A explosão dos satélites: participação e derrota de tropas não-alemãs na batalha de Stalingrado

Soldados do exército italiano na Rússia logo após serem capturados pelo Exército Vermelho durante a Operação Pequeno Saturno, em fevereiro de 1943. Alguns estão acenando para a câmera porque foram informados de que a foto seria enviada para suas famílias. Crédito: Reddit.

A maior batalha da história da humanidade não mobilizou somente alemães e soviéticos. O encontro de forças titânicas que mudou o panorama da Segunda Guerra Mundial teve também outros atores menos badalados, principalmente no lado nazista. Enquanto o Exército Vermelho era em sua totalidade formado por soldados soviéticos, o lado alemão contava com uma coalizão de alguns países. Dentre os que tiveram alguma relevância no campo de batalha, destacam-se húngaros, romenos e italianos em Stalingrado, finlandeses, espanhóis e portugueses em outros pontos da frente.

A aliança dos países fascistas sempre foi repleta de contradições, uma vez que sua ideologia nacionalista exacerbada não lida bem com a colaboração entre os países, por mais que estivessem dentro do mesmo espectro ideológico. Afinal, romenos eram arianos? Italianos seriam considerados como um povo que poderia dividir as glórias das vitórias nazistas? Essa contradição era preocupante para o esforço de guerra do lado fascista e poderia jogar a favor da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em caso de uma sagaz leitura política do conflito, o que de fato aconteceu.

Tropas romenas em Stalingrado, 1943. Crédito: Alamy.

Para qualquer historiador sério, é límpida a importância do Partido Comunista da URSS (PCUS) no esforço de guerra na frente oriental. A organização, a disciplina, e principalmente, a compreensão da guerra como um reflexo da política imperialista de todos os países capitalistas foram fundamentais para manter o moral dos soldados elevado e para que nas situações mais difíceis, o sonho de um mundo livre da exploração imperialista movesse aqueles homens e mulheres para seu destino final.

Mas não somente isso. Ao fazer uma interpretação política do conflito, o PCUS soube mobilizar esforços em áreas frágeis atrás das linhas inimigas, como as contradições inerentes ao esforço de construção de uma aliança fascista internacional. Relatos do calor da batalha mostram como a ração de guerra era distribuída de forma desigual entre alemães e “estrangeiros”, como os equipamentos de combate e vestimenta serviam primeiro aos arianos, e outras demonstrações de superioridade dos nazistas frente aos seus aliados de momento.

Prisioneiros de guerra húngaros durante a Segunda Guerra. Presumivelmente – a área de Voronej, 1942. Nas operações militares do lado alemão participaram também o 2º exército húngaro. Em conjunto com o 4º Exército Panzer Wehrmacht capturou a região de Voronej em 5 de julho e fez parte da frente alemã na região do Volga, que se estende até Stalingrado. No entanto, em janeiro de 1943, o 2º exército húngaro foi derrotado por uma poderosa ofensiva soviética. Durante sua fuga para o oeste, os húngaros perderam a maior parte das propriedades das tropas e 148.000 soldados e oficiais foram mortos, feridos e feitos prisioneiros de guerra. Crédito: albumwar2.com/

Essas questões não passaram despercebidas pelos militares soviéticos, que em grande parte possuíam formação política ao lado da militar, o que lhes permitia ampliar a visão estreita que muitas vezes a caserna proporciona. Diferentemente dos invasores, os soviéticos não viam seus adversários como uma massa amorfa de bárbaros inferiores e que rapidamente seriam derrotados. Sabiam dos enormes desafios a serem superados e de fato tentavam compreender as razões que levaram aquele conflito a acontecer.

Em seus discursos Stálin sempre fez questão de diferenciar a população alemã dos fascistas que se apoderavam do Estado germânico, lembrando aos combatentes soviéticos que esta guerra não era contra o povo alemão, e sim contra a burguesia alemã e seus agentes fanatizados. Esse cuidado também se refletiu no conhecimento acerca da constelação fascista que invadia o solo da Mãe-Pátria. O mando soviético sabia das distinções que ocorriam na linha de frente inimiga e muitas de suas irradiações radiofônicas tentavam atingir os combatentes no seu íntimo, tática amplamente usada durante o conflito. No que diz respeito especificamente ao nosso objeto, soldados húngaros, italianos e romenos foram os mais mobilizados no teatro de operações próximo ao Volga, onde se decidiu o destino da guerra a favor dos soviéticos.

Outros aliados seriam importantes para o esforço nazista de domínio da Europa e da Ásia, tais como a Turquia e o Japão. Uma possível vitória no Cáucaso seria fundamental para incentivar a entrada dos dois países de forma mais contundente no conflito, pois no caso turco permitia a entrada de suas tropas na parte sul da URSS, o que era fundamental para o abastecimento das divisões nazistas; e para japoneses seria a deixa perfeita para a ocupação do extremo-oriente soviético, há muito assediado pelos nipônicos.

