Memória, resistência e Imprensa Negra ganham as telas em “Árvore das Palavras”, documentário de Sil Azevedo

Astrogildo e Yedo Ferreira. Crédito: Divulgação.

“Árvore das Palavras”, produzido pela C41 WebStudio e dirigido por Sil Azevedo, fotógrafa, documentarista e escritora, chega ao público em avant-première no dia 6 de outubro, às 18h, no Sesc Tijuca, com entrada gratuita. Selecionado pelo edital Sesc Pulsar, o curta-metragem funciona como uma primeira janela para o universo do longa-metragem homônimo, que já está em fase de produção pelas produtoras Destemida Filmes, sob a direção de Juliana Soares e Sil Azevedo, da C41 WebStudio. Juntas elas unem esforços e suas trajetórias para levar às telas uma história que também dialoga com os caminhos que escolheram construir no cinema.

A obra resgata a história de três homens negros que atuaram na resistência durante a ditadura militar e reafirma a memória como instrumento de luta pela democracia no Brasil. Com direção refinada e uma abordagem híbrida, “Árvore das Palavras” reúne depoimentos, entrevistas, imagens de arquivo e elementos ficcionais. A linguagem escolhida por Sil Azevedo articula cinema, memória, identidade e questões sociais, construindo uma narrativa que aproxima experiências individuais de uma história coletiva.

“O filme contextualiza a importância histórica da Imprensa Negra e do movimento negro dos anos 1970, como resistência à ditadura e como frente de luta contra a repressão militar. Ao revisitar essas histórias, ‘Árvore das Palavras’ transforma a memória em uma ponte entre gerações e reafirma a cultura e o cinema como espaços de escuta, reflexão e preservação de uma história que não pode ser esquecida”, afirma Sil.

Crédito: Divulgação.

Percursos e Árvore das Palavras

Com uma trajetória dedicada à produção audiovisual e à criação de conteúdos voltados ao empoderamento de mulheres negras, à comunidade LGBTQIA+ e às populações periféricas, Sil Azevedo vem construindo uma filmografia atravessada por temas como identidade, memória, afetos, território e resistência.

Em paralelo está produzindo “Percursos”, seu primeiro longa-metragem, em parceria com a RioFilme. Ambientado no Morro da Providência, no Rio de Janeiro, o filme aborda as relações de afeto em uma família negra e, a partir das experiências de seus personagens, lança um olhar sobre pertencimento, ancestralidade e vínculos. Essa mesma perspectiva de valorização das histórias negras e de suas múltiplas formas de resistência atravessa “Árvore das Palavras”. Se em “Percursos” o afeto e o território revelam as experiências de uma família, no novo documentário a memória e a palavra tornam-se ferramentas para recuperar uma história coletiva de resistência negra e de luta pela democracia.

Memória, resistência e democracia

Mais do que um registro audiovisual, “Árvore das Palavras” se constrói como um encontro entre memória, palavra e resistência, lançando luz sobre trajetórias marcadas pela luta contra o racismo e em defesa da democracia. É também um tributo aos Pioneiros, uma homenagem aos ativistas que estiveram na linha de frente da luta por igualdade racial e justiça social no Brasil e que ajudaram a abrir caminhos para as conquistas das gerações seguintes.

Astrogildo e Ivanir dos Santos. Crédito: Divulgação.

Quatro décadas após a redemocratização do Brasil, três homens negros que produziram clandestinamente o jornal “Árvore das Palavras” durante a ditadura militar partem em busca dos antigos companheiros que participaram dessa história. Ao reencontrá-los, revisitam memórias, afetos, conflitos e sonhos de uma geração que fez da palavra uma ferramenta de resistência e transformação. Entre reencontros, memórias e arquivos, o documentário acompanha, no presente, Astrogildo Esteves Filho, Rafael Pinto e Adão Oliveira, revelando os vínculos, afetos e redes coletivas que contribuíram para a construção da resistência negra e para a luta pela democracia no Brasil.

