Omissões e “esquecimentos” do ocidente

Crédito: Washington Times.

No último dia 6 de junho, o ocidente comemorou os 75 anos do Desembarque da Normandia (Operação Overlord), que foi a invasão da França por tropas Aliadas em 1944. Foi um dos maiores desembarques anfíbios da história militar, ocasionando na retomada da Europa Ocidental das mãos dos nazistas. Mas, como toda a Segunda Guerra Mundial, começando pela invasão japonesa da China em 18 de setembro de 1931 até a rendição do próprio Japão em 2 de setembro de 1945, os fatos não podem ser analisados de maneira individual. É necessário que todos esses eventos sejam vistos como conectados e muitas das vezes como consequência direta uns dos outros, para assim se evitar a falsificação da história.

Há muitos anos que essa comemoração do dia 6 de junho na França tem um caráter estritamente ocidental em que Estados Unidos, Inglaterra e França festejam uma Segunda Guerra Mundial estanque, na qual os eventos protagonizados pelos Aliados são superestimados em flagrante detrimento das outras frentes, subestimando assim os demais contendores do fascismo. As comemorações nesse ano de 2019 foram uma das mais acintosas no quesito “esquecimento”, pois o presidente da Rússia Vladimir Putin não foi convidado, ignorando-se por completo o papel da URSS/Rússia e revelando a manutenção da máquina de alienação da Guerra Fria, perpetuando o estigma contra o Oriente.

Com a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, um movimento de demonização do Oriente ergueu-se, em especial contra a Rússia e a China, requentando velhos dogmas. A crise interna na Inglaterra e a crise econômica e social na França também têm ajudado a motivar críticas à China e à Rússia, que são acusadas de ingerência nos processos internos desses países. Ao mesmo tempo em que esses três países, sob o “guarda-chuva” da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), fomentam uma série de ações obscuras em países do Leste Europeu (ex-repúblicas soviéticas e ex-países do bloco socialista) contra a Federação Russa, além de incentivarem o expansionismo militar do Japão e Taiwan contra a República Popular da China.

Nesse “novo” movimento contra o Oriente, encontra-se mais uma vez a “omissão” providencial com relação a alguns fatos da Segunda Guerra Mundial. A tentativa de reescrever o que efetivamente ocorreu nesse conflito, sem reverenciar o esforço maior e imprescindível da União Soviética constrange toda a história do século XX, pois foi a União Soviética a responsável pelo desmantelamento de cerca de 75% das forças do Eixo – isso lutando praticamente só. Foi a União Soviética que teve o seu território quase todo arrasado, ocasionando em cerca de 40 milhões de soviéticos mortos. Mesmo tendo total entendimento da sua magnitude, a ex-URSS e a atual Rússia nunca deixaram de dividir as glórias da vitória contra o Eixo com os demais participantes: de forma justa e fraterna, sempre reivindicaram uma história da Segunda Guerra Mundial que enaltecesse a contribuição de civis e militares de todos os países que contribuíram de alguma forma para a vitória final.

Regimento Imortal movimento espontâneo de veteranos e parentes que homenageia os cidadãos que combateram o nazismo e possibilitaram a vitória soviética. Crédito: ABC News.

 O tão badalado Dia D, que é sempre mostrado no Ocidente como a data mais importante para o término da Guerra, não pode ser saudado por ninguém de forma honesta sem ligá-lo à Operação Bagration desenvolvida pelos soviéticos. A mesma reteve e aniquilou as maiores e mais importantes forças do Eixo que operavam na Europa. Realizada entre o final de junho e a primeira quinzena de agosto de 1944, chegou a mobilizar cerca de 4 milhões de homens de ambos os lados. Obrigados a transferirem tropas do Ocidente para deter os soviéticos, os nazistas viram ruir todas as suas esperanças no Oriente com a perda dos Estados Bálticos, parte da Bielorrússia e Ucrânia, além de verem o caminho para Berlim ser aberto a partir da penetração soviética na fronteira polonesa graças à Operação Bagration.   

Outro momento importante que é omitido nas comemorações do Dia D é o estabelecimento do Trampolim da Vitória a partir da entrada do Brasil na Guerra. Desde a Região Nordeste do país, ponto das Américas mais próximo da África e da Europa, foram enviadas todas as mercadorias que sustentaram a Inglaterra durante os ataques do Eixo nos anos de 1941 e 1942. Foi do Nordeste brasileiro que se embarcaram todas as provisões que sustentaram as operações Aliadas na África, assim como o apoio logístico para a derrota do Eixo no referido continente a partir da Operação Torch (1942). Foi graças ao alinhamento brasileiro que as condições para o assalto da região da Sicília em 1943 foram possíveis (Operação Husky).

 As condições políticas e regionais que permitiram aos Estados Unidos socorrerem a Inglaterra e depois estabelecerem uma máquina de guerra capaz de suplantar os fascistas no Ocidente só aconteceram graças à unidade continental, construída pelo presidente brasileiro Getúlio Vargas e seu ministro das relações internacionais Oswaldo Aranha. Da mesma forma que a vitória Aliada nas Ardenas em 1945 só foi possível graças à Operação Vístula-Oder feita pelos soviéticos, que teve seu início antecipado devido ao apelo do presidente estadunidense Franklin Roosevelt, surpreendido pela postura incisiva das forças alemãs na referida batalha. Como podemos ver, a Segunda Guerra Mundial foi uma ação contínua de muitos esforços conjuntos.

A política ocidental de omissão do papel determinante dos soviéticos na Guerra visa apagar uma das mais belas histórias da humanidade, que foi o esforço de guerra soviético. A falsificação da história tem sido uma das armas mais usadas pelo imperialismo na tentativa de reescrever o que ocorreu na Segunda Guerra Mundial e omitir os decisivos esforços da União Soviética, coisa constante desde 1947. Soviéticos, brasileiros e chineses – todos deram sua contribuição na luta contra o fascismo. Salvaguardando as devidas proporções, todos merecem ser lembrados no Dia D como parte da Verdade Histórica. É preciso combater essas tentativas levianas de se reescrever os acontecimentos, evitando assim que os “velhos homens de Munique” (1938) continuem sendo os overlords da História.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: