Brasil e a guerra de mentira de Bolsonaro

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, durante encontro com o presidente dos EUA, Donald Trump, na Casa Branca, em Washington (EUA). Crédito: Brasilianismo Blogosfera Uol.

A “Guerra de Mentira” foi como ficou conhecido o período entre setembro de 1939 e maio de 1940, onde as tropas anglo-francesas declararam guerra à Alemanha, mas não realizaram nenhuma ação. Apenas assistiram os nazistas expandirem-se. Esse exemplo pode ser usado para designar – salvaguardando as devidas proporções – as intenções de Jair Bolsonaro e sua quadrilha contra a Venezuela.

Desde que assumiu o governo, Bolsonaro tem feito grandes esforços para transformar o Brasil em uma plataforma reacionária no continente. Reduziu o Itamaraty, historicamente altivo e assertivo, em um escritório de loucuras a serviço de fascistas deslocados no tempo e no espaço e tenta a todo momento atrelar o país a Israel, um anão diplomático, que é conhecido internacionalmente por exportar terroristas e mercenários.

O alinhamento automático produzido por Bolsonaro aos Estados Unidos coloca o país no nível mais baixo de sua subordinação política. Sem nenhuma contrapartida, Bolsonaro entrega a Base de Alcântara, entrega o pré-sal e a Petrobras, prepara a doação da Eletrobras e abstém-se de alavancar o MERCOSUL e os BRICS. A ideia de transformar o Brasil em um polo contrarrevolucionário é inócua, pois esse papel já é exercido pela Colômbia dentro do Plano Colômbia, não cabendo espaço para a participação brasileira, já que em seu território não operam forças irregulares de contestação ao governo.

Até mesmo as fronteiras brasileiras, pelas suas características geográficas, dificultam as forças brasileiras em atuarem contra os insurgentes de países vizinhos. Durante todos esses anos de ações de guerrilha em países limítrofes, como Bolívia, Colômbia, Peru e até mesmo o Paraguai, o Brasil mostrou-se vigilante, mas deslocado de todo e qualquer envolvimento.

Recentemente, com todas as falácias direcionadas contra a China, maior parceiro comercial brasileiro, e contra Cuba, o governo Bolsonaro tenta mostrar-se um ativo parceiro estadunidense, mas não consegue (ainda bem!) ultrapassar a barreira da retórica, aparecendo aos olhos internacionais como mais uma “republiqueta de terceiro mundo”. A tentativa de se contrapor ao governo venezuelano (mais um favor à Washington) esbarra na falta de condições efetivas para esse intuito. Desde a desastrada tentativa de invasão do território venezuelano em fevereiro de 2019 (por alguns alucinados bolsonaristas que a bordo de um pequeno caminhão de mudanças juravam entregar “ajuda humanitária” aos venezuelanos, mesmo contra a vontade das autoridades daquele país) que acabou em uma tragicômica batalha campal, o governo brasileiro não se pronunciava mais incisivamente sobre o país vizinho.

No último dia 19 de julho, a imprensa nacional e internacional comentou o novo relatório das Forças Armadas Brasileiras, que indicavam a América do Sul como um lugar de conflito, onde ameaças ao Brasil podem surgir; por isso, o planejamento específico para a região fazia-se necessário. O curioso desse planejamento é que ele está na contramão das ações do governo Bolsonaro, que abre mão de estabelecer laços comerciais e políticos com os países da área, em favor de promessas vãs feitas por Washington de que o Brasil poderá ter acento na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), possibilidades que não trariam absolutamente nenhum ganho para o país.

Não restam dúvidas que o governo Bolsonaro presta-se ao papel de desagregador na América Latina; sua participação no golpe de Estado contra o presidente Evo Morales na Bolívia e as tentativas contra o presidente venezuelano Nicolás Maduro não são uma novidade. As Forças Armadas Brasileiras já estiveram à serviço dos interesses estadunidenses algumas outras vezes: São Domingos 1965 e Haiti 2004.

Com a sua política vil e reacionária, Bolsonaro aluga as Forças Armadas Brasileiras aos interesses estadunidenses sem o menor pudor. Seu projeto entreguista é tão vazio e inócuo para o Brasil que é capaz de servir a qualquer um que dirija a Casa Branca, sendo republicano ou democrata. A submissão brasileira garantida por Bolsonaro gera lucratividade a Wall Street e segurança a Washington e nada de positivo ao povo brasileiro. A ausência de qualquer compromisso com os mais pobres e a falta de interesse em edificar um projeto independente que possa garantir ao Brasil lugar de destaque na economia mundo, coloca Bolsonaro entre os notórios páreas que já existiram em nosso continente, sempre governando de costas para a América Latina e de joelhos para os Estados Unidos.

É evidente que uma figura como Bolsonaro causa preocupação em todos que defendem a integração latino-americana sob o manto da concórdia e da cooperação, onde as forças nacionais e regionais possam constituir um bloco de ajuda mútua que supere a longeva dependência que carregamos fruto do colonialismo. Mas, há de considerar se existem condições objetivas para que as bravatas de Bolsonaro e sua quadrilha possam acontecer.

Dois pontos precisam ser analisados: 1) Existem condições para algum tipo de conflito de ordem estratégico ao longo da fronteira Brasil – Venezuela? 2) Existem condições táticas para ações militares por parte do Brasil contra a Venezuela?

Levando em consideração que a Venezuela não tem nenhum interesse fora de suas fronteiras, a primeira pergunta pode ser entendida como nula e seguindo na linha política, os centros de poderes venezuelanos ficam a centenas de quilômetros das fronteiras brasileiras, onde uma densa selva amazônica cria uma área natural de exclusão de contato. Por mais poluída que possa estar a mente de nossos militares contra o governo Maduro, por mais tacanho que possam ser os produtores desse relatório, não podemos deixar de observar o pragmatismo reinante na formação desses mesmos militares.

O almirante Craig Faller, chefe do Comando Sul das Forças Armadas dos Estados Unidos, num depoimento à Comissão de Forças Armadas do Senado dos Estados Unidos no dia 7 de fevereiro de 2019, anunciou que “até o fim do ano o Brasil enviará um general para servir como vice-comandante de interoperabilidade do Comando Sul”. Segundo Gilberto Maringoni, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, “o Exército brasileiro pode virar um puxadinho das Forças Armadas dos EUA”. Crédito: site 247.

Isso exige reconhecer que a Venezuela hoje é uma força militar em franca expansão, que a Venezuela tem em seu território sistemas de contramedidas fornecidos por Rússia e China e que a mesma não está só no âmbito da política continental. Os séculos de amizade entre venezuelanos e brasileiros têm feito de suas fronteiras uma das mais pacíficas da região, tornando desnecessária a militarização da região. Todos esses fatores dificultam qualquer estabelecimento de anteparos inamistosos por parte de Bolsonaro via Forças Armadas contra a Venezuela.

Desde que Bolsonaro assumiu o governo, os militares brasileiros divulgaram relatórios minimamente estranhos, que comprovam o estado de alienação que vivem nossos estrategistas. Se apostar em Bolsonaro já foi um sinal de despreparo, quando elencaram a França e agora a Venezuela (de maneira subliminar) como potenciais contendores, atestaram a mais profunda incompetência. Essa incompetência prossegue ao não compreender que o mundo do século XXI aponta para o Oriente, onde China e Rússia assumem a vanguarda, oferecendo uma miríade de oportunidades comerciais, mesmo com o BRICS, o governo Bolsonaro continua a ignorar tais facilidades. Submisso à Casa Branca, o Brasil de Bolsonaro não consegue planejar nada de factível a nível de estratégico no campo das Relações Internacionais.

Mesmo brandido o espantalho do comunismo, mesmo criando dossiês insanos e análises tacanhas, Bolsonaro não é capaz de fazer uma guerra contra a Venezuela, no máximo uma embosca. Os oficiais que o cercam precisam compreender que, com Bolsonaro, a derrota é iminente em todas as áreas. Bolsonaro porta-se como um garoto de recados de Donald Trump, ridicularizando com isso as Forças Armadas Brasileiras. A guerra de mentira de Bolsonaro tem mais efetividade no WhatsApp do que no campo de batalha. Até porque, não podemos esquecer o célebre aviso dos próprios militares em 2012: “só temos munição para uma hora de guerra”!

João Claudio Platenik Pitillo
Doutorando em História Social pela UNIRIO e pesquisador do Núcleo de Estudo das Américas da UERJ 

Roberto Santana Santos
Doutor em Políticas Públicas e Mestre em História Política pela UERJ. Professor da Faculdade de Educação da UERJ e Secretário-executivo da REGGEN-UNESCO

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