Roteiro e a teoria de Ernest Hemingway

Escreva toda história como se fosse um filme de suspense. Essa é uma das lições mais importantes na escrita cinematográfica. Costurar uma história para dentro, sem deixar pontas soltas é, de longe, a tarefa mais sofisticada do roteirista. Essa equação não é restrita aos filmes de terror ou suspense. Tal ferramenta é válida para todos os gêneros, pois como se sabe, um roteiro é construído com mistérios e revelações. Para dominar essa dinâmica é preciso recorrer aos mestres.

“Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas”. Federico García Lorca

Alfred Hitchcock é considerado o “pai do suspense” no cinema por contar uma história com genialidade através do mistério. Ao não entregar a narrativa, Alfred convida os espectadores para participarem da viagem visual. Muito já se disse sobre Hitchock e a sua forma de fazer cinema já é um cânone. É por isso que suas obras atuam como ferramentas para novos escritores e roteiristas. Alfred era um grande conhecedor da escrita cinemática, pois atuava como um trabalhador do cinema. Talvez por isso construiu filmes tão inovadores e populares. Ele estava dentro do jogo. Mas o que deve ser apreendido do seu processo de criação é que ele sabia esconder a história. Esse mecanismo é muito importante no roteiro, pois é a segurança de que, além de estrutura, a história terá potencial para se desenvolver dentro de um formato. É um exercício poderoso, sobretudo para um público acostumado a ter tudo entregue. A narrativa da novela é altamente prolixa e detalhista, e existem motivos relevantes para que isso ocorra. O que não pode acontecer é ter esse modelo de comunicação nos filmes. Cuidado: um filme prolixo pode ser texto de teatro.

“Estilo é plagiar a si mesmo”. Alfred Hitchcock

Seguindo os ensinamentos dos mestres, Ernest Hemingway é outro pilar fundamental para criação de roteiros com densidade narrativa. Ele se destaca como um dos maiores e mais influentes escritores do século XX e se sobressai, dentre outras qualidades, por dominar a técnica da síntese. Ernest afirmava que a prática da escrita lhe ajudou a desenvolver uma forma de escrever que lhe proporcionou uma qualidade máxima de intensidade e tom, mesmo com o mínimo possível. Foi com esse trabalho que o escritor desenvolveu a “Teoria do Iceberg”, conforme explica em “The Art of the Short Story”:

“Há algumas coisas que eu encontrei para ser verdadeiro. Se você deixar as coisas importantes ou eventos que você conhece, a história é reforçada. Se você deixar ou ignorar algo, porque não o sabe, a história se torna inútil.”

“Querer fazer frases bonitas é tão miserável como querer ser coerente”. Rubem Fonseca

Ernest Hemingway explica que, ao esconder a história, envolvendo o leitor na dinâmica do mistério, a narrativa ganha força para gerar comoção. Isso é o que ele diz ser “verdadeiro”. Em relação à construção, Ernest se comporta de uma forma muito parecida com o mecanismo de pensamento de Allan Poe. Em “A Filosofia da Composição” (1846), o “mago do terror” afirma que a escrita é calculada. Tanto Poe quanto Ernest constroem a narrativa de maneira arquitetada, afim de apontar para uma composição que faça sentido, tenha lógica e sustente um argumento. Esse é o mesmo raciocínio para o roteiro cinematográfico. Nenhuma ação inserida deve ser desmotivada. Cada palavra possui uma força que acena para um rumo, um destino, que em escrita cinemática denomina-se clímax: o resultado-esperado-construído. E assim segue a teoria. Um iceberg só deixa à mostra 1/8 de seu corpo. Isso significa que muita estrutura está escondida abaixo do mar. O mesmo deve ser na história de um roteirista. Deve-se escrever a ponto de gerar curiosidade para se desbravar o que está nas profundezas. Diante disso, o roteirista pode revelar mais ou menos, dependendo do tom de sua narrativa, para guiar o olhar de seus espectadores.

“Quando as coisas se tornam difíceis, isto é o que você deve fazer: uma boa arte”. Neil Gaiman

A intensidade Ernest influenciou o cinema por apontar uma forma criativa de contar histórias, revelando os conflitos aos poucos e causando uma experiência cinematográfica no público. A sua forma de “esconder a história” ajudou a sedimentar a força do clímax nos cursos e manuais de roteiro pelo mundo. Suas obras literárias foram adaptadas para o cinema colaborando para a popularização de seu nome. Filmes como O Velho e o Mar (The Oldman and the Sea – EUA/1958) e Uma Aventura na Martinica (To Have and Have Not – EUA/1944) são considerados clássicos do cinema.

A teoria de Ernest Hemingway também foi conhecida como “teoria da omissão”, onde o texto escrito aponta para ângulos diferentes. Dessa maneira, o leitor poderá fazer sua avaliação da história contada. É a chamada narrativa multidimensional, na qual há a “participação” de quem lê. Essa compreensão sensitiva oferece mais bagagem para que a equipe audiovisual faça escolhas corretas e dê valor cinematográfico à obra. O que se posiciona na teoria é a intensidade escolhida por Ernest para escrever histórias verdadeiramente envolventes. No fim, o exercício está dito: a escrita é um iceberg, no qual as palavras estão emersas, apenas à vista, e a imaginação do público mergulhada no mar da criatividade.

Jussan Silva e Silva
Produtor, graduado em Direito pelo Mackenzie e especializado em Direito do Entretenimento pela UERJ. Integrante da Iladisc – Iniciativa Latino Americana de Direito, Sociedade e Cultura.

Animação sobre a obra “O Velho e o Mar” (1999), direção de Aleksandr Petrov

O documentário “Rios correm para o mar” (2012), dirigido por Dewitt Sage

“Papa Hemingway in Cuba” (2015), dirigido por Bob Yari

 

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