Em julho de 1942, com a perda da Crimeia para os invasores, o destino soviético parecia estar pendendo para o lado errado, o que levou os turcos a mobilizarem suas tropas para próximo da fronteira com a URSS apenas aguardando um desfecho positivo para perpetrar sua ocupação. Os japoneses permaneciam mais moderados, apenas deixando suas tropas de prontidão até que o momento oportuno fizesse com que as tropas siberianas fossem deslocadas em massa para o cinturão Leningrado-Moscou-Stalingrado. Embora o desejo do mando fascista alemão fosse de uma invasão rápida do Japão, seu Estado Maior sabia das possibilidades de problemas em ter atenções divididas entre soviéticos e estadunidenses no Pacífico. Assim, Turquia e Japão eram interessadas no desfecho da batalha, mas não chegaram a mobilizar efetivamente seus exércitos.

Já no caso de Hungria, Romênia e Itália, temos o envio de milhares de soldados para a frente de batalha e seu aproveitamento na infantaria. Obviamente que a esmagadora maioria das tropas nazistas era formado por alemães, que perderam milhões de soldados, mas o desejo de ter alguma parte do butim soviético era enorme, o que levou o governo desses países a jogarem seus jovens num conflito que pouco ou nada mobilizava sua opinião pública. As promessas de territórios em caso de vitória sobre os soviéticos foram fundamentais para isso. O jogo imperialista neste caso falava mais alto.

Já no começo da batalha de Stalingrado, que foi de fins de 1942 até o início de 1943, as operações envolvendo estes exércitos eram constantes, com a vantagem pendendo do lado fascista, até o início da contraofensiva soviética, com as operações Urano, Pequeno Saturno e Grande Saturno. Até setembro de 1942, a iniciativa estava praticamente toda do lado invasor, o que não colocava à toda prova estes agrupamentos. A partir do início das operações de reação à invasão é que podemos de fato ver o teste definitivo da estratégia soviética e da capacidade de resistência destes aliados contra um maciço ataque.

A capacidade logística do Exército Vermelho e da Marinha Soviética foram brilhantes e decisivos na montagem da reação, conseguindo mobilizar, segundo estimativas, perto de um milhão de soldados para a retaguarda de Stalingrado sem despertar a atenção dos inimigos. Esta mobilização foi basilar para a vitória da URSS. O papel da Marinha neste processo foi fundamental, pois realizou milhares de pequenas viagens pelo rio Volga repleto de minas magnéticas lançados pela força aérea alemã. O transporte era arriscado e muitas vezes feitos com barcos de madeira, que despistavam as temidas minas. Além disso, durante a contraofensiva a Marinha serviu de ponto de apoio para o fogo soviético, até mesmo com a instalação de foguetes katyusha em lanchas blindadas.

A partir da mudança na iniciativa do conflito, passando para o lado soviético, os movimentos militares tornaram-se mais agudos para os invasores. A distância entre a linha de frente e o abastecimento das tropas fascistas foi deveras aproveitada pelos soviéticos, onde num movimento de pinça, cercavam milhares de soldados e os isolavam de qualquer possibilidade de reabastecimento, num movimento semelhante a um contra-ataque futebolístico, aproveitando os espaços deixados entre as linhas.

Nos casos em que estes flancos eram patrulhados por destacamentos não-alemães, este era um elemento levado em conta, como relatado por vários oficiais soviéticos, pois a experiência do conflito mostrava que a combatividade destes soldados era menor. Isto foi confirmado por diários e relatos deixados por estes, que reclamavam da situação difícil a qual estavam submetidos e da distinção de tratamento dada pelo comando central aos alemães e aos seus parceiros. Tanto foi assim, que em mais de uma oportunidade o serviço de informação soviético possuía a certeza de ordens de resistência por parte do Estado Maior nazista, o que não impedia a negociação e capitulação de tropas inteiras húngaras, romenas e italianas na região.

Confirmando esta leitura, temos a formação durante a contraofensiva soviética, de um grupo de assalto formado em sua maioria por soldados não-alemães, o Grupo Operativo Hollidt. Este tinha como função tentar reverter a iniciativa do conflito, fazendo ataques ao exército soviético durante a retirada das tropas. Isso obviamente levava a perdas consideráveis destes exércitos, pois eram jogados na frente de batalha exatamente em um momento em que toda a iniciativa estava do lado soviético, com ataques maciços. Ou seja, os danos a romenos, italianos e húngaros sucediam-se, com praticamente nenhuma vitória após o início da contraofensiva de Stallingrado. Se após 1943 ficaria patente para o resto do mundo que a coligação fascista não teria chances de vitória, romenos, italianos e húngaros descobriram isso da pior forma possível.

Adolf Hitler com o marechal Ion Antonescu e outros oficiais (1943). Crédito: Medium.

Os números sobre as perdas de cada país na guerra são sempre discutíveis. O desejo de mostrar uma intensa participação; ou a vergonha de muitas perdas podem modificar as contagens de acordo com interesses políticos. A contar, por exemplo, de correspondência entre Ion Antonescu e Adolf Hitler, somente de romenos, foram 250 mil mortos. Uma pequena amostra da barbárie fascista.

Vinícius da Silva Ramos

Graduado em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Mestre em História Política pelo Programa de pós-graduação em História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Doutorando em História Social pelo Programa de pós-graduação em História Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Autor do livro “Páginas verdes de uma imprensa marrom”.

Bibliografia

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KUZNETSOV, N. La Armada Sovietica em la guerra: 1941-1945. Moscou: Editorial Progreso, 1979.

ZHIILIN, P. La Grand Guerra Patria de la Unión Soviética: 1941-1945. Moscou: Editorial Progreso, 1985.

ZHUKOV, Guerogui. Memorias y reflexiones. 1969.

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