
Já está disponível na internet, com acesso livre e gratuito, o documentário “Brizola – anotações para uma história”, última obra cinematográfica de Sílvio Tendler (1950-2025). O longa metragem completa uma tetralogia de estadistas brasileiros, pós Era Getúlio Vargas, biografados em audiovisual pelo documentarista.
É de Sílvio Tendler “Os anos JK – uma trajetória política” (1980), sobre Juscelino Kubitschek; “Jango”, de 1984, sobre João Goulart; e “Tancredo: a travessia” (2010), sobre Tancredo Neves. Todos, assim como Leonel Brizola (tema do novo filme), políticos nacional desenvolvimentistas opositores da ditadura de 1964 a 1985, e por vezes apagados da historiografia oficial.
Em “Brizola”, notamos a estrutura narrativa e a estética que marcam a filmografia de Sílvio Tendler. Autoral (e contundente) texto narrado em of record; colagem de imagens de arquivos; entrevistas contemporâneas (quase todas em cenário neutro, padrão) estão entre esses elementos. E há novidades.
A narração, além da voz do ator Eduardo Tornaghi, presente em outras obras do documentarista, é compartilhada com as atrizes Ítala Nandi e Júlia Lemertz. A triangulação dá fluidez e leveza à narrativa propriamente dita. Chama a atenção também a onipresença de desenhos, reproduzindo fatos e passagens relatados pelas personagens em suas entrevistas. As ilustrações, assinadas por Carlos Lopes e Renan Henrique Carvalho, temperam artisticamente o documentário – que, pela natureza do tema e pelo perfil biografado, por vezes aborda momentos duros da vida nacional.
Brizola aparece em diversos momentos, por meio de trechos de pronunciamentos em entrevistas e outros eventos públicos. A maior parte dos relatos vem de uma histórica palestra proferida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em 1987, e das não menos icônicas performances do político no programa Roda Viva e em debates em campanhas à Presidência da República, em 1989.
Das aparições de Brizola, as mais comoventes talvez sejam trechos de uma entrevista concedida em 2003, portanto no ano em que antecedeu o de sua morte. Vemos um Brizola com uma fisionomia mais cansada, de empostação menos eloquente, contudo com a mesma lucidez e coerência que caracterizaram seus discursos e posicionamentos.
O título – “Brizola – anotações para uma história” – traduz com precisão o que filme conta, e também o que o líder trabalhista representa para a vida brasileira. Porque, do menino pobre do interior do Rio Grande do Sul a quase, por pouco mesmo, presidente da República, Brizola foi empreendendo legados – deixando, assim, seus apontamentos para a história. O documentário, por sua vez, resgata, reúne e compartilha ‘anotações’ colhidas ao longo do tempo pelo documentarista para, um dia, contar aquela história. E contou. Para sorte da gente.
O filme, concluído em 2024, de lá para cá foi selecionado para exibição em pelo menos cinco mostras e festivais. Dentre eles, o Festival do Rio e a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. No 14º Festival Internacional de Cinema em Balneário Camboriú obteve o Prêmio Engrenagem: Melhor Longa-metragem Nacional. O lançamento para o público em geral, na internet, ocorreu em 1º de maio último, pelo canal da Caliban (produtora de Sílvio Tendler) no YouTube (https://www.youtube.com/@calibancinema), onde segue disponível na íntegra.

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