A soberania nacional nas asas do Sukhoi

O caça russo Sukhoi-35. Crédito: The Moscow Times.

Em 18 dezembro de 2013, a Aeronáutica e o governo brasileiro anunciaram a empresa Aeroplano Sueco Limitada (SAAB) como vencedora do processo para equipar a Força Aérea Brasileira (FAB) com novos caças, que seriam os Gripen NG. A partir de então, o Comando da Aeronáutica e a SAAB iniciaram as tratativas para a formalização do contrato, pondo fim a uma espera de quase 20 anos, já que desde 1995 a Aeronáutica externava a sua necessidade de substituir os caças franceses Mirage que equipam a sua frota. Porém, o que deveria ser motivo de comemoração, passou a ser visto pelos especialistas como um erro. Já que o F-39 Gripen NG é um projeto com muitas respostas a serem respondidas, dada a condição de protótipo do referido avião.

Esse protótipo (F-39 Gripen NG) não fora testado em combate, não existem referências práticas quanto ao seu desempenho em pleno emprego, isso o transforma em uma aposta arriscada. O Brasil é um país continental e o Gripen é um caça leve, que possui uma capacidade bélica diminuta, para o tamanho da área que irá operar. Existem também limitações quanto a sua disposição em carregar tanques de combustíveis sobressalentes, sem falar nos problemas com o sistema de radar apontado por especialista. Isto é, a FAB está pagando um preço alto, por um avião que não é capaz de atender toda a demanda defensiva do país.

O caça sueco Gripen-NG. Crédito: Defersa Net.

Outro grande problema é a transferência de tecnologia, pois não existe a possibilidade da SAAB fazer tal coisa para a FAB, porque muitos dos componentes do Gripen são de origem inglesa e estadunidense. O embargo de segurança feito por esses dois países aos seus componentes mais sensíveis é uma realidade e o Brasil e a EMBRAER já foram vítimas disso quando os governos venezuelano e iraniano quiseram comprar aviões militares e civis do Brasil em 2006. De imediato a negativa por parte de Washington, já que essas aeronaves possuem peças estadunidenses.

A situação da SAAB não poder transferir tecnologia, obriga o Brasil a estar em uma situação de dependência perigosa, que ameaça a segurança nacional. Essa situação pode complicar-se em caso de guerra, como fora vivida pelos nossos irmãos argentinos, que tiveram problemas com os seus mísseis franceses Exocet, que passaram a ser evitados pelos ingleses, depois que o presidente francês François Mitterrand revelou seus segredos à primeira-ministra Margaret Thatcher durante a Guerra das Malvinas. Essa tal dependência que o caça Gripen nos impõem é complicada na área comercial e temerária na área de defesa.

O míssel francês Exocet. Crédito: old.weaponsystems.net

O primeiro caça Gripen F-39 foi entregue ao governo brasileiro em outubro de 2019, ele continuará em teste na Suécia até 2021 quando os mesmos serão concluídos. Caso aprovado, ele terá parte de sua produção feita no Brasil, como reza o contrato de fornecimento das 36 aeronaves. Depois de uma série de críticas, o Comando da Aeronáutica informou que o processo de escolha transcorreu de maneira transparente, obedecendo a uma orientação técnica que envolveu mais de 30.000 páginas de estudos.

A venda da Divisão Comercial da EMBRAER para a Boeing feita pelo governo Bolsonaro foi um duro golpe na aviação nacional. Com uma capacidade crescente de desenvolvimento, deveria ser a EMBRAER a encarregada de edificar um caça nacional, ou parcialmente nacional com capacidade de atender todas as demandas da Aeronáutica. Já que a imensidão do Brasil e a sua variada geografia, obriga o emprego de múltiplas aeronaves na tarefa de vigilância e proteção do espaço aéreo brasileiro. Somente a oferta russa poderia iniciar esse processo, que além de tudo era também mais vantajoso financeiramente.

Crédito: Portal Disparada.

Ao se colocar a disposição do governo brasileiro para disputar o processo de escolha da FAB, os russos ofereceram em 2013 a possibilidade de fabricação inteiramente no território nacional, em sistema de coprodução os Sukhoi-35 e depois a geração seguinte de caças furtivos, os Su-T50 Pakfa, quinta geração de aviões militares da companhia Sukhoi. Considerado o avião mais avançado já construído na Federação Russa, o T-50 está sendo projetado para ser capaz de carregar armamentos mais modernos no mundo e possuir uma manobrabilidade única, tornando-se um dos melhores aviões militares do  mundo.

O Su-35 oferecido ao Brasil é superior a todas as aeronaves que disputavam o processo de aquisição pela FAB. O caça russo possui mísseis especiais de longo alcance, destacando-se no processo de “caça”. Defensivamente, obtém em curta distância uma vantagem importante graças aos seus componentes especiais de aviônica aliados aos motores a jato com empuxo vetorial variável, esta particularidade ajuda o Su-35 a se desviar dos mísseis inimigos lançados de grande distância. O conjunto de oportunidades que os russos ofereceram ao Brasil era capaz de colocar o país entre as grandes nações no que tange a aviação de combate.

Tratando o Brasil como aliado e não somente como “parceiro comercial”, os russos ofereceram ao governo brasileiro a oportunidade de constituir uma base avançada na área de construção aeronáutica. Projeto que poderia e deveria ser administrado pela EMBRAER. Que proporcionaria ao governo brasileiro, pleitear junto aos russos, a constituição no Brasil de um centro tecnológico que atendesse países como Venezuela, Cuba, Peru e Nicarágua, que operam aeronaves russas. A transferência total de tecnologia prometida pelos russos evitaria que o Brasil tivesse que nas próximas décadas abrir outro processo licitatório, podendo assim, modernizar e ou construir novas aeronaves em seu próprio território a partir da experiência com o Su-35.

Não estão claros quais motivos que levaram as autoridades brasileiras a simplesmente descartarem a oferta dos russos, sem ao menos uma contraproposta. Contudo, o que ficou evidenciado é que o país perdeu uma grande oportunidade para alavancar a sua indústria aeronáutica e proporcionar a Força Aérea Brasileira acesso a um caça de 5º geração. O estigma de Dependência e falta de um projeto de nação, continua pautando os governantes brasileiros de tal forma, que muitas das vezes parecem que eles governam muito mais para os de fora, do que para os de dentro. 

Em 1974 famosa na voz de Elis Regina a música “Conversando no Bar” (Nas asas da Panair) de Milton Nascimento e Fernando Brant, fazia referencia à destruição da empresa de aviação Panair do Brasil pelo militares golpistas de 1964. A empresa era uma das mais importantes do mundo, fruto do desenvolvimento nacional proposto por Getúlio Vargas. Outrora nas asas na Panair vimos a nossa autonomia combalir, agora nas asas do Sukhoi vemos a nossa soberania esvair-se junto com a venda da EMBRAER. Dois duros golpes na aviação brasileira, aquela tão importante na integração nacional e tão decisiva na campanha da Itália.

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