A história que a Coreia do Sul tem a oferecer para a juventude

Cena do filme “Resistance: The Yoo Kwan-soon Story”. Crédito: Han Cinema.

“Pela primeira vez em milhares de anos, sofremos a agonia da opressão estrangeira por uma década, tornando-nos vítimas das políticas de agressão e coerção, que são vistas como relíquias de uma época passada. Por quanto tempo fomos privados do nosso direito de existir? Quão mais nosso desenvolvimento espiritual foi dificultado? Há quanto tempo às oportunidades de contribuir nossa vitalidade criativa para o desenvolvimento da cultura mundial nos foi negada?”

O trecho descrito acima está presente no segundo parágrafo da Declaração de Independência de 1919, pregada por manifestantes e estopim do Movimento 1º de Março de 1919 na Coreia. Esse movimento teve inicio com a assinatura do tratado na Conferencia de Paz de Versalhes em janeiro de 1919, concedendo a libertação de diversas colônias ao redor do mundo. Não demorou muito para que grupos de resistência e intelectuais dentro ou fora da colônia coreana começassem a organizarem-se pelo pedido de independência da Coreia. As influências e discussões sobre a questão motivaram atividades pacificas pelo acordo de desligamento com o Japão.

Porém, com a morte do então Rei Gojon da Coreia, e a desconfiança de que foi assassinado por japoneses, que, então, tinham  simularam um suicídio, os grupos nacionalistas encontraram a oportunidade perfeita para dar voz ao movimento. Assim, em 1º de março de 1919, aconteceu a leitura da declaração de independência, que um integrante entusiasmado fez copias e espalhou pelas ruas de Seul.

Desta forma, atos pacíficos contanto com aproximadamente um milhão de pessoas, alastraram pelas cidades coreanas em função da independência. Contudo, a polícia militar japonesa procurou evacuar as ruas e prender manifestantes. Esses presos foram levados para Seodaemun Prision – uma prisão para membros de grupos de resistência ou qualquer individuo que se voltava contra a imposição japonesa. 

Ilustração sobre o ‘Movimento 1º de Março’ na Coreia. Crédito: Nedforney

Estamos hoje em 2019 e a Coreia foi colonizada por 35 anos, seguido de uma guerra civil e a separação nacional com a Guerra da Coreia. São então cerca de 51 anos de tumultos até a tentativa de reorganização republicana nos anos 1960. Mas voltamos ao trecho da declaração de independência que abre esse texto. “Por quanto tempo fomos privados do nosso direito de existir?”. A questão retornou ao presente com a Comissão Presidencial sobre o Centenário do Movimento de Independência 1º de março. A preservação da memória e história sempre foi um ponto importante para a Coreia do Sul destacar-se mundialmente como uma nação soberana, após a divisão nacional em 1953.

Desde então, a história escrita por historiadores nacionalistas destacavam as truculência sofridas com a colonização e invasão das duas ideologias que por fim separaram a nação. De certo modo, a despeito do tom vitimista que a escrita da História da Coreia Contemporânea possa contêr, ressalto o valor de orgulho semeado através das narrativas históricas. Valores destacados principalmente em suas diversas formas de arte: a música, o teatro, o cinema, as novelas coreanas (k-drama) e a literatura. Em todas há a ligação com o passado, com a história e, principalmente, na formulação das histórias, há um elemento comum entre os personagens que não demonstram medo de resistir aos opressores estrangeiros e imperialistas, denunciando em suas memórias em comum.

Por isso, visitar o Museu de História da Prisão Seodaemun torna-se indispensável para iniciar o roteiro de volta ao 1º de março. O museu foi construído para ser uma prisão de coreanos que se voltassem contrarios à colonização, local de julgamentos, torturas e execuções. Seodaemun Prision History Hall foi construído em ordem de rememorar a prisão de Seodaemun e homenagear os patriotas coreanos. Nas instalações originais, é possível caminhar pelas celas, contar com um hall de exibição, solitárias e salão de julgamento e execução.

Seodaemun Prision. Museu histórico em memória de presos durante a ocupação japonesa. Crédito: seulguide

Houve, na Coreia do Sul, muito investimento para construir museus de diversos tipos. Museus temáticos são muitos, mas os museus de história foram pensados na interação do público com o passado. Houve investimento de tecnologias para que o indivíduo possa sentir-se de fato como parte do passado através da visão, audição e o tato. Aos turistas que visitarem a Coreia do Sul, têm a oportunidade de viver as experiências dispostas nos museus.

Entretanto, para a juventude que está tão distante dos acontecimentos do século XX, a forma de conecta-los ao passado, à história, foi encontrada pela Comissão que organiza a comemoração do centenário 1° de março. Esta promoveu o lançamento da música hip-hop “My Land” do artista BeWhy, que conta com um clipe e uma letra, promovendo a liberdade coreana contra o Japão. Acompanhe com legendas em inglês disponivéis no CC:

Destacamos também o lançamento do filme “A Resistance. The Yoo Kwan Soon Story” que narra a história da ativista Yoo Kwan Soon que foi presa e torturada devido sua participação no Movimento 1º de Março de 1919. Yoo Kwan é conhecida como uma das mais importantes ativistas da resistência e adorada como uma verdadeira heroína para as gerações posteriores. Em março, está marcado o lançamento do musical “Hero”, produzido pela Power Entertainment. O musical narra o último ano de vida do ativista nacionalista An Jung Geun, e todo contexto em que planejava assassinatos em busca da liberdade de seu país.

Porém, desde 2018 as produções artísticas da Coreia do Sul estão espalhando os lembretes do que sofreu com a colonização japonesa. As novelas disponíveis na plataforma Netflix “Mr. Sunshine” e “Louvor a Morte” são dois drama distintos: um com enfoque na formação do Exército dos Justos (grupo de resistência nacional anterior à oficialização da colonização) e o outro do romance entre dois jovens coreanos que tinham em comum o sonho de voltar à península coreana, levando a voz de liberdade e esperança aos seus compatriotas.

Kim Tae-ri interpretando a personagem Ko Ae-shin em “Mr. Sunshine.” Crédito: KoreaTimes

A Coreia do Sul desenvolveu-se, sua tecnologia, hoje, alcança níveis extraordinários e as produções artísticas são parte de um processo muito distante do que se podia imaginar em 1926, quando o primeiro filme nacional coreano foi produzido. Em “Arirang”, o estudante universitário Young Jin, que enlouqueceu após ser preso e torturado pelos japoneses por seu envolvimento no protesto de 1º de março 1919. Porém, histórias diferentes contam com a mesma amargura o que a nação não pretende esquecer de forma alguma. Há denuncia, há sentimentalismo, há o desejo de reparação e motivação ao reforçar estas memórias.

Deduzimos que mesmo nos últimos 90 anos, a Coreia insiste em narrar sua história e fazer suas memórias persistirem. No presente, há o intuito ainda mais forte de consolidar a mémoria, não deixando a juventude esquecer este passado. Boa ou ruim, a História deve exigir a reparação e não apenas do Japão. E fazendo jus ao narrado em sua Declaração agora a Coreia finalmente tem as “oportunidades de contribuir a vitalidade criativa para o desenvolvimento da cultura mundial que nos foi- antes -negada”.

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