A importância e os desafios do documentário cinematográfico

Crédito: http://listasde10.blogspot.com/

O desenvolvimento de um documentário requer muita paciência, pesquisa e estudo. Arrisco dizer que é a forma mais complexa de cinema. Efeitos especiais, atuação, roteiro estruturado, do cinema de ficção, são elementos calculados. A criação é planejada, mas pode ser alterada durante o processo. No documentário partimos do princípio de uma hipótese, ideia ou vontade de contar uma história que entendemos que precisa ser contada pelo nosso viés, e é importante que seja registrada e publicada, para temos certeza do valor daquele documento.

O rumo desse registro pode tomar caminhos inesperados, dramáticos e incontroláveis, na qual o documentarista tem a responsabilidade de criar recortes e construir a narrativa que lhe parece adequada e imparcial. O que fazer quando sua convicção e hipótese inicial estavam equivocados? Como retratar isso no meio das descobertas que o registro documental pode tomar? O cinema documental é uma arte de responsabilidade e descoberta, até mesmo um laboratório para o próprio cineasta que se aventura no gênero.

Cena de “Democracia em Vertigem” (2019) de Petra Costa. Crédito: https://blogs.ne10.uol.com.br/

O documentarista tem que estar disposto a registar com sua câmera dias, meses, e até anos de material, que depois servirá como base de estudo pra criar uma narrativa em um formato de até uma hora e meia de produto audiovisual. Pode até ser menos se estivermos falando de um filme em curta metragem. Como representar os personagens dessa história sem tendências e captar entrevistas e depoimentos sem que esses personagens não sejam influenciados ou intimidados pelos elementos externos de produção?

O documentarista é um voyer da vida real, ele tem que se portar como um receptor de informação crua e natural no momento da captura das imagens, para o que quer que seja ou esteja acontecendo ali na frente da câmera, possa ser o mais puro possível, e represente uma realidade não ficcional. Sobretudo, com o paradoxo do recorte que o próprio observador/diretor venha a fazer, tanto na captura, quanto pós produção, montagem e edição, o que faz o produto final nunca ser realmente um retrato fiel da realidade, mas sempre um ponto de vista crítico.

Cena de “Estamira” de Marcos Prado (2006). Crédito: http://www.ung.br/

No Brasil a produção de documentários tem passado um pouco despercebida do grande público, porém sempre teve muita qualidade. A exemplo temos o “Democracia em Vertigem” (2019) da Petra Costa em que a cineasta consegue propor uma reflexão sobre a democracia através de uma viagem em sua história familiar e nos acontecimentos políticos do Brasil. É uma exposição assertiva e cadenciada em todos os momentos.

Assim como ela, existem outros nomes como: João Moreira Salles, Jorge FurtadoMarcos Prado com o incrível “Estamira” (2006), Paula Gomes de “Jonas e o Circo sem Lona” (2015), e não podemos esquecer do Marcelo Gomes, que esse ano, também na plataforma de streaming Netflix, trouxe o “Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar” (2019). O fato é que o Brasil se mostra com cada vez mais capacidade de produzir um cinema plural. O que falta muitas vezes é oportunidade e iniciativa.

Fonte: Texto originalmente publicado no Linkedin do autor e adaptado para a Intertelas.
Link direto: https://www.linkedin.com/pulse/document%25C3%25A1rio-cinematogr%25C3%25A1fico-e-import%25C3%25A2ncia-de-petra-andreghetto/

Ernesto Andreghetto

Designer Gráfico pela Belas Artes. Pós Graduado em Cinema, Vídeo e Fotografia pela Belas Artes. Participante do Mestrado da Unicamp em Multimídia e Antropologia da Imagem. Editor, finalizador em produtoras e emissoras de TV. Há 10 anos na Forasteiro Produções.

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