A Revolução de 1917 para além de Eisenstein: o épico REDS

Diane Keaton e Warren Beatty vivem o casal John Reed e Louise Bryant em Reds (1981). Crédito: IMDb.

Aproveitando o centésimo aniversário da revolução soviética, revisitei o épico “Reds” (1981), escrito, produzido e dirigido por Warren Beatty, então um dos homens mais poderosos de Hollywood. O roteiro descreve os últimos anos da vida de John Reed, autor do célebre livro “Os 10 dias que abalaram o Mundo”, sobre a Revolução Bolchevique de Outubro de 1917. Livro provavelmente mais conhecido fora do que dentro dos EUA, seu país de origem. O filme preocupa-se em recriar a atmosfera dos intelectuais estadunidenses de esquerda da época, como o poeta e autor teatral Eugene O’Neill (interpretado por Jack Nicholson), todos pertencentes ao círculo de amizades de Reed.

O filme também investe no relacionamento entre Reed e sua companheira Louise Bryant (Diane Keaton em plena forma), artista plástica e escritora estadunidense, e nos dilemas vividos pelos dois, “presos” num relacionamento tipicamente convencional, estabelecendo um choque com suas visões políticas e comportamentais. Mesmo compreendendo a necessidade de estabelecer uma tensão romântica para atender a demanda do público médio, Beatty e Keaton formam um belo par nas telas, e a dinâmica entre eles é perfeita.

Impressiona mesmo é compreender o que significou levantar as condições materiais e artísticas necessárias para levar esse épico de quase 195 minutos, sobre um jornalista radical, fundador do partido comunista dos EUA, participante ativo dos primeiros momentos da revolução Bolchevique, em plena era Reagan, notória pelo seu grande conservadorismo político e comportamental. Aliás, na era Reagan, a paranoia anticomunista ganha novo fôlego, influenciando, inclusive, grande parte da produção de Hollywood naquela década. Para conseguir produzir o filme, Warren Beatty usou toda a sua influência e poder, dentro de Hollywood, no intuito de conseguir levar a cabo um projeto tão estranho (e suspeito) aos olhos estadunidenses.

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O filme, mesmo crítico do totalitarismo soviético, já presente nos primeiros anos da revolução, critica o capitalismo (e a própria democracia ocidental) como talvez poucos filmes estadunidenses (antes e mesmo depois de “Reds”). E, de quebra, tem toda uma sequência dedicada a Internacional Socialista, escutada em vários momentos do longa. O pensamento radical de Reed é tratado com respeito e altivez, ainda que a expressão facial de Beatty ajude na construção de uma certa inocência do jornalista, que é ressaltada pelo filme após seus conflitos com os burocratas do Partido Bolchevique.

Depoimento de Henry Miller em Reds (1981). Crédito: IMDb.

Do mais, “Reds” apresenta-se como o tipo produto cinematográfico dos anos 80, dos chamados filmes “sérios” e “oscarisáveis” de então: longo (mais de três horas de duração), com requintada reconstituição de época e tom épico. Destaca-se a fotografia de Vittorio Storaro e seus grandes e lindos planos abertos, próprios de um filme com essas características. A edição, assinada por Dede Allen também chama atenção, com cortes inteligentes e bem construídos, que tornam a narrativa sempre interessante e sedutora, ainda que o primeiro ato possa ser “acusado” de longo em demasia (quando o filme procura descrever a personalidade público e privada de Reed, além dos amigos pertencentes ao círculo de intelectuais).

O ator e diretor Warren Beatty e o fotógrafo Vittorio Storaro nos bastidores de Reds (1981). Crédito: IMDb.

Fazendo uso do testemunho de pessoas que conheceram Reed e Louise, com opiniões críticas e favoráveis ao papel histórico do casal, o filme ganha em veracidade, ainda que nem sempre os testemunhos forneçam informações relevantes para a percepção do público sobre os personagens, estendendo, talvez com algum excesso, a duração do filme. 

Mesmo assim, o filme não perde sua força. De quebra, mostra uma impressionante direção de Warren Beatty, adicionando emoção ao seu épico, bebendo na fonte de mestres do gênero, como David Lean.  Ganhou o Oscar de Direção em 1981, com merecimento.

Fonte: texto originalmente publicado no site do O Beco do Cinema
Link direto: https://obecodocinema.wordpress.com/2017/11/03/a-revolucao-de-1917-para-alem-de-eisenstein-o-epico-reds/

Título: Reds
País: EUA
Direção: Warren Beatty
Roteiristas:  Warren Beatty, Trevor Griffiths
Elenco:  Warren Beatty, Diane Keaton, Edward Herrmann, Jack Nicholson, Gene Hackman, Maureen Stapleton, Maureen Stapleton e outros.
Duração: 3h15min
Lançamento: 25 de dezembro de 1981
Idioma: inglês, russo, alemão, francês, finlandês e italiano 
Legendas: português

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