Eu Vazo, Tu Vazas, Ele Vaza?

Crédito: Conversa Afiada.

Nos últimos quinze dias a sociedade brasileira tem sido sacudida pelas revelações do jornal eletrônico The Intercept Brasil (ITB). As informações mostradas tratam das relações pouco republicanas entre os membros da “Operação Lava-Jato”. O ITB tem revelado como os procuradores do Ministério Público Federal (MPF) e o juiz federal Sérgio Moro agiram em conluio, ferindo o Código de Postura da Magistratura para condenar uma série de pessoas, sendo a principal delas o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As informações publicadas parecem casar com o processo de Guerra Híbrida que o Brasil passou a ser alvo a partir de 2013, primeiro com as Jornadas de Junho, depois com o impedimento da presidenta Dilma Rouseff em 2016 e por fim, a prisão do candidato favorito nas pesquisas, o ex-presidente Lula em 2018.

As informações até agora reveladas colocam em dúvida a isenção do juiz Moro, que agora atua como Ministro da Justiça do governo de Jair Bolsonaro, principal beneficiado com a prisão de Lula. As notícias dão conta de uma ação orquestrada de lawfare, para evitar que Lula disputasse as eleições presidenciais. Ainda dão conta também de um suposto apoio dos estadunidenses e de setores da mídia brasileira na montagem desse arranjo criminoso. O jornalista Glen Greenwald já confirmou possuir um material extenso, disse ter cópias de conversas realizadas por intermédio do aplicativo Telegram, que compreendem o período de 2015 a 2017. Incluindo textos, vídeos e áudios, que denotam uma intimidade fora do comum entre o juiz Sérgio Moro e os procuradores da República.

Glenn Greenwald (segundo da diretita para a esquerda) foi à Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados para audiência pública e debater os fatos divulgados sobre a Operação Lava Jato. Crédito: Fernando Bola/GGN.

Desde o início das revelações, os setores governistas e os integrantes do judiciário federal têm sustentado explicações confusas e algumas vezes contraditórias. A Polícia Federal encarregada de investigar o caso ainda não se manifestou. As áreas de inteligência civil e militares, também não se manifestaram sobre o assunto. A explicação padrão dada pelos envolvidos tem sido que um hacker invadiu os telefones celulares (em especial do procurador Deltan Dallagnol) a fim de desacreditar a Operação Lava- Jato e possivelmente, tentar anular a condenação do ex-presidente Lula. A origem de tudo seria “os russos”.

Temos nesta condição uma guerra de informações que está gerando tanta confusão quanto o caráter das conversas reveladas, que até agora não foram desmentidas pelos acusados. A tese de que um “hacker russo” tenha invadido o Telegram é pouco provável, primeiro porque o Telegram não é suscetível a esse tipo de ataque. O referido aplicativo trabalha com um tipo de proteção em camadas, o tornando até o momento um aplicativo a prova de penetração. O “russo”, se existe, não age em nome do governo russo, que tem no nacionalismo do presidente Vladimir Putin, um pragmatismo que cabe tanto um governo comandado por Bolsonaro, quanto por Hamilton Mourão. Não existe nenhuma afinidade partidária e ou ideológica entra o governo russo e as esquerdas brasileiras.

Sérgio Moro (esq.) e Deltan Dallagnol (dir.). Crédito: Poder360.

Isto é, o Partido dos Trabalhadores (PT) e seus aliados nunca combinaram nada com os russos, pelo contrário. Os dois governos Lula estabeleceram relações estritamente comerciais com os russos, dentro de um campo plural. Não houve nenhuma ação preferencial ou de favorecimento a partir de uma demanda estratégica com o governo russo. A montagem dos BRICS foi uma tentativa de edificação de um novo bloco econômico, repito, econômico e não político. A ideia central era dar conta das demandas próximas, ou comuns, dentro do escopo econômico e financeiro.

Questões políticas, sociais e militares nunca interessaram ao PT encaminhar com os russos (isso mostra a fraqueza do PT diante do imperialismo). Como foi também no Mercado Comum do Sul (Mercosul) e na União de Nações Sul-Americanas (Unasul), onde o PT e seus aliados trataram as relações internacionais como um primado econômico e financeiro. Nos dois governos Dilma a coisa foi ainda pior, já que a mesma revelou não ter uma política internacional voltada para o combate da dependência, coisa que o Lula foi um pouco mais enfático, mas longe de alinhar o PT a qualquer proposta russa de formação de bloco no âmbito das relações internacionais.

O grande potêncial estratégico político e econômico que os BRICS poderiam representar ao Brasil não foi totalmente desenvolvido pelo PT e atualmente, o papel do Brasil no grupo pode ser inexistente. Crédito: slideplayer.com.br

Outra hipótese pouco viável é a de “um hacker”, já que a quantidade de material vazado e o corte cronológico dos mesmos se sobrepõem a ação de uma única pessoa. O que está evidente é que o alvo prioritário dos vazamentos tem sido o procurador Dallagnol, o mesmo que consulta os estadunidenses para saber o que fazer. O referido procurador também tem ligações com grupos neopentecostais da direita estadunidense, além de frequentemente ir aos Estados Unidos estudar. O vazamento aponta para a ação de um grupo, uma divisão, ou um setor de uma Agência de Informação. O respectivo aplicativo é tão seguro, que foi proibido na Rússia e no Irã em 2018, por ser impossível de ser acessado pelos organismos de segurança desses países. O criador do Telegram, o russo Pavel Duron tem uma história de conflito com as autoridades russas, nada indica que ele seria parceiro do governo russo para espionar alguém.

