“Foi uma guerra sagrada para a reunificação coreana” – Dermot Hudson, especialista em Coreia do Norte

Da esquerda para a direita: o intérprete Raphael Puig, o doutor em ciências políticas pela Universidade Kim Il Sung da República Popular Democrática da Coreia e presidente da Associação de Amizade com a Coreia do Reino Unido Dr. Dermot Hudson, o presidente do Centro de Estudos da Política Songun do Brasil Lucas Rubio e o integrante do Centro de Estudos da Ideia Juche do Brasil Alexandre Rosendo. Crédito: Revista Intertelas.

“Nosso trabalho não visa mostrar a Coreia do Norte como um paraíso na terra. Nem os norte-coreanos aceitariam isso. Contudo, queremos através de seminários como este e outras iniciativas mostrar um outro lado da questão e explicar ao grande público que pouco sabe sobre o norte da peninsula, que os norte-coreanos escolheram seguir o seu caminho, por seus próprios meios, com suas próprias forças“. Desta forma, Lucas Rubio, presidente do Centro de Estudos da Política Songun do Brasil, abriu o Seminário “Guerra da Coreia – revisitando a guerra esquecida”, que realizou, em conjunto com a Revista Intertelas e com a Tribuna da Imprensa Sindical, nesta quinta-feira passada, dia 11 de julho, no Auditório 91, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). 

Crédito: Revista Intertelas.

O evento contou com a participação do professor de história pela Universidade de Winchester, doutor em ciências políticas pela Universidade Kim Il Sung da República Popular Democrática da Coreia e presidente da Associação de Amizade com a Coreia do Reino Unido Dr. Dermot Hudson. Hudson, uma das mais importantes e conhecidas autoridades internacionais no assunto, é o chefe de várias organizações na Inglaterra de apoio e estudo estratégico sobre a República Popular Democrática da Coreia (RPDC), tendo visitado o país em inúmeras oportunidades desde os anos 1980.

Crédito: Revista Intertelas.

O seminário ainda teve a presença de Alexandre Rosendo, do Centro de Estudos da Ideia Juche do Brasil que iniciou a sua fala destacando a questão do imperialismo, a fase avançada do capitalismo, conforme teóricos marxistas e leninistas, como ponto chave para explicar ao público presente sobre o quadro político e histórico da peninsula coreana. “Ocorre que alguns poucos países desenvolveram um capitalismo para além dos marcos meramentes nacionais e precisaram de colônias e semi-colônias para que continuassem a desenvolver o seu modo de produção capitalista”, salientou. Assim, Rosendo apresentou um contexto histórico da luta por independência que a Coreia travou contra os japoneses e posteriormente, com relação ao norte da peninsula, contra a presença militar dos Estados Unidos, considerada por Pyongyang como resquicios de uma dominação estrangeira sobre a Coreia.

Crédito: Revista Intertelas.

E conforme sempre é explicado pelo centros especializados em estudos sobre a Coreia do Norte, não há como compreender o país sem ter conhecimento de sua política filosófica mais fundamental: a Ideia Juche. Cunhada pelo fundador da república Kim Il-sung , ela estabelece as bases para o fomento de uma nação socialista. Esta estrutura filosófica conseguiu permanecer intacta ao longo tempo. Ela destaca a importância do significado do conceito de soberania. Que, em outras palavras, versa sobre a capacidade de um povo de ser artífice, ter o poder para decidir o próprio destino e através de seu esforço construir um caminho para chegar a tal objetivo. Utilizando como base este conceito político, o professor Hudson proferiu o seu discurso, cujo texto foi traduzido pela Revista Intertelas e obteve tradução simultânea durante o seminário realizada por Raphael Puig.

Crédito: Revista Intertelas.

Segundo Hudson, existem duas ideias falsas sobre a Guerra de Libertação da Pátria, como é chamada a Guerra da Coreia no norte da peninsula. “A primeira e maior que está contida nos livros de história e repetida inúmeras vezes é que a Coréia do Norte foi responsável pela eclosão da guerra. A segunda é que a guerra não foi uma derrota para os EUA. É claro que existem outros mitos e mal-entendidos, alguns que grandes países adoram repetir e que menosprezam os esforços autossuficientes do povo coreano, liderados pelo general Kim Il Sung e atribuem a vitória da República Popular Democrática da Coreia a outros países. No entanto, hoje vou me concentrar nestes dois grandes mitos”.

