O sushi dos sonhos de um cinéfilo

Cena do filme “O Sushi dos sonhos de Jiro” (2011). de David Gelb Crédito: pbs.org

Uma pequena pérola ainda está escondida entre tantos milhares de filmes distribuídos pelo catálogo do Netflix. Chama-se “O Sushi dos sonhos de Jiro” (Jiro Dreams of Sushi), de 2011. Dirigido por David Gelb, o filme é um pequeno e sensível painel da cultura japonesa. Somos apresentados ao mestre do sushi Jiro Ono, autor do mais famoso e respeitável sushi do Japão e aclamado com o prêmio do Guia Michelin. Seu restaurante é minúsculo (não mais do que 10 pessoas podem ser servidas ali), a decoração é espartana e ele fica localizado no que parece ser o subterrâneo de um prédio comercial ou mesmo uma estação de metrô.

As refeições são caras e ultrapassam os R$1.500,00. E a fila de espera para reservar um lugar chega a quase 1 ano. O sucesso, na acepção mais tola da palavra, não faz a cabeça de Jiro, nem do seu filho e herdeiro, Yoshikazu. A devoção à arte da tradicional culinária japonesa move esses homens. A dedicação requerida para trabalhar no restaurante e preparar a comida é de aproximadamente dez anos. Num momento onde as pessoas não suportam esperar minutos, o sacerdócio daquelas pessoas para uma prática tão milenar soa exagerado (e até bizarro para alguns). Mas é o tempo necessário para a conquista da experiência e da sabedoria necessária para merecer trabalhar naquele lugar.

Crédito: Academia da Marca.

As refeições caras são claramente compreendidas por todos. Elas refletem (e se justificam) no zelo quase monástico de uma família, e seus ajudantes, na preparação de uma comida que ganha status e condição de obra de arte. A gestão capitalista passa longe dali. Jiro e seu filho não querem expandir o restaurante. Pelo contrário, contam os anos para incorporar e refinar técnicas. Dessa forma, tornaram-se cada vez melhores. Nada pode ser mais japonês.

O diretor utiliza música erudita para claramente emoldurar o cuidado daqueles homens, alçando-os à condição de gênios. Logo, um concerto de Mozart ou uma fuga de Bach dão uma sonoridade ao mesmo tempo solene e sensível às cenas. E ainda que possamos até criticar o emprego da música de forma nada original, o seu resultado é bastante funcional.

“Você deve apaixonar-se por seu trabalho”, cena do filme “O Sushi dos sonhos de Jiro” (2011). de David Gelb Crédito: HuffPost.

O filme é sobre o amor ao trabalho. O amor ao detalhe e as pequenas coisas. Aos gestos ensaiados e sensíveis, que repetidos através dos anos, ganham ares meticulosos e quase religiosos. O filme é também um pequeno retrato cultural do Japão atual, e a tensão permanente entre modernidade e tradição. A modernidade, seguindo o curso deselegante do capitalismo de massas, se expressa no mercado de peixes quase industrializado, onde a aparente fartura esconde grande pecados ambientais: atuns cada vez menores sendo pescados, escassez ou mesmo ausência de determinados peixes e frutos do mar.

O mar, esse velho conhecido do Japão, demonstra estar cansado. Às vezes, furioso. Na volúpia consumista do homem moderno, come-se como respira. E mesmo o país disciplinado não respeita mais o balanço da natureza e seus elementos. A furiosa e deselegante modernidade, contudo, encontra uma barricada resistente e sólida no pequeno, diminuto restaurante de Jiro.

“Sempre fazer o que lhe mandam não quer dizer que você será bem-sucedido”, cena do filme “O Sushi dos sonhos de Jiro” (2011). de David Gelb Crédito: Tumblr.

Percebemos ali, que com ele (um velho muito saudável de 85 anos – em 2011) envelhece toda uma forma e cultura de preparação de sushi, de concepção de cozinha, tão cerimoniosa, como prazerosa. Todos os melhores fornecedores de Jiro são igualmente velhos: vendem o melhor peixe e o melhor arroz. São resistentes e teimosos. São abordados por redes de hotéis que gostariam de ter aquele sabor em suas mesas assépticos. E aqueles velhos, marotamente, tal qual um filme de Yasujiro Ozu, dão de ombros. Uma resistência romântica.

Esse pequeno filme também é sobre resistência. Contra a globalização mais arrogante e a esmagadora indústria cultural, que transformou a comida e seus “chefs” em protagonistas e sábios de auditório. A câmera aproxima-se de Jiro (ou mesmo de seu filho), e o que ela consegue extrair desse homem é uma relação simples e por isso mesmo, poderosa, do seu ofício. Sem elaborações ou “pobres” sofisticações. Um homem duro. Duro com a vida e na educação dos filhos. Que não estudou e pediu que os filhos abdicassem da universidade para ajudá-lo no restaurante. Sobretudo, para carregar seu legado.

Cena do filme “O Sushi dos sonhos de Jiro” (2011). de David Gelb Crédito: The New York Times.

Nos tempos atuais, onde as pessoas são sequiosas por protagonismos superficiais e descartáveis, a distinção do pequeno restaurante de Jiro está na sua sofisticadíssima simplicidade. Nos gestos precisos e respeitosos. As cenas que mostram a preparação dos alimentos, antes de despertarem o desejo e a fome, comovem. São pequenos quadros emoldurados que se destacam em meio a vidas irrequietas e sem virtudes. Pequenas peças musicais.

No final do comentário, o diretor investe em Philip Glass. Sua música minimalista combina com a cultura japonesa; a beleza de suas composições reside nas pequenas variações de suas frases musicais incansáveis, como podemos conferir em “Mishima” (1985), filme de Paul Schrader. Uma produção cinematográfica que me deu uma extraordinária fome de vida, de encontrar significados para ela, da beleza sapiente da simplicidade e da ojeriza ao barulho e aos bufões. Um filme para comer com os olhos e o coração.

Fonte: texto originalmente publicado no site do O Beco do Cinema
Link direto: https://obecodocinema.wordpress.com/2016/01/06/o-sushi-dos-sonhos-do-cinefilo/

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