Guia de filmes africanos para ver durante o isolamento social

Cena do filme queniano “Rafiki” (2019), de Wanuri Kahiu. Crédito: Delirium Nerd.

Em tempos de isolamento social, proliferaram pelas redes sociais dicas de filmes para ver em casa. Além dos serviços de streaming como Netflix, Mubi, Petra Belas Artes, entre outros, muitos diretores, produtoras e agências de filmes têm disponibilizado seus acervos de forma gratuita ou com descontos generosos por tempo limitado. Para além de filmes brasileiros e muitos filmes estrangeiros, especialmente os europeus e estadunidenses, como é possível assistir a filmes africanos em casa?

A realidade da distribuição e difusão dos cinemas africanos no mundo ainda é de muita ausência, e no Brasil a situação é ainda mais complexa. Por mais que a África produza milhares de filmes por ano e marque presença nos mais expressivos festivais do mundo, ainda assim é bem difícil vê-los nas salas comerciais e nas plataformas de streaming. Fizemos um levantamento do que existe de filmes africanos nos serviços disponíveis no Brasil atualmente, e o resultado é desanimador: com exceção da Netflix e do Telecine Play, não conseguimos encontrar nada de substancial nos catálogos das outras plataformas.

Crédito: Netflix.

A Netflix é, sem dúvida, o serviço que mais está investindo em filmes africanos atualmente em nível global. O catálogo disponível para o Brasil tem cerca de 50 títulos produzidos na África, entre os quais estão os “originais Netflix”, aqueles cujos direitos foram adquiridos pela plataforma por tempo ilimitado. Um deles é “Atlantique” (Senegal, França, Bélgica, 2019), dirigido pela franco-senegalesa Mati Diop.

Adquirido na ocasião em que ganhou o prêmio do júri no Festival de Cannes 2019, onde fez história por ser o primeiro filme dirigido por uma mulher negra indicado ao maior prêmio do festival, o longa conta a história de amor proibido entre Ada e Souleimane através de elementos fantásticos, como pano de fundo para uma visão crítica sobre a sociedade da Senegal contemporânea.

Em 2018 a Netflix também adquiriu “Lionheart” (2018), filme nigeriano dirigido e protagonizado pela Geneviève Nnaji, grande estrela do cinema nigeriano, após sua estreia no Festival Internacional de Cinema de Toronto. O longa conta a história de Adeze, uma mulher que trabalha na empresa de transportes do pai, prepara-se para assumir seu lugar na diretoria, mas é surpreendida com a escolha do tio para o posto. Entre outros filmes nigerianos presentes no acervo da Netflix, “Lionheart” se destaca pela maturidade ao tratar um tema tão complexo para a sociedade nigeriana com tons de drama e comédia.

Em 2020, a Netflix deu mais dois passos à frente. Estreou a série “Queen Sono”, produção totalmente africana, a primeira da plataforma, criada por Kagiso Lediga na África do Sul. A trama gira em torno de Queen Sono, que tenta descobrir a verdade por trás da morte de sua mãe, uma heroína da luta anti-apartheid da África do Sul.

A série foi gravada em diversas cidades do continente africano e é falada em diferentes idiomas do continente. Brincando com as convenções dos filmes de espionagem, acompanhamos a jornada de Queen Sono em meio a mafiosos, políticos e bandidos de todos os tipos. A segunda temporada já foi confirmada pela Netflix.

Outros projetos de séries africanas já estão confirmados, como o drama adolescente “Blood&Water”, a série animada “Mama K’s Team 4” e o drama sul-africano “JIVA!”, que acaba de ganhar trailer oficial. JIVA! é uma gíria sul-africana que pode ser traduzida como “dança”. A série é um drama que conta a história de uma talentosa streetdancer, Ntombi, que, ao mesmo tempo em que faz malabarismos com as demandas de um emprego sem perspectivas, responsabilidade familiar e uma complexa vida amorosa, percebe que sua dança pode ser seu passaporte para uma vida melhor na cidade de Durban. No entanto, para ter sucesso, ela deve primeiro superar seus medos, vencer seus rivais e tentar resolver alguns dos problemas de sua família.

Recentemente, a Netflix divulgou um cast de 14 diretores nigerianos com os quais deve trabalhar nos próximos anos. O foco no cinema nigeriano não é à toa: o país tem uma das maiores indústrias de cinema massivo do mundo, Nollywood, com grande apelo junto ao público, e os maiores sucessos de bilheteria da Nigéria estão disponíveis na Netflix no Brasil: “Casamento às Avessas” (2016) e “Cinquentonas” (2015), entre muitos outros.

Confira também na Netflix: “Aprendiz de Mecânico” (Nigéria, 2019), “A Estrada Nunca Percorrida” (Nigéria, 2015), “Mais Uma Página” (África do Sul, 2017) e “93 Dias” (Nigéria, 2016). Uma dica é colocar “filmes africanos” na busca, onde aparecerão resultados também relacionados, como produções de países afrodiaspóricos como os Estados Unidos.

A Nigéria tornou-se um importante centro cinematográfico no continente africano e no mundo, sendo a terceira maior indústria de produção de cinema global atrás apenas de Hollywood, segunda, e Bollywood, primeira. Crédito: ICTworks.

Em termos de qualidade, o Telecine Play destaca-se. Apesar de não ter muitos títulos como a Netflix, os poucos que oferece são muito relevantes. O destaque vai para “Rafiki” (Quênia, 2018). Dirigido pela queniana Wanuri Kahiu, o longa emocionou a plateia de Cannes com a história de amor proibido entre duas garotas. Kena e Ziki têm de enfrentar o desafio de viver este amor em um país onde relações LGBTQ+ são consideradas crime. “Rafiki” foi sem dúvida o filme mais importante da cinematografia africana em 2018, e um dos seus trunfo é sua linguagem urbana com vários elementos da cultura pop para tratar de um tema tão delicado no universo africano.

Outro destaque é o “Uma Temporada em Paris” (2017), dirigido por um dos realizadores mais celebrados do continente, Mahamat-Saleh Haroun, natural do Chade. O longa segue a trajetória de Abbas, que junto com os filhos pequenos muda para Paris para escapar da guerra civil que assolava a África Central. Ele se apaixona por Carole, que oferece teto e comida para Abbas e seus filhos, mas todos seus planos são frustrados quando o pedido de asilo é rejeitado pelo governo.

Também encontramos no acervo o “Château-Paris” (2017), dirigido pelo burquinense Cédric Ido em seu primeiro longa-metragem produzido fora do seu país de origem. O filme acompanha o cotidiano de Charles em um bairro popular de Paris, onde se cruzam pessoas de todas as origens: chineses, indianos, senegaleses, nigerianos… Enquanto decide como conseguir mais dinheiro, ele sonha em abrir o seu próprio salão. Em comum, este e o anterior tem foco nas experiências afrodiaspóricas de sujeitos africanos na Europa.

 

Ainda no Telecine Play é possível assistir “Papicha” (2019) longa argelino dirigido por Mounia Meddour que apresenta uma crítica feminista à sociedade da Argélia. Nedjmaé uma estudante universitária apaixonada pelo mundo da moda que deseja lutar contra a opressão que o governo exerce sobre mulheres, tentando controlar seus corpos e presença em espaços públicos.

Determinada em unir as mulheres de seu campus, ela organiza um desfile em protesto, que desafia as regras impostas pela sociedade argelina. Uma pérola! Em comum a todos esses títulos está o fato de terem sido distribuídos comercialmente no Brasil, o que facilita o processo de licenciamento da plataforma junto às distribuidoras.

Outras Plataformas 

streaming do Petra Belas Artes A La Carte, reconhecido pela excelência do acervo, só tem um título africano disponível: “A Amante” (2016), de Mohamed BenAttia, produção da Tunísia. A plataforma tem planos de assinatura são bem acessíveis: R$ 9,90 por mês e R$ 108,90 por ano. Uma boa chance de assistir a este belo drama da Tunísia, exemplar da importante indústria de cinema deste país.

MUBI (R$27,90 por mês / R$238,80 por ano), serviço com uma das melhores curadorias do mundo, tem sempre pelo menos um filme africano a cada dois meses, pelo que pudemos averiguar, e varia entre os canônicos e os contemporâneos, o que é maravilhoso e de alguma forma compensa a escassa presença de forma geral. No último mês eles exibiram o “Keteke“, comédia do Gana de 2017. É sempre bom ficar de olho, uma vez que cada filme fica disponível somente por 30 dias.

No CLARO NOW também só encontramos um título, o “Yomeddine – Em Busca de um Lar“, drama egípcio lindíssimo de 2018, que conta a jornada de Beshay junto a Obama para descobrir por que seu pai nunca cumpriu a promessa de voltar para sua cidade natal. O filme pode ser alugado pelos usuários do serviço por R$ 15,90.

No Amazon Prime Video possível ver o documentário “A Luta de Silas” (2017) foca em um grupo de jovens liderados pelo ativista ambiental Silas que começa a investigar a corrupção do governo nacional a partir da criação de um aplicativo para celular. Dirigida a quatro mãos por Hawa Essuman e Anjali Najar, o longa é inspirador ao nos aproximar de Silas, um defensor incansável e um símbolo de resistência para as novas gerações africanas. A assinatura mensal da Amazon Prime Video é R$ 9,90.

No Looke, que não só oferece milhares de títulos, mas que também funciona como plataforma de streaming para festivais e canais de TV, encontramos disponível o lindíssimo “Carta Registrada” (2019), filme egípcio dirigido por Hisham Saqr. Desde que seu marido foi preso, Hala (Basma) tem que enfrentar seus pensamentos suicidas sozinha. Sua força tem que vir de dentro, pois a sociedade não a ajuda e nem perdoa uma mulher deprimida, principalmente por ela ser mãe. Essa pequena joia pode ser alugada por R$ 9,99.

Com uma oferta tão grande de serviços de streaming no Brasil, a injustificada ausência de filmes africanos aponta a necessidade de que plataformas e distribuidoras desbravem esse universo. Demanda não falta, tampouco oferta. Por ora, vale a pena vasculhar nossas dicas e começar a descobrir filmes tão diversos em narrativas, estéticas e temáticas.

Fonte: Texto originalmente publicado no site Delirium Nerd.
Link direto: https://deliriumnerd.com/2020/05/05/filmes-africanos-para-ver-durante-o-isolamento-social/?fbclid=IwAR1U7SWpw-OpYLup42mFugGrAflgA_j9qNolIRo2WDNicvLv5ooTSjGR7yc

Ana Camila Esteves

Jornalista, produtora cultural e pesquisadora. Atualmente desenvolve pesquisa no âmbito do doutorado sobre as narrativas da vida cotidiano nos cinemas africanos contemporâneos. É idealizadora e curadora da Mostra de Cinemas Africanos e do projeto de cineclube Cine África, em Salvador.

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