Assim, o professor destacou fatos históricos que servem de sustentação para a sua argumentação como a política de “contenção” do comunismo do EUA. Segundo Hudson, o John Foster Dulles, secretário de Estado norte-americano, era um conhecido arquiteto dessa política. Ele que tinha ganho muito dinheiro por meio de negócios com o partido nazista alemão nos anos 1930 e escreveu um livro chamado “Guerra ou Paz”, defendeu a “libertação” dos países socialistas. Assim, o objetivo principal do EUA era acabar com o socialismo seja pela força militar direta, ou utilizando de outros meios.

Crédito: Revista Intertelas.

Hudson ainda destacou alguns números. O exército sul-coreano, cujo governo era aliado dos EUA, obtinha na época algo em torno de 95.000 soldados, a maioria dos quais foram posicionados ao longo do paralelo 38, (que seria, mais tarde, a linha de divisão do norte e do sul) ou próximo a ele, enquanto a Coreia do Norte tinha cerca de 74.000 tropas. “Alguns números, na realidade, ampliaram o tamanho do exército fantoche de Syngham Rhee (primeiro presidente sul-coreano, figura autoritária que perseguiu e matou comunistas no sul) para 150.000 tropas. A população da Coreia do Sul era quase o dobro da RPDC, então teria sido difícil para a Coreia do Norte ‘invadir’ o sul. A população dos EUA era quase 20 vezes maior do que a da RPDC e o seu território é muitas vezes superior à da RPDC”.

Para o especialista, existem fatos históricos que ainda trazem à tona uma realidade que poucos sabem: os EUA teriam arquitetado a guerra na peninsula, e impulsionaram a Organização das Nações Unidas (ONU) e vários países a participarem do conflito. “O próprio Choe Dok Sin, ex-comandante do exército sul-coreano, ministro das relações exteriores sul-coreano e embaixador sul-coreano na ONU, afirmou que viu a ordem secreta de Syngham Rhee para começar a guerra. Os EUA exigiram uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU. Este foi realizado sem a presença da União Soviética, nem da República Popular da China, que, naquele período, foi mantida fora de seu assento legítimo. Ninguém da RPDC foi autorizado a apresentar o seu caso perante o conselho. Em vez disso, o Conselho de Segurança da ONU (CSONU) publicou uma resolução culpando a Coréia do Norte por iniciar a guerra e autorizou o uso da força de nações membros da ONU. Efetivamente, o Conselho de Segurança era apenas um tribunal canguru para o imperialismo dos EUA”.

Crédito: Revista Intertelas.

Segundo ele, a Guerra de Libertação da Pátria almejou a libertação nacional, bem como a luta feroz anti-imperialista e a luta de classes contra os inimigos do povo. “Foi uma guerra sagrada para a reunificação coreana. Foi ao mesmo tempo uma guerra para defender a independência e a liberdade do povo coreano. Também foi uma guerra para defender a paz, a segurança e o posto avançado oriental do campo socialista. Baseado na Ideia Juche, o marechal Kim Il Sung declarou: ‘Devemos resolver nossos problemas não importa quem está nos ajudando e que ajuda recebemos …… A vitória deve ser conquistada pela nossa força”. Os esforços do povo coreano concentraram-se principalmente em derrotar os agressores imperialistas dos EUA'”.

O professor ainda destacou que as parcerias internacionais foram importantes, mas não o fator crucial para a vitória da Coreia do Norte. “Algumas pessoas gostam de chamar a atenção para a assistência internacionalista dada aos coreanos, em particular, pela China e pela URSS. Claro que é verdade que tal assistência foi dada e não apenas por grandes países, mas por todos os países socialistas. No entanto, a melhor ajuda e assistência internacionalista não tem efeito, a menos que as forças revolucionárias de uma dada unidade unam-se e travem uma luta poderosa. A história conhece muitos exemplos de revoluções que receberam assistência irrestrita, mas deram em nada porque as forças revolucionárias internas não eram fortes o suficiente e faltou qualidade de liderança”.