Mas tem um elemento pouco explorado na história envolvendo a Lava Jato que pode nos dar uma pista sobre a origem desses vazamentos que o ITB tem feito. Para se edificar, a tal “força tarefa” e o judiciário curitibano, estreitaram laços de cooperação com as agências de inteligência dos Estados Unidos e de Israel. Esses laços são oficiais, oficiosos e tendenciosos, o desmonte das operações de engenharia civil, petróleo, gás e tecnológica (setores de energia, tecnologia e defesa) engendrada pela Lava Jato a partir de operações de combate a corrupção, atendem o plano do imperialismo de impedir o desenvolvimento autônomo do Brasil, aprofundando a sua dependência. Esse é o tipo de ação praticada pelos serviços secretos estadunidenses e israelenses quando da necessidade de comprometer economias rivais.

O premiê Benjamin Netanyahu (esq.) e o presidente Jair Bolsonaro (dir.). Crédito: Jack Guez/Getty/Expresso.

Essas operações obedeciam a uma lógica de Guerra Híbrida desenvolvida pelo Pentágono contra todos os países que tentaram alavancar esses setores produtivos, não foi sem moitvo que a “Primavera Árabe”, que se mostrou um rigoroso inverno de mentiras, destruiu a Líbia e tentou fazer o mesmo contra a Síria, no caso de ambos com guerras que se arrasta a mais de cinco anos. Nessa mesma linha, Turquia, Venezuela e Brasil, foram abalados em suas políticas internas com tentativas de golpes, quando decidiram desenvolver projetos autônomos. Tudo leva a crer que a Lava Jato atuou como um cavalo de Tróia do imperialismo contra o projeto de desenvolvimento brasileiro edificado pelo PT a partir de 2003, interrompido com o golpe de 2016 e impedido de ser retomado com a prisão de Lula em 2018.

Diz um ditado antigo: “quem paga a banda escolhe a música”, a Lava-Jato é uma banda paga com capital estrangeiro, seus objetivos não são nacionais, seus interesses não são independentes. Como o ITB denunciou, o procurador Dallagnol consultava os “americanos”, para agir. Esse movimento conservador, de base cristã (principalmente neopentecostal) que se alimenta de um anticomunismo visceral, tem no judiciário um vigoroso aparelho. Eles são teleguiados pelos robôs de “Fake News” e motivados pela imprensa corporativa. Como tem revelado o ITB, a Lava Jato parece ter recorrido aos gringos para a realização de mais um golpe contra a frágil democracia brasileira. O objetivo: recolocar um governo entreguista e subserviente ao mercado financeiro no poder, como é o governo Bolsonaro.

Deltan Dallagnol tem fortes conexões com igrejas protestantes nos EUA. Crédito: DCM.

Infiltrados por estadunidenses e israelenses, a Lava Jato nasceu exposta, sua existência está ligada a um condomínio frágil de interesses contaminados pelas contradições naturais das comunidades de informações, habitualmente venais. Derrubar o PT e prender o Lula era a missão central, concluída essa tarefa, existia a expectativa de que todos recebessem a sua parte do butim. Será que esse script foi seguido ou alterações produzidas posteriormente frustraram os acordos? Esses vazamentos vão colocar os operadores da Lava-Jato em uma situação delicada, de obsoletos a descartáveis, seja em qual das duas categorias Moro, Dallagnol e os demais paladinos da justiça enquadrarem-se, eles podem ser os primeiros a pagarem a conta de algum desacerto nas esferas de mando.

Existem alguns fatos que podem respaldar essa teoria, primeiro é a obsessão do presidente Bolsonaro com Israel, país conhecido por ter um serviço de informações bem ativo. A escolha de Sérgio Moro para Ministro da Justiça tem que ter tido o aval dos israelenses, agora ligados ao governo brasileiro. Segundo ponto, à ida de Moro e Bolsonaro à Agência Central de Inteligência (CIA) e ao Departamento Federal de Investigação (FBI) em maio de 2019 em uma visita fora de agenda, revelou uma intimidade inusitada com esse tipo de agência. Lembrando que Edward Snowden revelou através do Wikileaks, que em setembro de 2013 a National Security Agency (NSA) espionava a Petrobras e tinha inclusive posto uma escuta no telefone celular da então presidenta Dilma. O que Bolsonaro e Moro têm a falar sobre isso?

Para aumentar as desconfianças, Moro e Dallagnol, em meio a uma série de acusações de desvio de conduta, anunciaram nesse dia 22 de junho que cumprirão uma agenda nos Estados Unidos, onde Moro visitará uma série de agências de segurança e Dallagnol dará palestras para os religiosos de direita. Uma viagem um tanto extemporânea para o momento, ou não? Talvez não, a Lava Jato é um instrumento importante para a dominação do processo eleitoral brasileiro. Para que Bolsonaro cumpra o seu projeto entreguista, o Judiciário (lavajatista) precisa operar de forma segura. As revelações que o ITB tem feito coloca toda a cadeia golpista em risco. Para que o projeto “lavajatista” siga, é preciso que as tais “instituições” estejam seguras. Contudo, um vazamento “de dentro” ou de quem já “esteve por dentro”, pode comprometer toda a zona de conforto dos golpistas.

Não existem informações sobre os motivos desse vazamento, entretanto, ele pode ter sido um golpe no golpe, ou apenas um “freio de arrumação”, seus desdobramentos podem comprometer o eixo Brasília – Washington – Tel Aviv. Quem vazou esses documentos, sabia que nas mãos de Glen Greenwald iriam ser transformados em notícia e não em chantagem. Sérgio Moro e Deltan Dallagnol vão ao encontro do big brother em busca de respostas, eles precisam estacar essa sangria, antes que seja tarde. Mesmo com o Supremo Tribunal Federal (STF) e tudo (In Fux We Trust) a coisa pode ficar mais complicada.

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