura central. Seu impacto estrutural será medido pela resiliência das instituições que sustentam o Estado. Os erros de cálculo de atores externos — influenciados por pressões internas nos Estados Unidos, incluindo o ambiente politicamente tenso em torno de Trump, e pelo escrutínio sobre Israel — refletem uma incompreensão persistente: a República Islâmica não é um “regime” centrado em uma personalidade. Sua durabilidade reside na governança coletiva, nas salvaguardas institucionais e na visão estratégica de longo prazo, e não na presença de um único indivíduo.

Mesmo sem o aiatolá Khamenei, a arquitetura política do Irã — reforçada pelo Conselho dos Guardiães, pela Assembleia de Peritos, pelo Conselho de Discernimento do Interesse do Governo e pelas Forças Armadas — garante a continuidade. A tomada de decisões é distribuída por meio de redes institucionalizadas, consultas religiosas e revisão de segurança. A doutrina estratégica, a postura regional e a coesão interna permanecem intactas. A República foi concebida para perdurar, não apenas para sobreviver, mas para projetar estabilidade e dissuasão mesmo sob extrema pressão.

Ao avaliar o ataque, os observadores devem olhar além dos efeitos simbólicos e táticos imediatos. A resiliência da República Islâmica está enraizada em um sistema que encara a perda de liderança como um teste, não como uma crise. O martírio reforça a autoridade moral. As redes institucionais salvaguardam a capacidade operacional. A cultura estratégica garante a continuidade. A deposição do aiatolá Khamenei pode marcar um momento histórico, mas é improvável que produza o colapso sistêmico previsto pelos estrategistas estrangeiros.

Fonte: Texto publicado orginalmente em inglês no site do Tehran Times.
Links diretos: https://www.tehrantimes.com/news/524372/The-assassination-of-Ayatollah-Khamenei-A-strategic-miscalculation

Por Xavier Villar 

Tradução – Alessandra Scangarelli Brites – Intertelas

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