A obra recupera histórias e vozes que ajudam a compreender a importância de preservar a memória daqueles que enfrentaram períodos de autoritarismo e se mobilizaram pela construção de uma sociedade democrática. Em um momento em que a disputa pela memória também se torna uma disputa pelo futuro, “Árvore das Palavras” propõe escutar, lembrar e compartilhar experiências que não podem ser apagadas. O documentário transforma relatos e lembranças em matéria viva, reafirmando a cultura como espaço de reflexão, diálogo e construção coletiva.

A voz ativa de Astrogildo

“Astrogildo continua sendo uma voz ativa na defesa da democracia e dos direitos humanos, inspirando novas gerações a seguir seu legado de resistência e transformação social”, afirma Sil. “O fio condutor é Astrogildo Esteves Filho, jornalista, intelectual e ativista, cujas memórias pessoais e depoimentos são entrelaçados com imagens de arquivo e cenas ficcionais lúdicas que recriam momentos emblemáticos”, conta Sil Azevedo.

Crédito: Divulgação.

A diretora explica que a trajetória de Astrogildo também é atravessada pela relação com o pai, funcionário público, e pelo contexto familiar fez com que ele mantivesse em segredo sua participação no movimento. “A relação de Astrogildo com seu pai é apresentada no documentário como um ponto explorando o contraste entre as perspectivas do pai, um homem de classe trabalhadora, e as do jovem universitário, que foi levado a questionar o papel do jornalismo e a necessidade de dar voz às lutas raciais e de classe”, afirma a diretora.

Segundo Sil, a abordagem híbrida do filme, que combina documentário, imagens de arquivo e elementos ficcionais, permite acompanhar os três personagens centrais em uma busca, no presente, pelo que ainda permanece vivo, sem deixar de resgatar a trajetória coletiva e combativa de uma geração que lutou pela igualdade e pela afirmação da identidade negra no Brasil.

Uma pílula do longa-metragem

 A seleção pelo Sesc Pulsar amplia a circulação e a potência de “Árvore das Palavras”. O curta funciona também como uma pílula do futuro longa-metragem de mesmo nome, que pretende ampliar a narrativa e aprofundar a discussão sobre a luta histórica contra o racismo no Brasil. A obra, produzida pela Destemida Filmes, sob a direção de Juliana Soares e Sil Azevedo, da C41 WebStudio, aproxima o público de uma narrativa que articula cinema, memória, identidade, resistência e cidadania, recuperando histórias que permanecem fundamentais para compreender a trajetória da população negra e a construção da democracia brasileira.

Eliza Larkin Nascimento, Sil Azevedo e Astrogildo Esteves Filho. Crédito: Divulgação.

Entre essas histórias está a do Movimento Negro Unificado (MNU), uma das mais importantes organizações da luta antirracista no Brasil, em atuação contínua desde o período da redemocratização. Fundado em 1978, originalmente como Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial (MNUCDR), o movimento ganhou projeção nacional em 7 de julho de 1978, quando cerca de duas mil pessoas se reuniram nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, em plena Ditadura Militar, em protesto contra o assassinato sob tortura do trabalhador negro Robson Silveira da Luz pela polícia e contra a discriminação racial.

Entre os nomes que participaram da fundação e da articulação do movimento estão Milton Barbosa e Rafael Pinto, personagens do curta-metragem e documentário, além de Hamilton Cardoso, Flávio Carrança, Lélia Gonzalez e Abdias do Nascimento. Ao longo de sua trajetória, o MNU esteve ligado à mobilização por direitos da população negra e a pautas que chegaram à Constituição de 1988, à Lei nº 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, e às políticas de ações afirmativas, incluindo a Lei de Cotas (Lei nº 12.711/2012). “Árvore das Palavras” é assim, um convite à escuta e à memória, para que as palavras daqueles que lutaram não sejam silenciadas e para que suas histórias continuem circulando entre as novas gerações.

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