Crédito: Revista Intertelas.

Conforme Hudson, baseados na Ideia Juche, o Exército do Povo da Coreia desenvolveu uma guerra de túneis, um novo conceito. “Em um artigo, o escritor coreano Han Ho Suk escreveu que ‘a experiência da Coréia do Norte na escavação de túneis para a guerra foi demonstrada durante a Guerra do Vietnã. A Coréia do Norte enviou cerca de 100 especialistas em guerra de túneis para o Vietnã para ajudar na escavação dos túneis de 250 km das tropas do Vietnã do Norte e Vietcong no Vietnã do Sul. Os túneis foram fundamentais para a vitória vietnamita’”.

Por fim, Hudson destacou algumas palavras do secretariado executivo da Organização de Solidariedade com os Povos da Ásia, África e América Latina que disse, em 19 de junho de 1968: “sob a soberba liderança do marechal Kim Il Sung, o Exército do Povo e o povo da Coreia, que herdou as tradições da gloriosa luta armada anti-japonesa, combateu heroicamente e derrotou o imperialismo norte-americano, em defesa da liberdade, da pátria e dos ganhos da revolução, contribuindo grandemente para a luta anti-imperialista de libertação nacional dos povos do mundo, para a luta pelos direitos humanos, pela paz na Ásia e no mundo”. Tal luta que almejou, sobretudo, a reunificação da península, a sua total independência e a consolidação da soberania nacional continua e neste ano de 2019 enfrenta uma novo quadro em um novo cenário geopolítico. Nesta oportunidade, o professor Hudson comentou sobre o contexto político atual em uma entrevista que concedeu ao Intertelas e que você confere logo abaixo.

Crédito: Revista Intertelas.

Professor é a sua primeira palestra no Rio de Janeiro, como foi a experiência até o momento?

Eu gostaria primeiramente de agradecer o Centro de Estudos da Política Songun pelo convite e dizer que tem sido uma experiência maravilhosa. Eu não esperava que tantas pessoas fossem participar de uma seminário como este. A presença de tantos interessados é a prova do trabalho árduo que estes brasileiros têm feito e sua energia despendida para ampliar e mostrar que no Brasil há um número crescente de pessoas interessadas na Coreia do Norte e em saber mais sobre a Idea Juche.

Talvez seja pedir demais que faça um resumo sobre esta nova fase das relações entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos. Mas, já insistindo, qual a sua análise da presente situação?

Esta é um situação complicada. No dia 13 de junho, Donald Trump tomou uma decisão até então sem precedente, ele pisou em território norte-coreano, sendo o primeiro presidente a fazê-lo. Também são significativas algumas questões simbólicas. Trump apareceu sem farda militar, ou de combate. Foi vestido como um civil. E o local onde ele esteve tem grande significado, porque foi onde o general dos EUA Mark Clark assinou o acordo de armistício décadas atrás, em 27 de julho de 1953. Foi o momento histórico em que os estadunidenses aceitam pela primeira vez a sua derrota na Guerra da Coreia. Então, é como se Trump estivesse mais um vez assinalando que os EUA foram novamente derrotados.

Crédito: Revista Intertelas.

Veja, eu não tenho quaisquer ilusões com relação a Donald Trump. Eu não gosto dele! Mas, eu acredito que ele tenha um entendimento realista com relação ao cenário geopolítico da península coreana. E, simbolicamente, o que ele fez é o ato de um homem em desespero. Ele parece realmente querer retomar o diálogo com a Coreia do Norte e recomeçar o processo de paz. Ele teme que a Coreia do Norte retome os testes de mísseis balísticos intercontinentais e das armas nucleares. Boa parte da elite dos EUA não aprova que ele esteja engajado em conversações com a Coreia do Norte, mas se ele conseguir que os testes não aconteçam novamente, então sua reputação não estará tão arruinada. Contudo, se os testes forem retomados, representa outro fracasso de um presidente que já se encontra enfraquecido por disputas internas, deixando a sua situação política ainda pior.

Pode-se pensar também que este cenário é um vitória de Kim Jong Un e da Coreia do Norte?

Sim, certamente!

A Ásia atualmente se constituí cada vez mais como um novo centro econômico e político mundial. Diversos países da região fazem parte deste processo. A Rússia e a China são dois grandes atores, mas não os únicos. Nós podemos pensar que a própria Coreia do Norte pode ter o seu papel neste novo contexto que aos poucos está sendo formado e confronta a hegemonia dos EUA. Qual a sua análise desta situação?

Acho que o seu pensamento é correto. A Ásia está transformando-se em um novo e, quem sabe, no futuro, o principal centro político e econômico do mundo. E os Estados Unidos não podem mais manter o continente sob o seu controle. E, apesar das diferenças que possam existir entre a Coreia do Norte e a China, Kim Jong Un tem os chineses como seus parceiros. Diversas cúpulas foram e são organizadas entre os dois países. A visita atual do presidente chinês Xi Jingping trouxe resultados positivos e visou estreitar ainda mais as relações entre dois países vizinhos.

Ao centro, o doutor em ciências políticas pela Universidade Kim Il Sung da República Popular Democrática da Coreia e presidente da Associação de Amizade com a Coreia do Reino Unido Dr. Dermot Hudson, o presidente do Centro de Estudos da Política Songun do Brasil Lucas Rubio (esq.) e o integrante do Centro de Estudos da Ideia Juche do Brasil Alexandre Rosendo (dir.) Crédito: Revista Intertelas.

E creio que a pressão atual que os chineses estão sofrendo dos Estados Unidos vai fazer com que repensem suas relações com os norte-americanos. No passado, a China foi uma grande parceira dos Estados Unidos. A atual guerra comercial, as tarifas impostas sobre os produtos chineses e, agora, as forças dos Estados Unidos provocando diversos problemas em Hong Kong, vai levar a China a repensar quem são os seus reais parceiros e amigos. Neste contexto, vejo os chineses ainda mais inclinados a apoiar a Coreia do Norte.

E esta parceria estende-se para um possível papel da China e da Rússia na reunificação coreana?

Antes de tudo, é preciso compreender que a reunificação da Coreia deve ocorrer de forma independente. É isso que a Coreia do Norte sempre defendeu. A peninsula deve ser reunificada pelos seus próprio esforços, e não por outros. As grandes decisões que envolvem esta questão devem ser tomadas dentro da Coreia, pelos coreanos, em Seul e Pyongyang. Não nas Nações Unidas, não em Washington, Nova Iorque, Londres, Tóquio, ou qualquer outro lugar.

E você acredita que o atual governo sul-coreano, representado na figura do presidente Moon Jae In, está inclinado a percorrer esta linha de atuação no que diz respeito à reunificação?

Esta é uma questão muito complexa. Moon Jae In chegou ao poder em razão dos protestos contra o esquema de corrupção extremo implementado pelo governo fascista antecessor de Park Geun Hye. E até o momento as escolhas dele têm sido bastante positivas como realizar cúpulas com a Coreia do Norte, assinar declarações conjuntas entre os dois países, visitar o norte e receber Kim Jong Un na Coreia do Sul. Contudo, ele ainda permanece muito dependente dos EUA, mostra-se também pouco inclinado em desafiar a presença militar e o papel dos Estados Unidos na Coreia do Sul.

Dermot Hudson (esq.) e Lucas Rubio (dir.). Crédito: Revista Intertelas.

Praticamente não há pressão dele para que as tropas estadunidenses saiam do país. Ele até concordou em pagar mais para os EUA deixarem seus soldados em território sul-coreano.Trata-se de uma situação praticamente única porque normalmente são os norte-americanos que pagam para que suas tropas e bases permaneçam em outros países. Mas no caso da Coreia do Sul ocorre o inverso. Infelizmente tenho de dizer que tenho um certo desapontamento com o Moon Jae In nesta e outras questões. Em especial, quando não mostra independência com relação aos EUA, até sobre a questão das sanções contra a Coreia do Norte.

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